Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Tet · Mishná 1 de 10

Abrindo o Perek Tet: a honra dos pais como caminho de arrependimento

רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, פּוֹתְחִין לָאָדָם בִּכְבוֹד אָבִיו וְאִמּוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo o Perek Tet, a mishná passa do tema da extensão temporal dos votos — que ocupou todo o Perek Chet — para o mecanismo pelo qual um sábio dissolve um voto: a "abertura" (pétach), um fato ou consideração que, se o votante afirmar que a teria levado em conta, desfaz o voto desde a raiz. O primeiro debate é sobre se a honra dos pais serve como abertura.

Rabi Eliezer diz: abre-se para a pessoa pela honra de seu pai e de sua mãe. E os sábios proíbem. Disse Rabi Tzadok: se abrem para ele pela honra de seu pai e de sua mãe, que abram para ele também pela honra do Onipresente — e se assim for, não haverá mais votos. Mas os sábios concordam com Rabi Eliezer em matéria que é entre ele e seu pai e sua mãe, que se abre para ele pela honra de seu pai e de sua mãe.Um sábio que deseja anular um voto precisa de uma "abertura" — um motivo que, tivesse o votante pensado nele no momento do voto, o teria impedido de jurar. Rabi Eliezer propõe que basta dizer ao votante que seus pais serão envergonhados perante o mundo por terem criado um filho tão leviano em votos, mesmo sem que ele já estivesse arrependido por conta própria. Os sábios temem que essa sugestão seja fácil demais, quase uma indução à mentira; mas todos concordam que quando o próprio voto recai sobre os pais — como vedar-lhes proveito —, é legítimo lembrar ao filho a honra que ele lhes deve.

רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, פּוֹתְחִין לָאָדָם בִּכְבוֹד אָבִיו וְאִמּוֹ. וַחֲכָמִים אוֹסְרִין. אָמַר רַבִּי צָדוֹק, עַד שֶׁפּוֹתְחִין לוֹ בִכְבוֹד אָבִיו וְאִמּוֹ, יִפְתְּחוּ לוֹ בִּכְבוֹד הַמָּקוֹם, אִם כֵּן אֵין נְדָרִים. וּמוֹדִים חֲכָמִים לְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר בְּדָבָר שֶׁבֵּינוֹ לְבֵין אָבִיו וְאִמּוֹ, שֶׁפּוֹתְחִין לוֹ בִּכְבוֹד אָבִיו וְאִמּוֹ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

O princípio de Rabi Eliezer — que a vergonha causada aos pais é motivo suficiente para desfazer um voto — repousa sobre o mandamento de honrar pai e mãe, a raiz bíblica de toda a obrigação filial.

Shemot (Êxodo) 20:12
כַּבֵּד אֶת אָבִיךָ וְאֶת אִמֶּךָ, לְמַעַן יַאֲרִכוּן יָמֶיךָ עַל הָאֲדָמָה אֲשֶׁר ה׳ אֱלֹהֶיךָ נֹתֵן לָךְ
Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem teus dias sobre a terra que o Eterno teu Deus te dá.

O mandamento de honrar pai e mãe é a base pela qual Rabi Eliezer considera que envergonhá-los publicamente — ainda que apenas com palavras, ao dizer "vede que filho leviano criaram" — já constitui motivo suficiente para que o próprio filho reconheça que jamais teria feito o voto se tivesse pensado nisso. Os sábios, embora não neguem o peso do mandamento, temem que essa abertura seja fabricada demais, e reservam o argumento da honra parental apenas para o caso em que o voto já trata diretamente da relação entre o filho e seus pais.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, explica a lógica de Rabi Tzadok e por que a halachá segue os sábios apenas no caso geral, mantendo a exceção nos votos entre filho e pais.

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 9:1
אָמַר רַבִּי אֱלִיעֶזֶר שֶׁהוּא כְּשֶׁאָמְרוּ לוֹ אָבִיו אוֹ אִמּוֹ הִכְעַסְתָּנוּ בְּזֹאת הַשְּׁבוּעָה, שֶׁאֵינוֹ צָרִיךְ שְׁאֵלָה לְחָכָם וְלֹא הֲפָרָה. וְרַבִּי צָדוֹק אָמַר, אִם הַדָּבָר כֵּן, כְּבָר יָדוּעַ שֶׁהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֵינוֹ חָפֵץ בִּשְׁבוּעוֹת שֶׁל כַּעַס

Rambam explica que Rabi Eliezer trata do caso em que o próprio pai ou a própria mãe dizem ao filho "irritaste-nos com este voto" — situação em que nem sequer é necessária a consulta formal a um sábio. Rabi Tzadok argumenta que, se essa lógica bastasse, também se poderia abrir pela honra do Céu, já que todo voto feito por raiva desagrada ao Criador — e então nunca haveria voto que permanecesse de pé. A halachá segue os sábios no caso geral, mas reconhece a exceção de Rabi Eliezer quando o voto já é, em sua origem, sobre a relação entre o filho e seus pais.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi explica os termos técnicos da "abertura" e o argumento de Rabi Tzadok; Rambam e Bartenura completam com o fundamento e a conclusão halachica.

Rashi · רש"י
Nedarim 64a
פּוֹתְחִין לָאָדָם בִּכְבוֹד אָבִיו וְאִמּוֹ. שֶׁאוֹמֵר לוֹ אִלּוּ הָיִיתָ יוֹדֵעַ שֶׁאוֹמְרִים עַל אָבִיךָ אוֹי לוֹ לְאָב שֶׁגִּדֵּל בֵּן רָשָׁע כָּזֶה שֶׁהוּא פָּרוּץ בִּנְדָרִים... וְחֲכָמִים אוֹסְרִין. שֶׁאֲפִלּוּ אֵין דַּעְתּוֹ לְהִתְחָרֵט נוֹתְנִים לוֹ דַּעַת לְהִתְחָרֵט

Rashi explica que a "abertura pela honra dos pais" consiste em dizer ao votante: se soubesses que dizem de teu pai "ai daquele que criou um filho tão leviano, tão descuidado em votos", jamais terias jurado. Os sábios proíbem esse caminho precisamente porque ele é eficaz demais: mesmo alguém sem qualquer arrependimento genuíno acaba, sob esse constrangimento, "encontrando" um arrependimento fabricado só para escapar da vergonha, o que corrompe o requisito de que a abertura reflita um remorso real e anterior ao voto.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 9:1
אָמַר רַבִּי אֱלִיעֶזֶר שֶׁהוּא כְּשֶׁאָמְרוּ לוֹ אָבִיו אוֹ אִמּוֹ הִכְעַסְתָּנוּ בְּזֹאת הַשְּׁבוּעָה שֶׁאֵינוֹ צָרִיךְ שְׁאֵלָה לְחָכָם וְלֹא הֲפָרָה, וְרַבִּי צָדוֹק אָמַר אִם הַדָּבָר כֵּן כְּבָר יָדוּעַ שֶׁהַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא אֵינוֹ חָפֵץ בַּשְּׁבוּעוֹת שֶׁל כַּעַס

Rambam esclarece que o caso de Rabi Eliezer não exige sequer a consulta a um sábio, quando os próprios pais declaram terem sido ofendidos pelo voto — situação distinta da abertura geral, que sempre passa por um sábio. Rabi Tzadok generaliza a objeção: se a mera vergonha basta, todo voto feito com raiva desagrada ao Céu, e a instituição inteira dos votos desmoronaria.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 9:1
רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר פּוֹתְחִין לָאָדָם בִּכְבוֹד אָבִיו וְאִמּוֹ. כְּגוֹן שֶׁיֹּאמְרוּ לוֹ אִלּוּ הָיִיתָ יוֹדֵעַ שֶׁיֹּאמְרוּ הָעוֹלָם לְאָבִיךָ וּלְאִמְּךָ רְאוּ גִדּוּלִים שֶׁגִּדַּלְתֶּם כַּמָּה בִּנְכֶם קַל בִּנְדָרִים, וְנִמְצֵאתָ מְזַלְזֵל בִּכְבוֹדָם, כְּלוּם הָיִיתָ נוֹדֵר

Bartenura detalha a fórmula exata da abertura: dizem ao votante que, se soubesse que o mundo diria a seus pais "vejam que belos filhos criaram, quão leviano é seu filho em votos", e que ele estaria assim desprezando a honra deles, jamais teria feito o voto. Bartenura confirma que os sábios temem a mentira — o votante, envergonhado de admitir que não se importa com a honra dos pais, acaba "confessando" um arrependimento que não sentia de fato — e que a exceção final vale apenas quando o próprio conteúdo do voto já envolve o pai ou a mãe diretamente, como vedar-lhes proveito.