Uma roupa que a tingiu com cascas de orlá (cascas de frutos proibidos por orlá — como as de romãs e nozes, que servem de corante — que, por serem parte do fruto proibido, carregam também elas a proibição de qualquer proveito), será queimada (a roupa inteira, já que a tinta de orlá se espalhou por todo o tecido e não há como separar o proveito proibido do restante). Se se misturou com outras (a roupa tingida com orlá se confundiu, sem identificação possível, entre um conjunto de outras roupas não tingidas com orlá), todas serão queimadas — palavras de Rabi Meir (Rabi Meir considera a roupa um item "que costuma ser contado" — um objeto de valor individual e identificável, não uma substância que se dilui numa massa —, e por isso não se aplica a ela a regra comum de anulação por proporção). E os Sábios dizem: sobe em um e duzentos (discordam de Rabi Meir: mesmo tratando-se de um objeto individual como uma roupa, ele se anula na proporção padrão de proibições vedadas também em proveito — uma parte proibida para cada duzentas partes permitidas).
A mishná aplica ao caso concreto do tingimento a proibição bíblica de proveito de orlá, já estabelecida no Perek Alef e retomada como base da proporção de anulação no Perek Bet.
Por que o Perek Guimel abre com um caso de tingimento de roupa, e não com um alimento diretamente proibido por orlá? A escolha reflete a lógica de todo o capítulo: depois de o Perek Bet ter estabelecido o aparato teórico das proporções de anulação (1:100 para trumá, 1:200 para orlá e kilei hakerem), o Perek Guimel demonstra a aplicação prática desse aparato a um leque de casos concretos, do mais indireto (cascas usadas como corante) ao mais direto (comida cozida com as cascas, mishná 4). O caso da roupa também introduz, logo na abertura, o eixo central do capítulo: a distinção entre objetos "que costumam ser contados" — como a própria roupa, segundo Rabi Meir — e substâncias comuns, que se anulam pela proporção padrão segundo os Sábios. Essa distinção será desenvolvida a fundo nas mishnayot 7-8, sobre os itens que "santificam" (proíbem) em qualquer quantidade.
O Rambam codifica exatamente este caso em Hilchot Maachalot Assurot, capítulo 16, halachá 20, seguindo a posição dos Sábios contra Rabi Meir.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná de abertura do Perek Guimel.
Já explicamos que a orlá é proibida em proveito, e é proibido tingir com ela, e não fazer com ela nenhuma outra coisa (o Rambam remete o leitor ao princípio geral, já estabelecido nos perakim anteriores, de que a proibição de orlá abrange todo tipo de proveito, e não apenas o consumo direto do fruto — o tingimento de tecido sendo apenas um exemplo particular dessa proibição mais ampla).
"Roupa que a tingiu com cascas de orlá": como cascas de nozes e romãs, pois também as cascas são proibidas em proveito, conforme se ensina [a partir da expressão] "seu fruto" — incluindo o que é acessório ao fruto (o Bartenura explica a base exegética: a Torá não menciona apenas "o fruto", mas emprega uma formulação que os sábios interpretam como abrangendo também elementos secundários, como a casca). "Será queimada": porque é proibida em proveito, como está escrito "considerareis incircunciso o seu fruto" — que não se tenha proveito dele, nem se tinja com ele, nem se acenda com ele a vela (o Bartenura amplia o alcance prático da proibição de proveito com outro exemplo — usar a madeira como combustível). "Todas serão queimadas": Rabi Meir segue sua linha de raciocínio, pois diz mais adiante que aquilo que costuma ser contado, santifica [a mistura inteira] (termo técnico: torna proibida toda a mistura, independentemente da proporção), e uma roupa tingida é algo que costuma ser contado (um item individual e identificável, não uma substância fungível). "E os Sábios dizem: sobe em um e duzentos": segundo sua linha de raciocínio, pois dizem mais adiante, neste mesmo capítulo, que apenas seis coisas santificam [a mistura toda] — e a halachá segue os Sábios (o Bartenura antecipa o conteúdo da mishná 7, que listará os itens excepcionais que proíbem em qualquer quantidade, deixando claro desde já que uma roupa comum não está entre eles).