A Mishná · הַמִּשְׁנָה
Encerrando o tratado inteiro, a última mishná estabelece a estrutura técnica precisa da tocada do shofar — a ordem de três séries de três sons, a medida exata de cada tekiá e teruá — e conclui com a disputa entre Rabán Gamliel e os Sábios sobre se o oficiante da sinagoga desobriga também quem já sabe orar por conta própria.
A ordem das tocadas: três, de três de três. A medida da tekiá é como três teruot; a medida da teruá é como três guemidos. — Cada uma das três bênçãos especiais de Musaf — Malchuyot, Zichronot e Shofarot — é acompanhada por uma série completa de três sons: tekiá, teruá e tekiá. A duração de uma tekiá equivale, em tempo, à de três teruot; e a duração de uma teruá, por sua vez, equivale à de três gemidos breves e trêmulos, a unidade sonora mais elementar da tocada.
Tocou a primeira, e prolongou a segunda como duas — não tem em sua mão senão uma. — Se alguém tocar a primeira tekiá normalmente, mas depois prolongar a tekiá final de forma a tentar contá-la simultaneamente como o fim de uma série e o início da próxima, essa tentativa de "economizar" uma tocada fracassa: ele cumpre apenas uma única tekiá, e precisa iniciar a série seguinte com um som totalmente novo.
Quem já abençoou, e depois lhe chegou um shofar — toca, e faz teruá, e toca, três vezes. — Se alguém já completou as bênçãos de Musaf sem ter tido acesso a um shofar, e este lhe chega apenas depois, ele ainda pode tocar as três séries completas retroativamente, ainda que fora da sequência litúrgica ideal, cumprindo assim a mitzvá mesmo com esse atraso.
Assim como o oficiante público está obrigado, também cada indivíduo está obrigado. Rabán Gamliel diz: O oficiante público desobriga o público de sua obrigação. — A mishná encerra o tratado com uma disputa fundamental sobre a natureza da oração pública: segundo a opinião anônima, cada pessoa, mesmo quem já sabe orar sozinha, permanece pessoalmente obrigada a rezar por si mesma, e a repetição do oficiante não a desobriga; Rabán Gamliel discorda, sustentando que a oração do oficiante desobriga toda a congregação — tanto os que não sabem orar sozinhos quanto os que sabem — sendo esta última a opinião que prevalece na halachá, especificamente quanto às longas bênçãos de Rosh Hashaná e Yom Kipur.
סֵדֶר תְּקִיעוֹת, שָׁלשׁ, שֶׁל שָׁלשׁ שָׁלשׁ. שִׁעוּר תְּקִיעָה כְּשָׁלשׁ תְּרוּעוֹת. שִׁעוּר תְּרוּעָה כְּשָׁלשׁ יְבָבוֹת. תָּקַע בָּרִאשׁוֹנָה, וּמָשַׁךְ בַּשְּׁנִיָּה כִשְׁתַּיִם, אֵין בְּיָדוֹ אֶלָּא אֶחָת. מִי שֶׁבֵּרַךְ וְאַחַר כָּךְ נִתְמַנָּה לוֹ שׁוֹפָר, תּוֹקֵעַ וּמֵרִיעַ וְתוֹקֵעַ שָׁלשׁ פְּעָמִים. כְּשֵׁם שֶׁשְּׁלִיחַ צִבּוּר חַיָּב, כָּךְ כָּל יָחִיד וְיָחִיד חַיָּב. רַבָּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר, שְׁלִיחַ צִבּוּר מוֹצִיא אֶת הָרַבִּים יְדֵי חוֹבָתָן:
Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה
Vayikrá 25:9
וְהַעֲבַרְתָּ שׁוֹפַר תְּרוּעָה בַּחֹדֶשׁ הַשְּׁבִעִי... תַּעֲבִירוּ שׁוֹפָר בְּכָל אַרְצְכֶם.
E farás soar o shofar de terua, no sétimo mês... fareis soar o shofar em toda a vossa terra.
Este mesmo verso, já citado em mishnayot anteriores deste perek, fornece a base textual para o formato tripartite de cada tocada: uma tekiá simples antes da teruá, e outra depois dela. A tradição deriva do verbo "farás soar" no início do verso a exigência de um som simples que precede a teruá, e do verbo "fareis soar" ao final do mesmo verso a exigência de outro som simples que a sucede — de modo que cada teruá fica sempre emoldurada por duas tekiot. E como a palavra "teruá" aparece três vezes distintas nos versos relativos a Rosh Hashaná e Yom Kipur do Iovel — neste verso de Vayikrá 25, em Vayikrá 23:24 e em Bamidbar 29:1 — os Sábios derivam que se devem tocar três teruot completas, cada uma emoldurada por suas duas tekiot correspondentes, totalizando as nove tocadas obrigatórias que compõem a estrutura completa da mitzvá.
Halachot · הֲלָכוֹת
Rambam explica a incerteza histórica sobre a natureza exata do som da teruá, que levou à prática de tocar em múltiplos formatos combinados, e Bartenura resume a halachá final sobre a disputa entre Rabán Gamliel e os Sábios.
Rambam · Perush HaMishná, Rosh Hashaná 4:9
נִתְחַדֵּשׁ לָנוּ סָפֵק אִם הַתְּרוּעָה הַנִּזְכֶּרֶת בַּתּוֹרָה הִיא אוֹתָהּ שֶׁאָנוּ קוֹרִין הַיּוֹם תְּרוּעָה, וְהִיא כְּמוֹ יְלָלָה, אוֹ אִם ג' שְׁבָרִים הִיא הַתְּרוּעָה, אוֹ אִם שֵׁם תְּרוּעָה נוֹפֵל עַל שְׁנֵי מִינִים. וּלְפִיכָךְ אָנוּ תּוֹקְעִין תשר"ת תש"ת תר"ת ג' פְּעָמִים.
Surgiu-nos, com o passar das gerações, uma dúvida sobre se a teruá mencionada na Torá é aquela que hoje chamamos de teruá — um som semelhante a um lamento trêmulo — ou se é composta por três sons quebrados (shevarim), ou ainda se o próprio nome "teruá" abrange ambos os tipos de som. E é por essa incerteza que tocamos, hoje, três combinações completas — tashrat, tashat e tarat — de modo a cumprir a mitzvá segundo todas as interpretações possíveis, garantindo que, qualquer que seja a leitura correta, a obrigação tenha sido satisfeita.
Bartenura · Rosh Hashaná 4:9
וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים בְּבִרְכוֹת שֶׁל כָּל הַשָּׁנָה, שֶׁאֵין שְׁלִיחַ צִבּוּר מוֹצִיא אֶלָּא אֶת שֶׁאֵינוֹ בָּקִי, אֲבָל בְּבִרְכוֹת שֶׁל רֹאשׁ הַשָּׁנָה וְשֶׁל יוֹם הַכִּפּוּרִים וְשֶׁל יוֹבֵל שֶׁהֵן תֵּשַׁע בְּרָכוֹת אֲרֻכּוֹת וְאֵין הַכֹּל בְּקִיאִין בָּהֶן, הֲלָכָה כְּרַבָּן גַּמְלִיאֵל, שֶׁכְּשֵׁם שֶׁמּוֹצִיא אֶת שֶׁאֵינוֹ בָּקִי כָּךְ מוֹצִיא אֶת הַבָּקִי.
E a halachá segue os Sábios quanto às bênçãos do ano comum — em que o oficiante público só desobriga quem não sabe orar sozinho; mas quanto às bênçãos de Rosh Hashaná, de Yom Kipur e do Iovel, que são nove bênçãos longas e complexas, das quais nem todos são versados, a halachá segue Rabán Gamliel — de modo que, assim como o oficiante desobriga quem não sabe orar, ele desobriga igualmente quem sabe. Encerra-se assim o tratado com uma decisão prática que reconhece a extensão e a dificuldade únicas da liturgia deste dia.
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
Rashi detalha o cálculo exato das seis tekiot e três teruot que compõem a estrutura de "três séries de três", e a razão pela qual a tekiá prolongada não pode contar em dobro.
Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Rosh Hashaná 33b
מַתְנִי׳ סֵדֶר תְּקִיעוֹת שָׁלֹשׁ כוּ׳ — אַחַת לְמַלְכֻיּוֹת וְאַחַת לְזִכְרוֹנוֹת וְאַחַת לְשׁוֹפָרוֹת: שָׁלֹשׁ שֶׁל שָׁלֹשׁ שָׁלֹשׁ — תְּקִיעָה וּתְרוּעָה וּתְקִיעָה לְכָל אַחַת וְאַחַת: שָׁלֹשׁ יְבָבוֹת — שָׁלֹשׁ קוֹלוֹת בְּעָלְמָא כָּל שֶׁהוּא: תָּקַע בָּרִאשׁוֹנָה — פְּשׁוּטָה שֶׁלִּפְנֵי הַתְּרוּעָה תָּקַע כְּדַרְכָּהּ: וּמָשַׁךְ בַּשְּׁנִיָּה — תְּקִיעָה שֶׁל אַחַר הַתְּרוּעָה מָשַׁךְ כִּשְׁתַּיִם, לָצֵאת בָּהּ יְדֵי שְׁתַּיִם שֶׁהָיָה צָרִיךְ לַעֲשׂוֹת זוֹ פְּשׁוּטָה שֶׁלְּאַחֲרֶיהָ דְּמַלְכֻיּוֹת וּפְשׁוּטָה שֶׁלְּפָנֶיהָ דְּזִכְרוֹנוֹת: אֵין בְּיָדוֹ אֶלָּא אֶחָת — דְּפָסוּקֵי תְּקִיעָה אַחַת לִשְׁתַּיִם לֹא מַפְסְקִינַן.
"Nossa mishná: a ordem das tocadas, três" etc. — uma série para Malchuyot, uma para Zichronot e uma para Shofarot. "Três, de três de três" — tekiá, teruá e tekiá para cada uma das três séries. "Três gemidos" — meros três sons breves, de qualquer natureza mínima. "Tocou a primeira" — a tekiá simples que precede a teruá, tocada normalmente, sem qualquer artifício. "E prolongou a segunda" — a tekiá que vem depois da teruá, estendendo-a como se fossem duas, na tentativa de que ela sirva simultaneamente como a tekiá final de uma série — a de Malchuyot — e como a tekiá inicial da série seguinte — a de Zichronot. "Não tem em sua mão senão uma" — pois não se pode dividir uma única tekiá contínua para que sirva a dois propósitos distintos; cada série exige seu próprio som inaugural independente.
סְלִיק מַסֶּכְתָּא דְּרֹאשׁ הַשָּׁנָה
Aqui se conclui Massechet Rosh Hashaná — o oitavo tratado de Seder Moed, dedicado aos quatro inícios de ano, à santificação do novo mês por testemunhas, e ao dia do juízo marcado pelo toque do shofar. O Perek Dalet, último do tratado, com nove mishnayot, tratou das instituições finais que preservam a mitzvá do shofar e da liturgia de Rosh Hashaná mesmo sem o Templo: a tocada em Shabat restrita ao Templo e, depois de sua destruição, estendida por Rabán Yochanan ben Zakai a todo lugar com tribunal, e a disputa com Rabi Elazar sobre o alcance dessa instituição (4:1); a antiga vantagem de Jerusalém sobre Iavne quanto às cidades vizinhas que também tocavam o shofar (4:2); a extensão do lulav a sete dias em toda parte e a proibição do grão novo por todo o dia da omer, ambas em memória do Templo (4:3); a evolução do horário-limite para aceitar testemunhas do mês, do incidente dos levitas confusos no cântico à restauração por Rabán Yochanan ben Zakai, com o acréscimo de Rabi Yehoshua ben Korcha sobre o local fixo do tribunal (4:4); a ordem das bênçãos de Musaf e a disputa entre Rabi Yochanan ben Nuri e Rabi Akiva sobre a posição de Malchuyot (4:5); o número mínimo de versos em cada bênção e a exclusão dos versos de castigo (4:6); a divisão de funções entre o oficiante da manhã e o de Musaf quanto à tocada e ao Hallel (4:7); as restrições de Shabat sobre a busca e o corte do shofar, e a permissão de treinar as crianças (4:8); e, nesta última mishná, a estrutura precisa das tocadas e a disputa final entre Rabán Gamliel e os Sábios sobre se o oficiante desobriga também quem sabe orar sozinho (4:9).
Massechet Rosh Hashaná percorreu, ao longo de seus quatro capítulos e trinta e quatro mishnayot, todo o arco das leis do dia do juízo: os quatro inícios de ano, o sistema de mensageiros e fachos para anunciar o novo mês, e as condições do testemunho de testemunhas, incluindo o episódio de Rabi Akiva em Lod (Perek Alef); o exame minucioso das testemunhas pelo tribunal, a instituição do techum de Beit Yaazek por Rabán Gamliel o Velho, e o confronto e reconciliação entre Rabán Gamliel e Rabi Yehoshua sobre a autoridade do tribunal (Perek Bet); o shofar e sua tocada — os tipos de chifre aptos, a equiparação ao Iovel, as condições de validade, e o princípio da intenção do coração ilustrado pelas mãos de Moshé e a serpente de cobre (Perek Guimel); e, por fim, este último perek, sobre as instituições de Rabán Yochanan ben Zakai após a destruição do Templo e a estrutura final da liturgia e da tocada (Perek Dalet). Por possuir Guemará no Talmud Bavli, cada mishná deste tratado reuniu, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva folha do Talmud.
Com o encerramento deste tratado, o estudo da Mishná prossegue para os demais tratados de Seder Moed — Taanit, Megilá, Moed Katan e Chagigá —, cada um dedicado a uma festividade ou aspecto do calendário sagrado judaico, somando-se aos tratados já concluídos de Shabat, Eruvin, Pessachim, Shekalim, Yoma, Sucá, Beitzá e agora Rosh Hashaná.