Mishná final do Perek Alef: Rabi Yosei encerra o capítulo aplicando o princípio central de todo o perek — a distinção entre o que é "fruto" (proibido) e o que não é (permitido) — a três atos de propagação vegetal: plantar um galho, plantar uma noz, e enxertar um broto de tamareira, todos provenientes de uma árvore de orlá
Rabi Yosei diz: planta-se um galho de orlá (um pedaço de madeira cortado de uma árvore ainda em seus três anos de orlá; a madeira em si, sendo permitida em proveito, pode ser usada para plantio), mas não se planta uma noz de orlá (pois a noz é o próprio fruto da árvore, proibido em proveito — usá-la como semente para plantio seria uma forma de aproveitamento do fruto), porque ela é fruto (a razão explícita da distinção: o galho é madeira, permitida; a noz é fruto, proibida). E não se enxertam brotos de tamareira de orlá (kafniot, os brotos tenros da tamareira em estágio inicial, ainda semelhantes ao florescer de outras árvores, mas que, no caso da tamareira, já são considerados fruto para este efeito).
רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, נוֹטְעִין יִחוּר שֶׁל עָרְלָה, וְאֵין נוֹטְעִין אֱגוֹז שֶׁל עָרְלָה, מִפְּנֵי שֶׁהוּא פְּרִי. וְאֵין מַרְכִּיבִין בְּכַפְנִיּוֹת שֶׁל עָרְלָה:
A mishná final do capítulo retoma o mesmo critério fundamental que abriu o Perek Alef: a proibição de orlá recai sobre o fruto, e a Torá proíbe seu uso ("aproveitamento"), enquanto a madeira da árvore permanece permitida.
Vayikrá (Levítico) 19:23
וְכִי תָבֹאוּ אֶל הָאָרֶץ וּנְטַעְתֶּם כָּל עֵץ מַאֲכָל, וַעֲרַלְתֶּם עָרְלָתוֹ אֶת פִּרְיוֹ, שָׁלֹשׁ שָׁנִים יִהְיֶה לָכֶם עֲרֵלִים, לֹא יֵאָכֵל.
"E quando entrardes na terra e plantardes toda árvore frutífera, considerareis seu fruto como incircunciso: três anos ele será para vós como incircunciso, não se comerá" — a proibição bíblica, segundo a tradição rabínica (que a interpreta não apenas como proibição de comer, mas também de qualquer proveito, com base na expressão "orlá", associada em outros contextos bíblicos a algo totalmente vedado), recai sobre "seu fruto" [et piryo]. A madeira da árvore — o tronco, os galhos — não é "fruto", e por isso pode ser usada livremente, inclusive para plantar uma nova árvore, como ensina Rabi Yosei nesta mishná final.
Por que a mishná termina justamente com este caso, depois de ter aberto o capítulo com a mesma distinção entre "para alimento" e "para cerca/vigas"? Há uma estrutura circular deliberada: a mishná 1:1 abriu o capítulo distinguindo a intenção do plantio (alimento versus madeira) para determinar se a árvore fica sujeita à orlá; a mishná 1:9 fecha o capítulo aplicando a mesma distinção categórica — fruto versus madeira — a um problema derivado: pode-se usar uma árvore já proibida por orlá (seus galhos, sua madeira) para gerar uma nova árvore? A resposta reafirma o princípio: a madeira, nunca tendo sido fruto, permanece disponível para uso e replantio, mesmo vindo de uma árvore de orlá; somente o fruto (a noz, os brotos de tamareira já considerados fruto) permanece vedado a qualquer aproveitamento, inclusive como semente.
Halachot · הֲלָכוֹת
O Rambam codifica esta lei em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva, capítulo 10, halachot 20-21, no encerramento do capítulo dedicado às leis de orlá.
Rambam · Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 10:20-21
נוֹטְעִין יִחוּר שֶׁל עָרְלָה וְאֵין נוֹטְעִין אֱגוֹז שֶׁל עָרְלָה מִפְּנֵי שֶׁהוּא פְּרִי, וּפֵרוֹת עָרְלָה אֲסוּרִין בַּהֲנָאָה... וְכֵן אֵין מַרְכִּיבִין כַּפְנִיּוֹת שֶׁל עָרְלָה בִּדְקָלִים מִפְּנֵי שֶׁהֵן כִּפְרִי. עָבַר וְהִרְכִּיב, מֻתָּר, שֶׁכָּל דָּבָר שֶׁיֵּשׁ לוֹ שְׁנֵי גּוֹרְמִין, אֶחָד אָסוּר וְאֶחָד מֻתָּר, הֲרֵי זֶה הַנִּגְרָם מִשְּׁנֵיהֶם מֻתָּר.
Planta-se um galho de orlá, mas não se planta uma noz de orlá, porque é fruto, e os frutos de orlá são proibidos em proveito (o Rambam decide a halachá como Rabi Yosei, a única opinião registrada nesta mishná). E do mesmo modo, não se enxertam brotos de tamareira de orlá em tamareiras, porque são como fruto. [Mas] se transgrediu e enxertou, é permitido (o produto final é permitido, apesar do ato de enxertar ter sido proibido), pois tudo que tem duas causas — uma proibida e uma permitida —, eis que o que resulta de ambas é permitido (princípio geral: quando um resultado final depende tanto de um elemento proibido quanto de um elemento permitido atuando em conjunto — aqui, o broto proibido e a terra permitida —, o produto final, sendo gerado por essa combinação, não herda a proibição do elemento original).
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná final do capítulo.
Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Orlá 1:9
מֻתָּר לַחְתֹּךְ עָנָף מֵאִילַן הָעָרְלָה וְלִנְטֹעוֹ, וְהוּא הַנִּקְרָא יִחוּר, לְפִי שֶׁאֵינוֹ אָסוּר בַּהֲנָאָה אֶלָּא הַפְּרִי, לֹא הָעֵץ. וְאֵין מַרְכִּיבִין כַּפְנִיּוֹת שֶׁל עָרְלָה. עִנְיָנוֹ שֶׁאֵין מַרְכִּיבִין לוּלָבֵי תְמָרִים לְפִי שֶׁהוּא פְּרִי, לְפִיכָךְ אֲסִירָא לְנָטְעָן, וְלוּלָב.
É permitido cortar um galho de uma árvore de orlá e plantá-lo, e é isto que se chama yichur [galho], porque não é proibido em proveito senão o fruto, não a madeira (a árvore em si, seu tronco e seus galhos, nunca são "fruto" e por isso nunca entram na proibição de orlá). "E não se enxertam brotos de tamareira de orlá": seu sentido é que não se enxertam os brotos tenros das tâmaras, porque são fruto; por isso é proibido plantá-los (diferentemente do galho de madeira comum, o broto da tamareira, mesmo em seu estágio inicial, já é considerado equivalente a fruto para este efeito específico).
Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Orlá 1:9
נוֹטְעִים יִחוּר שֶׁל עָרְלָה. שֶׁהָעֵץ מֻתָּר בַּהֲנָאָה, אֲבָל לֹא הָאֱגוֹז שֶׁהוּא פְּרִי וְאָסוּר בַּהֲנָאָה. וּמוֹדֶה רַבִּי יוֹסֵי שֶׁאִם נָטַע וְהִבְרִיךְ וְהִרְכִּיב שֶׁהוּא מֻתָּר, דְּזֶה וְזֶה גּוֹרֵם מֻתָּר. בְּכַפְנִיּוֹת. יִחוּר שֶׁיֵּשׁ בּוֹ כַּפְנִיּוֹת, תְּמָרִים בְּעוֹדָן סְמָדַר נִקְרָאִים כַּפְנִיּוֹת. רַבִּי יוֹסֵי לְטַעֲמֵיהּ, דְּאָמַר הַסְּמָדַר אָסוּר מִפְּנֵי שֶׁהוּא פְּרִי. וַהֲלָכָה כְּמוֹתוֹ דְּמֻתָּר לִטַּע יִחוּר שֶׁל עָרְלָה, וְאֵין הֲלָכָה כְּמוֹתוֹ שֶׁאוֹסֵר בְּכַפְנִיּוֹת.
"Planta-se um galho de orlá": porque a madeira é permitida em proveito, mas não a noz, que é fruto e proibida em proveito. E Rabi Yosei concorda que, se [alguém] plantou, e fez mergulhia, e enxertou, [o resultado] é permitido, pois isto e aquilo em conjunto geram o permitido (mesmo Rabi Yosei, que proíbe o ato inicial de plantar a noz ou enxertar o broto de tamareira, concorda que, uma vez realizado, o resultado final não fica proibido, pela regra de "dois fatores geradores"). "Em brotos de tamareira" [kafniot]: um galho que tem [neste estágio] os brotos de tamareira; as tâmaras, enquanto ainda em seu florescer, chamam-se kafniot. Rabi Yosei [segue] sua [própria] opinião (consistente com sua posição na mishná 1:7), pois disse que o florescer é proibido, porque é fruto. E a halachá é como ele quanto a ser permitido plantar um galho de orlá, mas não é lei como ele quanto a proibir nos brotos de tamareira (a halachá aceita parcialmente a opinião de Rabi Yosei: permite plantar o galho de madeira comum, mas não segue sua proibição mais rigorosa quanto aos brotos de tamareira, tratando-os como qualquer outro florescer, permitido).
Massechet Orlá não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.
סְלִיק פִּרְקָא קַמָּא
Aqui se conclui o Perek Alef de Massechet Orlá — nove mishnayot que estabeleceram os fundamentos da proibição de comer os frutos de uma árvore em seus três primeiros anos. O capítulo abriu definindo o critério central: a obrigação de orlá depende da intenção do plantador — quem planta para alimento fica obrigado, quem planta para cerca ou vigas fica isento (mishná 1). Tratou do marco temporal da entrada de Israel na Terra e de cinco casos que ficam obrigados apesar de circunstâncias especiais de plantio (mishná 2). Examinou três cenários de deslocamento acidental da árvore — pela força de um rio, do vento ou do arado — e o critério de sobrevivência com a terra original para determinar se a contagem recomeça (mishnayot 3-4). Tratou da técnica de mergulhia e do entrelaçamento de videiras, e da proporção de duzentos para frutos misturados após um corte (mishná 5). Examinou o caso de mudas de orlá e de kilayim hakerem perdidas entre mudas permitidas, e a mesma proporção de anulação (mishná 6). E encerrou definindo o que conta como "fruto" para efeitos de orlá: folhas, brotos, água de videira e o florescer ficam permitidos (mishná 7); caroços, cascas e resíduos ficam proibidos em orlá mas permitidos em neta revai, enquanto frutas caídas antes de amadurecer ficam sempre proibidas (mishná 8); e a madeira de uma árvore de orlá pode ser replantada, mas não seu fruto — nem a noz, nem os brotos de tamareira (mishná 9). Como Peá, Demai, Kilayim, Sheviit, Terumot, Maasrot, Maaser Sheni e Chalá, Massechet Orlá não possui Guemará no Talmud Bavli, e por isso todo o seu perush se apoia no Rambam (Perush HaMishná e Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva) e no Bartenura, sem a presença de Rashi. Massechet Orlá tem ao todo três perakim e trinta e cinco mishnayot — o Perek Bet e o Perek Guimel ainda virão.