Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Tet · Mishná 10 de 10

Encerrando o Perek Tet: o voto por engano e o pranto de Rabi Ishmael

קוֹנָם שֶׁאֵינִי נוֹשֵׂא אֶת פְּלוֹנִית כְּעוּרָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrando o Perek Tet, a mishná traz o caso mais puro de "voto por engano": quem jura não casar com determinada mulher descrevendo-a como feia, escura ou baixa, e ela se revela exatamente o oposto, não precisa de qualquer abertura formal — pois o voto nunca correspondeu à realidade desde o início. O capítulo fecha com a história comovente da sobrinha embelezada na casa de Rabi Ishmael.

"Konam, que eu não caso com fulana, feia" — e eis que ela é bonita; "escura" — e eis que ela é clara; "baixa" — e eis que ela é alta — fica permitido a ela. Não porque ela era feia e se tornou bonita, escura e se tornou clara, baixa e se tornou alta, mas porque o voto foi um erro. E aconteceu com um que fez voto vedando o proveito da filha de sua irmã, e a levaram para a casa de Rabi Ishmael, e a embelezaram. Disse-lhe Rabi Ishmael: "Meu filho, foi a esta que fizeste o voto?" Disse-lhe: "Não." E Rabi Ishmael o liberou. Naquela hora chorou Rabi Ishmael e disse: "As filhas de Israel são belas, mas a pobreza as desfigura." E quando morreu Rabi Ishmael, as filhas de Israel entoavam um lamento e diziam: "Filhas de Israel, por Rabi Ishmael chorai." E assim é dito a respeito de Shaul (II Shmuel 1): "Filhas de Israel, por Shaul chorai."A mishná traça a linha mais nítida do capítulo entre "nolad" (algo genuinamente novo, que não libera o voto) e "erro" (uma descrição já falsa desde o início, que anula o voto por completo, sem necessidade de sábio): se a mulher já era bonita, clara e alta no momento do voto, e o votante apenas a descreveu erroneamente, seu voto nunca teve objeto real. A mishná ilustra isso com um caso comovente: um homem vetou proveito da própria sobrinha, presumivelmente por julgá-la sem atrativos; levada à casa de Rabi Ishmael e ali arrumada e vestida com dignidade, ela se revelou irreconhecível — e ao ouvir que o sobrinho jamais teria jurado contra essa mulher que agora via, Rabi Ishmael o libera e chora, atribuindo a aparência original da moça não a uma falta natural, mas à pobreza que desfigura.

קוֹנָם שֶׁאֵינִי נוֹשֵׂא אֶת פְּלוֹנִית כְּעוּרָה, וַהֲרֵי הִיא נָאָה. שְׁחוֹרָה, וַהֲרֵי הִיא לְבָנָה. קְצָרָה, וַהֲרֵי הִיא אֲרֻכָּה, מֻתָּר בָּהּ. לֹא מִפְּנֵי שֶׁהִיא כְעוּרָה וְנַעֲשֵׂית נָאָה, שְׁחוֹרָה וְנַעֲשֵׂית לְבָנָה, קְצָרָה וְנַעֲשֵׂית אֲרֻכָּה, אֶלָּא שֶׁהַנֶּדֶר טָעוּת. וּמַעֲשֶׂה בְאֶחָד שֶׁנָּדַר מִבַּת אֲחוֹתוֹ הֲנָיָה, וְהִכְנִיסוּהָ לְבֵית רַבִּי יִשְׁמָעֵאל וְיִפּוּהָ. אָמַר לוֹ רַבִּי יִשְׁמָעֵאל, בְּנִי, לָזוֹ נָדָרְתָּ. אָמַר לוֹ, לָאו. וְהִתִּירוֹ רַבִּי יִשְׁמָעֵאל. בְּאוֹתָהּ שָׁעָה בָּכָה רַבִּי יִשְׁמָעֵאל וְאָמַר, בְּנוֹת יִשְׂרָאֵל נָאוֹת הֵן, אֶלָּא שֶׁהָעֲנִיּוּת מְנַוַּלְתָּן. וּכְשֶׁמֵּת רַבִּי יִשְׁמָעֵאל, הָיוּ בְנוֹת יִשְׂרָאֵל נוֹשְׂאוֹת קִינָה וְאוֹמְרוֹת, בְּנוֹת יִשְׂרָאֵל אֶל רַבִּי יִשְׁמָעֵאל בְּכֶינָה. וְכֵן הוּא אוֹמֵר בְּשָׁאוּל (שמואל ב א) בְּנוֹת יִשְׂרָאֵל אֶל שָׁאוּל בְּכֶינָה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

O capítulo fecha citando, dentro do próprio texto da mishná, o lamento de II Shmuel por Shaul, comparado ao lamento que as filhas de Israel compuseram pela morte de Rabi Ishmael — o sábio que enxergou, sob a aparência desfigurada pela pobreza, a beleza latente das filhas de Israel.

Shmuel Bet (II Samuel) 1:24
בְּנוֹת יִשְׂרָאֵל אֶל שָׁאוּל בְּכֶינָה, הַמַּלְבִּשְׁכֶם שָׁנִי עִם עֲדָנִים, הַמַּעֲלֶה עֲדִי זָהָב עַל לְבוּשְׁכֶן
Filhas de Israel, chorai por Shaul, que vos vestia de escarlate com delícias, que fazia subir ornamentos de ouro sobre vossas vestes.

A mishná cita explicitamente este versículo do lamento de David por Shaul e Yehonatan, comparando-o ao lamento composto pelas filhas de Israel na morte de Rabi Ishmael — reconhecendo nele um benfeitor que, como o rei Shaul em seu tempo, cuidava da dignidade e do ornamento das mulheres de Israel. O paralelo é preciso: assim como Shaul vestia as filhas de Israel de escarlate e ouro, dando-lhes com isso beleza e honra visíveis, Rabi Ishmael, ao mandar vestir e adornar a sobrinha do votante, revelou a beleza que a pobreza havia ocultado — e a mishná encerra o Perek Tet com esse mesmo insight: que grande parte do que se atribui a defeitos naturais é, na verdade, produto de circunstância e privação.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, esclarece o ponto processual final do capítulo: mesmo quando o voto é um erro puro, dispensando hatará formal, Rabi Ishmael segue o procedimento próprio da abertura por nolad.

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 9:10
שֶׁהַנֶּדֶר טָעוּת וְאֵינוֹ צָרִיךְ שְׁאֵלָה לְחָכָם וְלֹא הֲתָרָה. וְרַבִּי יִשְׁמָעֵאל חוֹלֵק עַל זֶה הָעִנְיָן וְאוֹמֵר שֶׁאֲפִלּוּ הָיְתָה כְּעוּרָה וְנַעֲשֵׂית נָאָה שֶׁהוּא נוֹלָד שֶׁאֵינוֹ צָרִיךְ הֲתָרָה

Rambam explica que, segundo o tanna kama (o primeiro sábio anônimo da mishná), a liberação só ocorre sem hatará quando o voto foi erro puro desde a origem — a mulher já era bonita quando ele jurou. Rabi Ishmael, porém, discorda e amplia a regra: mesmo que ela fosse de fato feia no momento do voto e tenha se tornado bonita depois — o que tecnicamente seria "nolad" — ainda assim não é necessária hatará formal, aplicando aqui sua própria posição, já vista na primeira mishná do capítulo, de que o nolad é motivo válido de liberação.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi explica os detalhes do embelezamento na casa de Rabi Ishmael; Rambam esclarece a disputa final sobre erro versus nolad; Bartenura fecha o Perek Tet com a leitura integrada da baraita.

Rashi · רש"י
Nedarim 66a-66b
מַתְנִיתִין וְיִפּוּהָ. שֶׁקִּשְּׁטוּהָ וְהִלְבִּישׁוּהָ וְנִרְאֵית יָפָה: שֵׁן תּוֹתֶבֶת. שֶׁנָּפְלָה שִׁנָּהּ וְהוֹשִׁיבָה שֵׁן אַחֵר בְּאוֹתוֹ מָקוֹם וְעוֹמֵד בְּכִעוּרוֹ: וְעָשָׂה לָהּ רַבִּי יִשְׁמָעֵאל שֵׁן. בְּאוֹתוֹ מָקוֹם שֶׁל זֶה מִשֶּׁלּוֹ, וְהַיְנוּ שֶׁיִּפּוּהָ

Rashi detalha o processo concreto do embelezamento: vestiram-na e adornaram-na na casa de Rabi Ishmael, de modo que sua aparência mudou visivelmente. Rashi acrescenta, a partir da sugiá completa, um detalhe médico específico transmitido na Guemará: entre os defeitos corrigidos estava um dente caído, substituído por Rabi Ishmael por um dente postiço às suas próprias custas — mostrando que o "embelezamento" incluía tanto cuidados estéticos quanto correções concretas de saúde e higiene, tudo custeado pelo próprio sábio por compaixão com a pobreza da moça.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 9:10
שֶׁהַנֶּדֶר טָעוּת וְאֵינוֹ צָרִיךְ שְׁאֵלָה לְחָכָם וְלֹא הֲתָרָה, וְרַבִּי יִשְׁמָעֵאל חוֹלֵק עַל זֶה הָעִנְיָן... וְכֵן נִתְבָּאֵר בַּשַּׁ"ס, כְּשֶׁאָמַר וְהִתִּירוֹ רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אֵינוֹ רוֹצֶה לוֹמַר הִתִּיר לוֹ נִדְרוֹ, אֶלָּא שֶׁהוּא הוֹרָה לוֹ שֶׁלֹּא חָלָה עָלָיו הַשְּׁבוּעָה

Rambam faz uma observação filológica precisa sobre a expressão final: quando a mishná diz "Rabi Ishmael o liberou", isso não significa que ele realizou o procedimento formal de hatará, mas apenas que ele instruiu o sobrinho de que o juramento nunca havia se aplicado a essa mulher — uma declaração, não uma anulação. Rambam nota que esse mesmo caso pode ser lido tanto sob a categoria de "erro puro" do tanna kama quanto sob a categoria de "nolad" de Rabi Ishmael, dependendo de quando exatamente ocorreu a transformação.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 9:10
אֶלָּא שֶׁהַנֶּדֶר טָעוּת. מֵעִקָּרוֹ, שֶׁבִּשְׁעַת הַנֶּדֶר הָיְתָה לְבָנָה, וְאֵינוֹ צָרִיךְ שְׁאֵלָה לְחָכָם... רַבִּי יִשְׁמָעֵאל אוֹמֵר אֲפִלּוּ כְּעוּרָה וְנַעֲשֵׂית יָפָה, שְׁחוֹרָה וְנַעֲשֵׂית לְבָנָה, וּמַעֲשֶׂה נַמִּי וְכוּ׳

Bartenura reconstrói a leitura completa da baraita subjacente, mostrando que a mishná está incompleta em sua forma transmitida e deve ser lida como incluindo a posição de Rabi Ishmael: mesmo quando a mulher era genuinamente feia no momento do voto e se tornou bonita depois por meio de adornos — um caso claro de mudança posterior —, ainda assim não é necessária hatará formal, e o caso da sobrinha citado na sequência exemplifica exatamente essa posição mais ampla de Rabi Ishmael, encerrando o Perek Tet com o mesmo cuidado com a linguagem exata do voto que abriu o capítulo com a questão da honra dos pais.