Seder Moed · Massechet Rosh Hashaná · Perek Dalet · Mishná 3 de 9

O lulav em memória do Templo

בָּרִאשׁוֹנָה הָיָה הַלּוּלָב נִטָּל בַּמִּקְדָּשׁ שִׁבְעָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná registra duas outras instituições de Rabán Yochanan ben Zakai após a destruição do Templo, ambas motivadas pelo desejo de preservar sua memória: a extensão da mitzvá do lulav a sete dias em toda parte, e a proibição de comer do grão novo durante todo o dia da omer.

No início, o lulav era tomado no Templo por sete dias, e na província, um dia.Enquanto o Templo ainda estava de pé, a mitzvá bíblica de tomar o lulav durante os sete dias de Sucot se cumpria em sua plenitude apenas dentro do próprio Templo; em qualquer outro lugar do país, ela se cumpria apenas no primeiro dia da festa.

Depois que o Templo foi destruído, instituiu Rabán Yochanan ben Zakai que o lulav fosse tomado na província por sete dias, em memória do Templo.Após a destruição, Rabán Yochanan ben Zakai estendeu a obrigação de tomar o lulav por todos os sete dias também fora do Templo, em qualquer lugar — uma extensão que não restaura literalmente a mitzvá do Templo, mas serve para preservar viva sua memória entre o povo.

E que o dia inteiro da omer fosse proibido.Nessa mesma instituição, Rabán Yochanan ben Zakai também determinou que se proibisse comer do grão novo da colheita durante todo o dezesseis de Nisan, o dia da apresentação do omer — mesmo depois que, por Torá, o novo grão já se tornaria permitido a partir do amanhecer, na ausência do próprio Templo onde a oferenda seria trazida.

בָּרִאשׁוֹנָה הָיָה הַלּוּלָב נִטָּל בַּמִּקְדָּשׁ שִׁבְעָה, וּבַמְּדִינָה יוֹם אֶחָד. מִשֶּׁחָרַב בֵּית הַמִּקְדָּשׁ, הִתְקִין רַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי שֶׁיְהֵא לוּלָב נִטָּל בַּמְּדִינָה שִׁבְעָה זֵכֶר לַמִּקְדָּשׁ, וְשֶׁיְּהֵא יוֹם הָנֵף כֻּלּוֹ אָסוּר:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikrá 23:40
וּלְקַחְתֶּם לָכֶם בַּיּוֹם הָרִאשׁוֹן... וּשְׂמַחְתֶּם לִפְנֵי ה' אֱלֹהֵיכֶם שִׁבְעַת יָמִים.
E tomareis para vós no primeiro dia... e vos alegrareis perante o Eterno, vosso D'us, por sete dias.

A tradição lê este verso como estabelecendo dois níveis distintos de obrigação: "tomareis para vós no primeiro dia" é a mitzvá por Torá válida em qualquer lugar, enquanto "e vos alegrareis perante o Eterno, vosso D'us, por sete dias" — associada à presença explícita "perante o Eterno" — é a extensão de sete dias válida apenas dentro do Templo. A instituição de Rabán Yochanan ben Zakai não altera essa leitura bíblica original; ela cria, em vez disso, uma nova camada de obrigação rabínica, que estende artificialmente a experiência de sete dias de lulav para fora do Templo, precisamente "em memória do Templo" — reconhecendo, na própria linguagem da mishná, que se trata de uma lembrança e não de uma restituição plena daquilo que se perdeu com a destruição.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rashi e Rambam explicam a base bíblica da distinção original entre Templo e província, e a lógica da proibição extra sobre o grão novo.

Rashi · Rosh Hashaná 30a
מַתְנִי׳ בָּרִאשׁוֹנָה הָיָה הַלּוּלָב נִטָּל בַּמִּקְדָּשׁ שִׁבְעָה — דִּכְתִיב "וּשְׂמַחְתֶּם לִפְנֵי ה' אֱלֹהֵיכֶם שִׁבְעַת יָמִים", וּבַמְּדִינָה יוֹם אֶחָד, דִּכְתִיב "וּלְקַחְתֶּם לָכֶם בַּיּוֹם הָרִאשׁוֹן".

"Nossa mishná: no início, o lulav era tomado no Templo por sete dias" — pois está escrito "e vos alegrareis perante o Eterno, vosso D'us, por sete dias", associando explicitamente a duração de sete dias à presença divina do Templo; "e na província, um dia" — pois está escrito, na primeira parte do mesmo verso, apenas "e tomareis para vós no primeiro dia", sem menção aos sete dias.

Rashi · Rosh Hashaná 30a
וְשֶׁיְּהֵא יוֹם הָנֵף כֻּלּוֹ אָסוּר — יוֹם הֲנָפַת עֹמֶר כֻּלּוֹ אָסוּר לֶאֱכֹל מִן הֶחָדָשׁ, וּמִדְּאוֹרַיְתָא מִשֶּׁהֵאִיר מִזְרָח מֻתָּר... בִּזְמַן הַבַּיִת עֹמֶר מַתִּיר, וּבִזְמַן שֶׁאֵין עֹמֶר עֶצֶם הַיּוֹם מַתִּיר.

"E que o dia inteiro da omer fosse proibido" — refere-se ao dia da apresentação da oferenda de omer, que se tornou inteiramente proibido para o consumo do grão novo. E, por Torá, já a partir de quando o horizonte oriental clareia, o grão se tornaria permitido — pois, enquanto o Templo estava de pé, era a própria oferenda de omer que tornava o grão permitido; mas em tempos sem o Templo, é o próprio decorrer do dia que o torna permitido — daí a razão para a instituição adicional de Rabán Yochanan ben Zakai, prolongando a proibição por todo o dia dezesseis, para que não se confundisse a ausência do Templo com uma permissão mais cedo do que deveria.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam situa esta mishná na sequência das instituições de Rabán Yochanan ben Zakai, todas fundamentadas no princípio geral de agir em memória do Templo.

Rambam · רַמְבַּ״ם
Perush HaMishná, Rosh Hashaná 4:3
זֵכֶר לַמִּקְדָּשׁ — כְּמוֹ שֶׁהִתְקִין בְּעִנְיָנִים אֲחֵרִים לְזִכְרוֹן בֵּית הַמִּקְדָּשׁ, כְּדֵי שֶׁלֹּא יִשְׁתַּכַּח מִיִּשְׂרָאֵל.

"Em memória do Templo" — assim como instituiu em outras questões semelhantes, todas com o propósito de preservar a memória do Templo, para que ele não caísse em esquecimento entre o povo de Israel enquanto se aguardava sua reconstrução. É esse mesmo princípio geral que unifica as várias instituições atribuídas a Rabán Yochanan ben Zakai ao longo deste perek — a tocada do shofar em qualquer lugar com tribunal, a extensão do lulav a sete dias, e a proibição do grão novo por todo o dia da omer — todas concebidas não como restituições literais do que se perdeu, mas como lembranças ativas que mantêm viva, na prática cotidiana do povo, a expectativa de retorno.