Seder Zeraim · Massechet Peá · Perek Chet · Mishná 9 (última da massechet)

"Quem tem cinquenta zuz"

מִי שֶׁיֶּשׁ לוֹ חֲמִשִּׁים זוּז
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná final: confiança, integridade e retidão

1 Quem tem cinquenta zuz e negocia com eles, este não toma.

2 E todo aquele que não precisa tomar e toma, não partirá deste mundo antes de precisar das criaturas.

3 E todo aquele que precisa tomar e não toma, não morrerá de velhice antes de sustentar outros com o que é seu — e sobre ele o versículo diz: "Bendito é o homem que confia no Eterno, e o Eterno é sua confiança" (Yirmeyahu 17).

4 E assim também o juiz que julga um julgamento de verdade, em sua verdade.

5 E todo aquele que não é manco, nem cego, nem coxo, e se faz passar por um deles, não morrerá de velhice antes de se tornar como um deles, como está dito: "justiça, justiça perseguirás" (Devarim 16).

6 E todo juiz que toma suborno e tuerce o julgamento, não morrerá de velhice antes que seus olhos se enfraqueçam, como está dito: "e suborno não tomarás, pois o suborno cega os que veem" (Shemot 23).

מִי שֶׁיֶּשׁ לוֹ חֲמִשִּׁים זוּז וְהוּא נוֹשֵׂא וְנוֹתֵן בָּהֶם, הֲרֵי זֶה לֹא יִטֹּל. וְכָל מִי שֶׁאֵינוֹ צָרִיךְ לִטֹּל וְנוֹטֵל, אֵינוֹ נִפְטָר מִן הָעוֹלָם עַד שֶׁיִּצְטָרֵךְ לַבְּרִיּוֹת. וְכָל מִי שֶׁצָּרִיךְ לִטֹּל וְאֵינוֹ נוֹטֵל, אֵינוֹ מֵת מִן הַזִּקְנָה עַד שֶׁיְּפַרְנֵס אֲחֵרִים מִשֶּׁלּוֹ, וְעָלָיו הַכָּתוּב אוֹמֵר בָּרוּךְ הַגֶּבֶר אֲשֶׁר יִבְטַח בַּה' וְהָיָה ה' מִבְטַחוֹ (ירמיה יז). וְכֵן דַּיָּן שֶׁדָּן דִּין אֱמֶת לַאֲמִתּוֹ. וְכָל מִי שֶׁאֵינוֹ לֹא חִגֵּר, וְלֹא סוּמָא, וְלֹא פִסֵּחַ, וְעוֹשֶׂה עַצְמוֹ כְּאַחַד מֵהֶם, אֵינוֹ מֵת מִן הַזִּקְנָה עַד שֶׁיִּהְיֶה כְּאֶחָד מֵהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר (דברים טז) צֶדֶק צֶדֶק תִּרְדֹּף. וְכָל דַּיָּן שֶׁלּוֹקֵחַ שֹׁחַד וּמַטֶּה אֶת הַדִּין, אֵינוֹ מֵת מִן הַזִּקְנָה עַד שֶׁעֵינָיו כֵּהוֹת, שֶׁנֶּאֱמַר (שמות כג) וְשֹׁחַד לֹא תִקָּח כִּי הַשֹּׁחַד יְעַוֵּר פִּקְחִים וְגוֹ':

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A mishná final do tratado eleva o discurso do critério econômico para o caráter moral — completando o ciclo de Peá com uma reflexão sobre honestidade, dignidade e confiança em D'us.

Yirmeyahu (Jeremias) 17:7
בָּרוּךְ הַגֶּבֶר אֲשֶׁר יִבְטַח בַּה׳, וְהָיָה ה׳ מִבְטַחוֹ.
"Bendito é o homem que confia no Eterno, e o Eterno é sua confiança."
Devarim (Deuteronômio) 16:20
צֶדֶק צֶדֶק תִּרְדֹּף, לְמַעַן תִּחְיֶה וְיָרַשְׁתָּ אֶת הָאָרֶץ אֲשֶׁר ה׳ אֱלֹהֶיךָ נֹתֵן לָךְ.
"Justiça, justiça perseguirás, para que vivas e herdes a terra que o Eterno, teu Deus, te dá."
Shemot (Êxodo) 23:8
וְשֹׁחַד לֹא תִקָּח, כִּי הַשֹּׁחַד יְעַוֵּר פִּקְחִים וִיסַלֵּף דִּבְרֵי צַדִּיקִים.
"E suborno não tomarás, pois o suborno cega os que veem e distorce as palavras dos justos."

Por que esta Mishná gira em torno destes versículos. Depois de nove capítulos definindo com precisão técnica quem tem direito às dádivas agrícolas — a peá, o leket, a shichechá, o maasser ani — a Mishná encerra o tratado com uma advertência que transcende a lei: os critérios objetivos que a Torá e os Sábios fixaram (duzentos zuz, cinquenta zuz em giro comercial) não são apenas linhas técnicas, mas testes morais de honestidade. Quem verdadeiramente não precisa e ainda assim toma as dádivas dos pobres comete um roubo silencioso contra quem de fato precisa, e a Mishná adverte que essa pessoa, mais cedo ou mais tarde, conhecerá a necessidade real. Já quem precisa e, por orgulho ou vergonha, se abstém de tomar, é elogiado com o versículo de Yirmeyahu — pois sua confiança recai sobre o Eterno, não sobre os homens, e a Mishná promete que ele prosperará a ponto de sustentar outros. A mesma lógica se estende ao juiz: assim como a honestidade patrimonial exige revelar a verdade sobre os próprios recursos, a integridade judicial exige "perseguir a justiça" sem fingimento nem distorção — e quem finge deficiência para obter dádivas indevidas, ou quem, sendo juiz, distorce o julgamento por suborno, sofrerá, segundo a Mishná, a própria deficiência ou cegueira que simulou ou causou.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam e no Shulchan Aruch.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Matnot Aniyim 9:15–9:16
כָּל מִי שֶׁיֵּשׁ לוֹ חֲמִשִּׁים זוּז וְנוֹשֵׂא וְנוֹתֵן בָּהֶם אוֹ עוֹסֵק בִּמְלָאכָה שֶׁמִּתְפַּרְנֵס מִמֶּנָּה, הֲרֵי זֶה לֹא יִטֹּל מַתְּנוֹת עֲנִיִּים. וְכָל מִי שֶׁאֵינוֹ צָרִיךְ לִטֹּל וּמְרַמֶּה אֶת הָעֵינַיִם וְנוֹטֵל, אֵינוֹ מֵת מִן הַזִּקְנָה עַד שֶׁיִּצְטָרֵךְ לַבְּרִיּוֹת. וְכָל מִי שֶׁצָּרִיךְ לִטֹּל וְאֵינוֹ יָכוֹל לִחְיוֹת אֶלָּא אִם כֵּן נָטַל, כְּגוֹן זָקֵן אוֹ חוֹלֶה אוֹ בַּעַל יִסּוּרִים, וְהוּא מְגַסֶּה בְעַצְמוֹ וְאֵינוֹ נוֹטֵל, הֲרֵי זֶה שׁוֹפֵךְ דָּמִים וּמִתְחַיֵּב בְּנַפְשׁוֹ, וְאֵין לוֹ בְּצַעֲרוֹ אֶלָּא עֲוֹנוֹת וַחֲטָאִים. אֲבָל מִי שֶׁאֵין לוֹ צֹרֶךְ וְסוֹבֵל וּמְצַעֵר עַצְמוֹ וְאֵינוֹ נֶהֱנֶה מִן הַצְּדָקָה, וּמְנַהֵג עַצְמוֹ בְּצַעַר כְּדֵי שֶׁלֹּא יַטְרִיחַ עַל הַצִּבּוּר, הֲרֵי זֶה מִגְּדוֹלֵי בַּעֲלֵי מִדּוֹת וְעָלָיו נֶאֱמַר בָּרוּךְ הַגֶּבֶר אֲשֶׁר יִבְטַח בַּה׳.
Todo aquele que tem cinquenta zuz e negocia com eles, ou se ocupa de um ofício com que se sustenta, não toma as dádivas dos pobres. E todo aquele que não precisa tomar e engana os olhos e toma, não morrerá de velhice antes de precisar das criaturas. E todo aquele que precisa tomar e não pode viver a menos que tome — como um idoso, um doente, ou alguém que sofre — e se torna insensível a si mesmo e não toma, este derrama sangue e se torna culpado por sua própria vida, e não tem, por seu sofrimento, senão iniquidades e pecados. Mas quem não tem essa necessidade real e apenas suporta e se aflige, e não se beneficia da caridade, conduzindo-se com sofrimento para não sobrecarregar o público, este é dos grandes possuidores de virtudes, e sobre ele foi dito: "bendito é o homem que confia no Eterno."
Shulchan Aruch, Yoreh Deá 255:1–2
כָּל מִי שֶׁאֵינוֹ צָרִיךְ לִטֹּל וּמְרַמֶּה אֶת הָעֵינַיִם וְנוֹטֵל, אֵינוֹ מֵת מִן הַזִּקְנָה עַד שֶׁיִּצְטָרֵךְ לַבְּרִיּוֹת. וְכָל מִי שֶׁצָּרִיךְ לִטֹּל צְדָקָה וְאֵינוֹ נוֹטֵל, אֶלָּא מַגְסֶה עַצְמוֹ וְחַי בְּצַעַר, כְּדֵי שֶׁלֹּא יַטְרִיחַ עַצְמוֹ עַל הַצִּבּוּר, הֲרֵי זֶה בְּכְלַל שׁוֹפְכֵי דָמִים וּמִתְחַיֵּב בְּנַפְשׁוֹ, וְאֵין לוֹ בְּצַעֲרוֹ אֶלָּא עֲוֹנוֹת וַחֲטָאִים.
Todo aquele que não precisa tomar e engana os olhos e toma, não morrerá de velhice antes de precisar das criaturas. E todo aquele que precisa tomar caridade e não toma, mas se torna insensível e vive em sofrimento para não sobrecarregar o público, este está incluído entre os que derramam sangue e se torna culpado por sua própria vida, e não tem, por seu sofrimento, senão iniquidades e pecados.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta última Mishná do tratado.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Peá 8:9
חֲמִשִּׁים זוּז אֲשֶׁר יִסְחֲרוּ בָהֶם, יִשְׁווּ מָאתַיִם שֶׁלֹּא יִסְחֲרוּ בָהֶם, כִּי בְמַה שֶּׁאָמַר בַּהֲלָכָה הַקּוֹדֶמֶת לָזוֹ, מִי שֶׁיֵּשׁ לוֹ מָאתַיִם זוּז לֹא יִטֹּל, כְּשֶׁיִּהְיוּ בְטֵלוֹת שֶׁאֵינוֹ יוֹדֵעַ לִסְחֹר בָּהֶם. אֲבָל כְּשֶׁיִּהְיֶה יוֹדֵעַ לִסְחֹר בָּהֶם, אֲפִלּוּ לֹא יִתְעַסֵּק אֶלָּא בַּחֲמִשִּׁים זוּזִים מֵהֶם, אָסוּר לוֹ לִקַּח מַתְּנוֹת הָעֲנִיִּים.

Cinquenta zuz com os quais se negocia equivalem a duzentos zuz parados sem negociar, pois quando disse na halachá anterior a esta "quem tem duzentos zuz não toma", isso é quando estão parados e ele não sabe negociar com eles. Mas quando ele sabe negociar com eles, mesmo que se ocupe apenas com cinquenta zuz deles, é proibido a ele tomar as dádivas dos pobres.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Peá 8:9
מִי שֶׁיֶּשׁ לוֹ חֲמִשִּׁים זוּז וְכוּ׳. דַּחֲמִשִּׁין דְּעָבְדִין טָבִין כְּמָאתַיִם דְּלֹא עָבְדִין. וְכָל מִי שֶׁצָּרִיךְ לִטֹּל וְאֵינוֹ נוֹטֵל וְכוּ׳. כְּגוֹן שֶׁדּוֹחֵק עַצְמוֹ בִּמְלָאכָה וּמִסְתַּפֵּק בְּמַעֲשֵׂה יָדָיו כְּדֵי שֶׁלֹּא יִתְפַּרְנֵס מֵאֲחֵרִים. אֲבָל אִם אֵין מַעֲשֵׂה יָדָיו מַסְפִּיקִין לוֹ וּמְסַגֵּף עַצְמוֹ בְּחַיֵּי צַעַר קְרוֹבִין לְמִיתָה, עַל זֶה אָמְרוּ כָּל הַצָּרִיךְ לִטֹּל וְאֵינוֹ נוֹטֵל הֲרֵי זֶה שׁוֹפֵךְ דָּמִים, וְאָסוּר לְרַחֵם עָלָיו, עַל נַפְשֵׁיהּ לֹא חָיֵס כָּל שֶׁכֵּן עַל אֲחֵרִים.

"Quem tem cinquenta zuz etc.": porque cinquenta zuz que produzem bom rendimento equivalem a duzentos que não produzem.

"E todo aquele que precisa tomar e não toma etc.": como aquele que se esforça no trabalho e se sustenta com o produto de suas próprias mãos, para não se sustentar de outros — mas se o produto de suas mãos não lhe basta, e ele se aflige a si mesmo numa vida de sofrimento próxima da morte, sobre isso disseram: "todo aquele que precisa tomar e não toma, este derrama sangue", e é proibido ter piedade dele — pois quem não tem piedade de sua própria vida, tanto mais não a terá pela de outros.

Massechet Peá não possui Guemará no Talmud Bavli (é um dos tratados da Ordem de Zeraim sem comentário talmúdico, com exceção de Berachot) — por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.
סְלִיק מַסֶּכֶת פֵּאָה
Aqui se conclui Massechet Peá — os oito perakim, sessenta e nove mishnayot, sobre as dádivas que a Torá ordena deixar aos pobres no momento da colheita.