Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Zayin · Mishná 3 de 9

Vestimenta, lã e linho: o odor forte que libera o voto

הַנּוֹדֵר מִן הַכְּסוּת, מֻתָּר בְּשַׂק, בִּירִיעָה, וּבַחֲמִילָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná trata do voto sobre vestimenta e sobre suas matérias-primas — lã e linho —, fechando com um caso concreto e vívido em que Rabi Yehuda aplica seu próprio princípio interpretativo: tudo depende do contexto e da intenção do votante.

Quem vota da vestimenta, está permitido no saco, na lona grossa, e no cobertor grosseiro. Disse: konam, a lã que sobe sobre mim — está permitido cobrir-se com tosquias de lã. O linho que sobe sobre mim — está permitido cobrir-se com fibras de linho. Rabi Yehuda diz: tudo depende de quem vota. Carregou e suou, e seu odor ficou forte, e disse: konam, lã e linho que sobem sobre mim — está permitido cobrir-se, e fica proibido carregar às costas.A vestimenta (kesut), na linguagem popular, refere-se a tecidos comuns de uso pessoal; sacos, lonas grossas e cobertores ásperos, feitos para carga e não para vestir, ficam fora dessa categoria. Do mesmo modo, quem vota da "lã" ou do "linho" tem em mente o tecido já processado; a matéria-prima crua — tosquia de lã ainda não fiada, fibra de linho ainda não tecida — permanece fora do voto, pois ainda não recebeu a forma final de vestimenta. Rabi Yehuda acrescenta um princípio geral: o alcance de cada voto deve ser lido à luz do contexto específico em que foi proferido. Ele ilustra com um caso concreto: um homem que carregou um fardo pesado, suou, e seu manto ficou com odor forte de suor — e então votou contra "lã e linho subirem sobre mim". Como a intenção evidente era livrar-se do fardo malcheiroso sobre as costas, e não da roupa que veste normalmente, o voto permanece restrito a carregar às costas, deixando-o livre para simplesmente se cobrir com a mesma roupa.

הַנּוֹדֵר מִן הַכְּסוּת, מֻתָּר בְּשַׂק, בִּירִיעָה, וּבַחֲמִילָה. אָמַר קוֹנָם צֶמֶר עוֹלֶה עָלָי, מֻתָּר לְהִתְכַּסּוֹת בְּגִזֵּי צֶמֶר. פִּשְׁתָּן עוֹלֶה עָלָי, מֻתָּר לְהִתְכַּסּוֹת בַּאֲנִיצֵי פִשְׁתָּן. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, הַכֹּל לְפִי הַנּוֹדֵר. טָעַן וְהִזִּיעַ וְהָיָה רֵיחוֹ קָשֶׁה, אָמַר קוֹנָם צֶמֶר וּפִשְׁתִּים עוֹלֶה עָלָי, מֻתָּר לְהִתְכַּסּוֹת וְאָסוּר לְהַפְשִׁיל לַאֲחוֹרָיו:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A lei do penhor na Torá chama a única capa do pobre de "kesutah" — precisamente o termo que a mishná agora define pela linguagem popular, distinguindo-o do saco e da lona grosseira.

Shemot (Êxodo) 22:26
כִּי הִוא כְסוּתֹה לְבַדָּהּ, הִוא שִׂמְלָתוֹ לְעֹרוֹ, בַּמֶּה יִשְׁכָּב
Pois ela é sua única cobertura, é sua veste para sua pele; em que dormirá?

A Torá usa "kesut" precisamente para o manto pessoal que cobre o corpo do pobre à noite — a vestimenta no sentido mais imediato e íntimo, aquela cuja falta o deixaria dormir desprotegido. É exatamente esse sentido cotidiano e pessoal que a mishná define como o alcance do voto: "kesut" abrange o tecido de uso comum sobre o corpo, mas não o saco de carga, a lona de tenda ou o cobertor grosseiro, que servem a outros propósitos e não são, na linguagem do povo, a "veste para sua pele" de que fala a Torá.

Halachot · הֲלָכוֹת

Sem citação direta correspondente na Mishné Torá, Rambam e Bartenura decidem a favor de Rabi Yehuda no Perush HaMishná e no comentário próprio, fixando o princípio interpretativo central da mishná.

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 7:3
וְרַבִּי יְהוּדָה אֵינוֹ הוֹלֵךְ אַחַר פְּשַׁט הַלָּשׁוֹן, אֲבָל מֵבִיא רְאָיָה מִן הָעִנְיָן שֶׁנּוֹפֵל עָלָיו הַנֶּדֶר וּמֵאֵיזוֹ סִבָּה הָיָה. וְהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה

Rambam explica o método de Rabi Yehuda: ao contrário da leitura literal e fixa da linguagem, Rabi Yehuda busca prova no contexto concreto que originou o voto e no motivo que levou a pessoa a votar. Rambam decide a halachá a favor de Rabi Yehuda — cada voto se interpreta à luz de sua circunstância específica.

Bartenura · Nedarim 7:3
הַכֹּל לְפִי הַנּוֹדֵר. לְפִי שְׁעַת הַנֶּדֶר. כֵּיוָן שֶׁנִּכָּר שֶׁמֵּחֲמַת כֹּבֶד מַשָּׂאוֹ נָדַר, מֻתָּר לְהִתְכַּסּוֹת. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה

Bartenura explica o caso concreto: como fica evidente, pelo contexto do suor e do odor forte, que o homem votou por causa do peso incômodo do fardo sobre suas costas — e não contra a própria roupa que veste —, o voto permanece restrito a essa circunstância, e ele continua livre para se cobrir normalmente. Bartenura confirma a decisão a favor de Rabi Yehuda.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam e Bartenura definem os termos técnicos da mishná — saco, lona, cobertor, tosquia e fibra — e fixam o princípio de leitura contextual de Rabi Yehuda que rege o caso final.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 7:3
שַׂק אָרוּג בְּמַטְוֶה שֵׂעָר. וִירִיעָה בֶּגֶד גַּס וְעָבֶה שֶׁאֵינוֹ תָּפוּר. וַחֲמִילָה מָסָךְ, וְהִיא אֵצֶל בְּנֵי אָדָם בְּתַכְלִית הָעֹבִי, מֵגֵן אָדָם בָּהּ רֹאשׁוֹ מֵהַמָּטָר

Rambam define os três materiais que ficam fora da categoria de vestimenta: o saco é tecido de fio de pelo de animal; a lona é um pano grosso e áspero, não costurado; e o cobertor grosseiro é uma cobertura extremamente espessa, com a qual as pessoas costumam proteger a cabeça da chuva. Rambam nota ainda que Rabi Yehuda não segue o sentido literal da palavra, mas busca prova no contexto e no motivo que originou o voto — e a halachá segue Rabi Yehuda.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 7:3
בְּשַׂק בִּירִיעָה וּבַחֲמִילָה. מִינֵי בְגָדִים גַּסִּים וְעָבִים בְּיוֹתֵר, וְאֵין בְּנֵי אָדָם רְגִילִים לְהִתְכַּסּוֹת בָּהֶם: מֻתָּר בְּגִזֵּי צֶמֶר. שֶׁלֹּא נִתְכַּוֵּן אֶלָּא לְבֶגֶד צֶמֶר

Bartenura explica que saco, lona e cobertor grosseiro são tecidos ásperos e espessos demais para o uso pessoal comum, o que os exclui automaticamente da categoria de vestimenta. Sobre a tosquia de lã ainda não fiada, Bartenura esclarece que a intenção do votante era proibir-se apenas da lã já transformada em vestimenta de fato — e não da matéria-prima crua, que ainda não atingiu essa forma final.