Um pedaço de kodshei kodashim, de pigul, e de notar, que foram cozidos com os pedaços (de carne comum — três categorias distintas de carne proibida ou restrita do domínio sacrificial: kodshei kodashim, carne santíssima que só os cohanim do sexo masculino podem comer; pigul, um sacrifício tornado inválido por pensamento indevido durante sua oferenda; e notar, sobra de um sacrifício que passou do prazo permitido para consumo — cada uma insuficiente isoladamente para dar sabor perceptível ao guisado de carne comum), é proibido aos não-cohanim, e permitido aos cohanim (seguindo a mesma lógica de soma de "nomes diferentes" de 2:14-15: para o não-cohen, tanto a carne santíssima quanto o pigul e o notar são proibidos, e por isso a soma dos três, ainda que cada um isoladamente insuficiente, basta para proibir; para o cohen, porém, a carne santíssima em si lhe é permitida — restando apenas pigul e notar como elementos proibidos mesmo para ele, mas o restante do capítulo esclarece que mesmo esses, quando insuficientes, não bastam a proibir sozinhos, pelo mesmo princípio). Rabi Shimon permite aos não-cohanim e aos cohanim (mantendo consistência com sua posição em toda a série de mishnayot 2:10, 2:14 e 2:15 — para ele, "nomes diferentes" nunca se somam, e por isso, sendo cada elemento insuficiente isoladamente, o guisado inteiro permanece permitido a todos).
A mishná se afasta do tema agrícola de orlá para tratar de leis sacrificiais, cuja base bíblica está em Vayikrá 7 (kodshei kodashim, pigul e notar).
Por que a Mishná de Orlá — um tratado sobre frutos de árvores — inclui uma mishná sobre carnes sacrificiais? A resposta está na estrutura temática do Perek Bet como um todo: a partir da mishná 2:1, o capítulo deixou de tratar exclusivamente de orlá para se tornar um estudo mais amplo do princípio geral de anulação e soma de misturas proibidas — um princípio que atravessa múltiplas áreas da Halachá. As mishnayot 2:16-17 (esta e a seguinte) estendem esse mesmo princípio ao domínio sacrificial, demonstrando que a lógica de "nomes diferentes que se somam" (ou não se somam, segundo Rabi Shimon) não é exclusiva das leis agrícolas — é um princípio metodológico geral, aplicável onde quer que proibições distintas se combinem numa mesma mistura.
Registra-se aqui, honestamente, que não foi localizada uma halachá dedicada e equivalente do Rambam nas obras diretamente associadas a este tratado (Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva, Hilchot Terumot, Hilchot Maachalot Assurot). O tema de misturas de kodshei kodashim, pigul e notar pertence ao domínio de Seder Kodashim, tratado com profundidade nos tratados de Zevachim, Chulin e nas obras do Rambam sobre leis sacrificiais.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.
Kodshei kodashim não se come senão os machos da cohunah, como o versículo esclarece (Vayikrá 7:6, "todo macho entre os cohanim a comerá"). Mas notar e pigul são proibidos tanto aos cohanim quanto ao Israel, e sua lei é que sejam queimados (o Rambam distingue as três categorias: kodshei kodashim é proibida apenas aos não-cohanim e às mulheres dos cohanim, mas permitida aos cohanim homens; pigul e notar são proibidos a todos, sem exceção). E disse que quando estes três pedaços foram cozidos com um pedaço de carne comum, e depois os retiraram, e restou o resto da carne [proibida apenas por causa da carne santíssima que nela cozinhou]... E não é lei como Rabi Shimon (o Rambam confirma a decisão final: apesar de kodshei kodashim, pigul e notar serem tecnicamente "nomes diferentes" de proibição, eles se somam para proibir aos não-cohanim, seguindo a mesma lógica já estabelecida contra Rabi Shimon nas mishnayot anteriores).
"Pedaço de kodshei kodashim": que é proibida aos não-cohanim e permitida aos cohanim. "E de pigul, e de notar, e de impuro": que são proibidos tanto aos não-cohanim quanto aos cohanim (o Bartenura acrescenta uma quarta categoria mencionada em versões alternativas do texto — carne impura —, esclarecendo que pigul, notar e impuro compartilham a mesma severidade: proibição universal, sem exceção para os cohanim). "Proibido aos não-cohanim": os Sábios seguem sua própria lógica, de que dois ou três nomes se somam para proibir (confirmando, mais uma vez, que esta mishná aplica exatamente o mesmo princípio metodológico já estabelecido nas mishnayot anteriores sobre "nomes diferentes").