Seder Zeraim · Massechet Orlá · Perek Bet · Mishná 16

"Pedaço de kodshei kodashim, de pigul e de notar"

חֲתִיכָה שֶׁל קָדְשֵׁי קָדָשִׁים, שֶׁל פִּגּוּל, וְשֶׁל נוֹתָר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná desloca o tema, do domínio agrícola de orlá, trumá e kilei hakerem, para o domínio sacrificial: um pedaço de carne santíssima (kodshei kodashim), de pigul (sacrifício invalidado por pensamento indevido) ou de notar (sobra além do prazo permitido), cozido junto com pedaços de carne comum — aplicando o mesmo princípio de soma de "nomes diferentes" já visto nas mishnayot anteriores

Um pedaço de kodshei kodashim, de pigul, e de notar, que foram cozidos com os pedaços (de carne comum — três categorias distintas de carne proibida ou restrita do domínio sacrificial: kodshei kodashim, carne santíssima que só os cohanim do sexo masculino podem comer; pigul, um sacrifício tornado inválido por pensamento indevido durante sua oferenda; e notar, sobra de um sacrifício que passou do prazo permitido para consumo — cada uma insuficiente isoladamente para dar sabor perceptível ao guisado de carne comum), é proibido aos não-cohanim, e permitido aos cohanim (seguindo a mesma lógica de soma de "nomes diferentes" de 2:14-15: para o não-cohen, tanto a carne santíssima quanto o pigul e o notar são proibidos, e por isso a soma dos três, ainda que cada um isoladamente insuficiente, basta para proibir; para o cohen, porém, a carne santíssima em si lhe é permitida — restando apenas pigul e notar como elementos proibidos mesmo para ele, mas o restante do capítulo esclarece que mesmo esses, quando insuficientes, não bastam a proibir sozinhos, pelo mesmo princípio). Rabi Shimon permite aos não-cohanim e aos cohanim (mantendo consistência com sua posição em toda a série de mishnayot 2:10, 2:14 e 2:15 — para ele, "nomes diferentes" nunca se somam, e por isso, sendo cada elemento insuficiente isoladamente, o guisado inteiro permanece permitido a todos).

חֲתִיכָה שֶׁל קָדְשֵׁי קָדָשִׁים, שֶׁל פִּגּוּל, וְשֶׁל נוֹתָר, שֶׁנִּתְבַּשְּׁלוּ עִם הַחֲתִיכוֹת, אָסוּר לְזָרִים וּמֻתָּר לַכֹּהֲנִים. רַבִּי שִׁמְעוֹן מַתִּיר לְזָרִים וְלַכֹּהֲנִים:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A mishná se afasta do tema agrícola de orlá para tratar de leis sacrificiais, cuja base bíblica está em Vayikrá 7 (kodshei kodashim, pigul e notar).

Vayikrá (Levítico) 7:6, 7:18, 19:6-8
כָּל זָכָר בַּכֹּהֲנִים יֹאכְלֶנּוּ... וְאִם הֵאָכֹל יֵאָכֵל מִבְּשַׂר זֶבַח שְׁלָמָיו בַּיּוֹם הַשְּׁלִישִׁי, לֹא יֵרָצֶה... וְהַנֶּפֶשׁ הָאֹכֶלֶת מִמֶּנּּוּ עֲוֹנָהּ תִּשָּׂא.
A base bíblica de kodshei kodashim [carne santíssima, restrita aos cohanim do sexo masculino, dentro do recinto do Templo], de pigul [sacrifício invalidado por pensamento de comê-lo fora do tempo devido, durante sua oferenda] e de notar [carne de sacrifício que permaneceu além do prazo de consumo permitido]. Estas três categorias, embora de naturezas distintas dentro do sistema sacrificial, compartilham a característica de restringirem ou proibirem o consumo da carne — e por isso a mishná as agrupa, pela mesma lógica de "nomes diferentes" já vista com trumá e kilei hakerem.

Por que a Mishná de Orlá — um tratado sobre frutos de árvores — inclui uma mishná sobre carnes sacrificiais? A resposta está na estrutura temática do Perek Bet como um todo: a partir da mishná 2:1, o capítulo deixou de tratar exclusivamente de orlá para se tornar um estudo mais amplo do princípio geral de anulação e soma de misturas proibidas — um princípio que atravessa múltiplas áreas da Halachá. As mishnayot 2:16-17 (esta e a seguinte) estendem esse mesmo princípio ao domínio sacrificial, demonstrando que a lógica de "nomes diferentes que se somam" (ou não se somam, segundo Rabi Shimon) não é exclusiva das leis agrícolas — é um princípio metodológico geral, aplicável onde quer que proibições distintas se combinem numa mesma mistura.

Halachot · הֲלָכוֹת

Registra-se aqui, honestamente, que não foi localizada uma halachá dedicada e equivalente do Rambam nas obras diretamente associadas a este tratado (Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva, Hilchot Terumot, Hilchot Maachalot Assurot). O tema de misturas de kodshei kodashim, pigul e notar pertence ao domínio de Seder Kodashim, tratado com profundidade nos tratados de Zevachim, Chulin e nas obras do Rambam sobre leis sacrificiais.

Nota editorial
Diferentemente da maioria das mishnayot deste perek, não localizamos uma halachá dedicada e paralela do Rambam em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva, Hilchot Terumot ou Hilchot Maachalot Assurot — as obras normalmente cruzadas para este tratado. A questão de misturas de kodshei kodashim, pigul e notar com carne comum pertence ao domínio de Seder Kodashim (leis sacrificiais), tratado nos tratados talmúdicos de Zevachim e Chulin, e nas seções do Mishné Torá dedicadas às leis de sacrifícios — fora do escopo direto das obras mais associadas a Massechet Orlá. A decisão halachica — que o próprio Rambam, em seu Perush HaMishná, confirma seguir os Sábios contra Rabi Shimon — permanece registrada no comentário do Rambam à própria mishná, citado abaixo.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Orlá 2:16
קָדְשֵׁי קָדָשִׁים אֵין אוֹכְלִין אוֹתָם אֶלָּא זִכְרֵי כְהֻנָּה... אֲבָל נוֹתָר וּפִגּוּל הוּא אָסוּר עַל הַכֹּהֲנִים וְעַל יִשְׂרָאֵל, וְדִינוֹ שֶׁיִּשָּׂרֵף... וְאָמַר כִּי כְּשֶׁנִּתְבַּשְּׁלוּ אֵלּוּ הַשָּׁלֹשׁ חֲתִיכוֹת עִם חֲתִיכַת חֻלִּין וְהוֹצִיאוּם אַחַר כֵּן, וְנִשְׁאַר שְׁאָר הַבָּשָׂר... וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן.

Kodshei kodashim não se come senão os machos da cohunah, como o versículo esclarece (Vayikrá 7:6, "todo macho entre os cohanim a comerá"). Mas notar e pigul são proibidos tanto aos cohanim quanto ao Israel, e sua lei é que sejam queimados (o Rambam distingue as três categorias: kodshei kodashim é proibida apenas aos não-cohanim e às mulheres dos cohanim, mas permitida aos cohanim homens; pigul e notar são proibidos a todos, sem exceção). E disse que quando estes três pedaços foram cozidos com um pedaço de carne comum, e depois os retiraram, e restou o resto da carne [proibida apenas por causa da carne santíssima que nela cozinhou]... E não é lei como Rabi Shimon (o Rambam confirma a decisão final: apesar de kodshei kodashim, pigul e notar serem tecnicamente "nomes diferentes" de proibição, eles se somam para proibir aos não-cohanim, seguindo a mesma lógica já estabelecida contra Rabi Shimon nas mishnayot anteriores).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Orlá 2:16
חֲתִיכָה שֶׁל קָדְשֵׁי קָדָשִׁים. שֶׁאֲסוּרָה לְזָרִים וּמֻתֶּרֶת לַכֹּהֲנִים. וְשֶׁל פִּגּוּל וְשֶׁל נוֹתָר וְשֶׁל טָמֵא. דַּאֲסִירֵי בֵּין לְזָרִים בֵּין לַכֹּהֲנִים... אָסוּר לְזָרִים. רַבָּנָן לְטַעֲמַיְהוּ דְּאָמְרֵי שְׁנַיִם וּשְׁלֹשָׁה שֵׁמוֹת מִצְטָרְפִין לֶאֱסֹר.

"Pedaço de kodshei kodashim": que é proibida aos não-cohanim e permitida aos cohanim. "E de pigul, e de notar, e de impuro": que são proibidos tanto aos não-cohanim quanto aos cohanim (o Bartenura acrescenta uma quarta categoria mencionada em versões alternativas do texto — carne impura —, esclarecendo que pigul, notar e impuro compartilham a mesma severidade: proibição universal, sem exceção para os cohanim). "Proibido aos não-cohanim": os Sábios seguem sua própria lógica, de que dois ou três nomes se somam para proibir (confirmando, mais uma vez, que esta mishná aplica exatamente o mesmo princípio metodológico já estabelecido nas mishnayot anteriores sobre "nomes diferentes").

Massechet Orlá não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.