Seder Zeraim · Massechet Orlá · Perek Bet · Mishná 4

"Todo o que fermenta, tempera e mistura"

כָּל הַמְחַמֵּץ וְהַמְתַבֵּל וְהַמְדַמֵּעַ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná introduz uma categoria diferente de proibição — o fermento ou tempero que age ativamente sobre a massa ou a panela, transformando-a — que não se anula por proporção, mesmo em quantidade mínima; e reporta a disputa entre Beit Shamai e Beit Hilel sobre se este mesmo efeito ativo também torna a mistura ritualmente impura

Todo o que fermenta, e tempera, e mistura (três verbos que descrevem o mesmo fenômeno: uma pequena quantidade de fermento, tempero ou alimento proibido que se combina ativamente com a massa ou a panela comum, alterando seu sabor ou sua composição, mesmo que a quantidade absoluta seja mínima) com a trumá, e com a orlá, e com o kilei hakerem, é proibido (diferentemente das misturas passivas tratadas nas mishnayot anteriores, aqui não há proporção que anule — mesmo uma quantidade infinitesimal de fermento ou tempero proibido, se sua ação de fermentar ou temperar é perceptível no resultado, torna tudo proibido). E Beit Shamai dizem: também torna impuro (a mesma pequena quantidade de fermento ou tempero, se estava ritualmente impura, transmite impureza a toda a massa ou ao prato, independente da quantidade). E Beit Hilel dizem: nunca torna impuro, a menos que haja nele o volume de um ovo (Beit Hilel discordam: para efeitos de impureza ritual — diferente da proibição de consumo —, aplica-se a medida padrão de "ovo" que rege a impureza de alimentos em geral, independentemente do efeito de fermentar ou temperar).

כָּל הַמְחַמֵּץ וְהַמְתַבֵּל וְהַמְדַמֵּעַ בַּתְּרוּמָה וּבָעָרְלָה וּבְכִלְאֵי הַכֶּרֶם, אָסוּר. וּבֵית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, אַף מְטַמֵּא. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, לְעוֹלָם אֵינוֹ מְטַמֵּא עַד שֶׁיְּהֵא בּוֹ כַּבֵּיצָה:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A mishná trata de um princípio rabínico de intensificação da proibição quando o alimento proibido age ativamente sobre o permitido, aplicado às três categorias já mencionadas nas mishnayot anteriores.

Vayikrá (Levítico) 19:23
וְכִי תָבֹאוּ אֶל הָאָרֶץ וּנְטַעְתֶּם כָּל עֵץ מַאֲכָל, וַעֲרַלְתֶּם עָרְלָתוֹ אֶת פִּרְיוֹ, שָׁלֹשׁ שָׁנִים יִהְיֶה לָכֶם עֲרֵלִים, לֹא יֵאָכֵל.
A fonte de orlá permanece a mesma. O princípio de que "o que fermenta ou tempera proíbe em qualquer quantidade" é uma extensão rabínica geral aplicável a diversas proibições da Torá — reconhecendo que, quando um elemento proibido não apenas se mistura passivamente, mas transforma ativamente o alimento permitido (fazendo-o fermentar ou dando-lhe sabor perceptível), a ação em si, e não a proporção volumétrica, é o que determina a proibição.

Por que o fermento ou tempero proibido não se anula por proporção, ao contrário da trumá ou da orlá "passiva" das mishnayot anteriores? A resposta, explicada pelos comentadores, está na natureza da ação: quando um grão de fermento faz toda uma porção de massa fermentar, seu efeito não é "diluído" pela quantidade da massa — ao contrário, o efeito dele está presente e ativo em cada parte da massa fermentada, por menor que seja a quantidade original do fermento. O mesmo vale para o tempero: seu sabor se espalha por toda a panela, tornando irrelevante a proporção numérica entre a quantidade do tempero e a quantidade do prato. Este princípio — de que "o que fermenta e tempera proíbe em qualquer quantidade" — reaparecerá, com maior detalhamento, nas mishnayot 6-9 deste capítulo.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica este princípio em Hilchot Maachalot Assurot 16:1-2, no âmbito das leis gerais de anulação de misturas.

Rambam · Hilchot Maachalot Assurot 16:1-2
כָּל הַשִּׁעוּרִים הָאֵלּוּ שְׁנָּתְנוּ חֲכָמִים לְדָבָר הָאָסוּר שֶׁנִּתְעָרֵב בְּמִינוֹ הַמֻּתָּר, בְּשֶׁלֹּא הָיָה הַדָּבָר הָאָסוּר מְחַמֵּץ אוֹ מְתַבֵּל... אֲבָל אִם הָיָה מְחַמֵּץ אוֹ מְתַבֵּל אוֹ דָּבָר חָשׁוּב אוֹסֵר בְּכָל שֶׁהוּא. כֵּיצַד. שְׂאוֹר שֶׁל חִטִּין שֶׁל תְּרוּמָה שֶׁנָּפַל לְתוֹךְ עִסַּת חִטִּין שֶׁל חֻלִּין וְיֵשׁ בּוֹ כְּדֵי לְחַמֵּץ הֲרֵי הָעִסָּה כֻּלָּהּ מְדֻמָּע.
Todas estas proporções que os Sábios estabeleceram para o proibido que se mistura com seu próprio tipo permitido são válidas quando o proibido não fermenta nem tempera... mas se ele fermenta, ou tempera, ou é algo importante, proíbe em qualquer quantidade (o Rambam estabelece a distinção estrutural entre dois regimes de mistura: misturas "estáticas", regidas por proporções, e misturas "ativas", regidas pelo efeito, independentemente da proporção). Como? Fermento de trigo de trumá que caiu numa massa de trigo comum, e há nele o suficiente para fermentar — toda a massa fica proibida (o exemplo prático que a mishná também traz nas mishnayot seguintes: mesmo uma quantidade de fermento muito menor que a proporção de cem-para-um exigida para trumá comum torna proibida toda a massa, precisamente porque seu efeito de fermentação está ativo em cada parte dela).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná, e sobre a disputa entre Beit Shamai e Beit Hilel.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Orlá 2:4
אוֹמֵר כִּי כְּשֶׁיָּלוּשׁ אָדָם בִּשְׂאוֹר וְהֶחֱמִיץ הַבָּצֵק, אֲפִלּוּ יִהְיֶה אוֹתוֹ שְׂאוֹר פָּחוֹת מִכְּשִׁעוּר, כֵּיוָן שֶׁנִּתְפַּרְסְמָה פְּעֻלָּתוֹ נָחוּשׁ לוֹ, וְלֹא נָחוּשׁ לֹא לְק' וְלֹא לְמָאתַיִם... בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים אַף מְטַמֵּא. עִנְיָנוֹ שֶׁכֵּיוָן שֶׁהֶחֱמִיץ בִּשְׂאוֹר טָמֵא, אֲפִלּוּ יִהְיֶה פָּחוֹת מִכְּבֵיצָה, שֶׁתְּטַמֵּא הַכֹּל לְפִרְסוּם פְּעֻלָּתָהּ.

Diz [a mishná] que quando alguém amassa com fermento e a massa fermenta, mesmo que aquele fermento seja menos que a medida [padrão], já que sua ação se tornou manifesta, atentamos para ele, e não atentamos nem para cem nem para duzentos (a chave da explicação do Rambam: o critério de "sua ação se tornou manifesta" — nitparsemá peulató — substitui inteiramente o critério de proporção, porque o efeito do fermento é visível e ativo em toda a massa). [Sobre a disputa] Beit Shamai dizem: também torna impuro: seu sentido é que, já que fez fermentar com fermento impuro, mesmo que seja menos que o volume de um ovo, tornará tudo impuro, pela mesma lógica de que sua ação se tornou manifesta (Beit Shamai aplicam o mesmo raciocínio da proibição também à impureza ritual — o efeito visível do fermento dispensa a medida padrão de "ovo").

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Orlá 2:4
כָּל הַמְחַמֵּץ וְהַמְתַבֵּל וְכוּ'. הָכִי קָאָמַר, כָּל הַמְחַמֵּץ וְהַמְתַבֵּל בָּעָרְלָה וּבְכִלְאֵי הַכֶּרֶם אָסוּר... וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים עַד שֶׁיְּהֵא בּוֹ כַּבֵּיצָה. דְּאֵין אֹכֶל מְטַמֵּא פָּחוֹת מִכַּבֵּיצָה, לֹא שְׁנָא שְׂאֹר וּתְבָלִין וְלֹא שְׁנָא שְׁאָר אֳכָלִין.

"Todo o que fermenta e tempera etc.": assim se lê o versículo: todo o que fermenta [a massa] e tempera [a panela] com orlá e com kilei hakerem é proibido (o Bartenura organiza a estrutura sintática da mishná, associando cada verbo — fermentar, temperar — a um objeto — massa, panela). [Sobre Beit Hilel] "Até que haja nele o volume de um ovo": pois nenhum alimento torna impuro em quantidade menor que um ovo, seja fermento e tempero, seja qualquer outro alimento (a posição de Beit Hilel, que prevalece como halachá: a medida de "ovo" é uma regra geral e fixa de toda a impureza de alimentos — tumat ochlin —, que não se altera pelo fato de o alimento em questão ser, além disso, um fermento ou tempero ativo).

Massechet Orlá não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.