Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Zayin · Mishná 1 de 9

Quem vota da verdura: abóboras incluídas, leguminosas fora

הַנּוֹדֵר מִן הַיָּרָק, מֻתָּר בִּדְלוּעִין. וְרַבִּי עֲקִיבָא אוֹסֵר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo o Perek Zayin, a mishná passa da linguagem dos alimentos preparados para a linguagem das categorias vegetais inteiras. O primeiro caso — verdura e abóboras — opõe a maioria dos sábios a Rabi Akiva, que traz uma prova da prática cotidiana do enviado doméstico.

Quem vota da verdura, está permitido nas abóboras. E Rabi Akiva proíbe. Disseram a Rabi Akiva: mas não diz um homem ao seu enviado, compra-me verdura, e ele diz, não encontrei senão abóboras? Disse-lhes: assim é a coisa; ou porventura ele lhe diz, não encontrei senão leguminosas? Mas as abóboras estão incluídas em verdura, e a leguminosa não está incluída em verdura. E fica proibido no feijão egípcio verde, e está permitido no seco.Quem faz um voto proibindo-se de "verdura" em geral permanece livre para comer abóboras, pois a linguagem popular as inclui na categoria de verdura; Rabi Akiva discorda e as considera fora dessa categoria. Os sábios trazem uma prova da vida cotidiana: quando um homem manda seu enviado comprar "verdura" e este retorna dizendo que só encontrou abóboras, ninguém o repreende como se tivesse desobedecido — o que mostra que abóboras contam como verdura. Rabi Akiva responde que essa mesma cena poderia ocorrer também com leguminosas, sem que isso prove sua inclusão; mas os sábios insistem que existe uma diferença real de linguagem: as abóboras, ao contrário da leguminosa, pertencem à categoria de verdura. A mishná fecha com um caso à parte, o feijão egípcio: verde, sua aparência de vagem verde o classifica como verdura e o proíbe; seco, sua aparência de grão o tira dessa categoria e o libera.

הַנּוֹדֵר מִן הַיָּרָק, מֻתָּר בִּדְלוּעִין. וְרַבִּי עֲקִיבָא אוֹסֵר. אָמְרוּ לוֹ לְרַבִּי עֲקִיבָא, וַהֲלֹא אוֹמֵר אָדָם לִשְׁלוּחוֹ קַח לִי יָרָק וְהוּא אוֹמֵר לֹא מָצָאתִי אֶלָּא דְלוּעִין. אָמַר לָהֶם, כֵּן הַדָּבָר, אוֹ שֶׁמָּא אוֹמֵר הוּא לוֹ לֹא מָצָאתִי אֶלָּא קִטְנִית, אֶלָּא שֶׁהַדְּלוּעִין בִּכְלָל יָרָק, וְקִטְנִית אֵינָן בִּכְלָל יָרָק. וְאָסוּר בְּפוֹל הַמִּצְרִי לַח, וּמֻתָּר בַּיָּבֵשׁ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

O povo no deserto lembra saudoso das verduras do Egito — entre elas os pepinos e melões, parentes próximos da abóbora — na mesma enumeração que a mishná agora reparte entre categorias linguísticas.

Bemidbar (Números) 11:5
זָכַרְנוּ אֶת הַדָּגָה אֲשֶׁר נֹאכַל בְּמִצְרַיִם חִנָּם, אֵת הַקִּשֻּׁאִים וְאֵת הָאֲבַטִּחִים וְאֶת הֶחָצִיר וְאֶת הַבְּצָלִים וְאֶת הַשּׁוּמִים
Lembramos o peixe que comíamos no Egito de graça; os pepinos, e os melões, e o alho-porró, e as cebolas, e os alhos.

A Torá enumera "kishuim" e "avatichim" — pepinos e melões — lado a lado com alho-porró, cebolas e alhos, todos tratados pelo texto bíblico como uma única categoria de produtos hortícolas do Egito. Essa mesma amplitude da palavra "verdura" na linguagem cotidiana é o que a mishná discute: os sábios entendem que o termo popular "yarak" abrange também frutos rasteiros de casca grossa como a abóbora, do mesmo modo que a Torá reúne pepinos, melões e bulbos numa mesma lembrança de "verdura do Egito"; Rabi Akiva, por sua vez, sustenta uma linha mais estreita, que exclui a abóbora dessa categoria linguística comum.

Halachot · הֲלָכוֹת

Sem citação direta correspondente na Mishné Torá para este caso específico, Rambam decide a disputa no próprio Perush HaMishná, e Bartenura confirma a mesma conclusão com sua própria fundamentação.

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 7:1
רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר כָּל מִדֵּי דְּמִמְלִיךְ עֲלֵיהּ שְׁלוּחֵיהּ מִינֵּיהּ הוּא. וַחֲכָמִים חוֹלְקִין בָּזֶה, וְהֲלָכָה כַּחֲכָמִים

Rambam resume o argumento de Rabi Akiva — que qualquer item pelo qual o enviado sente necessidade de consultar o remetente antes de trazê-lo já não pertence, por definição, à categoria original pedida — e os sábios discordam desse princípio geral. Rambam decide expressamente a favor dos sábios: a abóbora está incluída na categoria de verdura, e o voto que proíbe verdura proíbe também as abóboras.

Bartenura · Nedarim 7:1
כֵּן הַדָּבָר. וּמִשָּׁם אֲנִי מֵבִיא רְאָיָה... וּמִדְּקָא אָתֵי לְהִמָּלֵךְ עַל הַדְּלוּעִין אַלְמָא מִין יָרָק הוּא. וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים

Bartenura explica o ponto central da prova dos sábios: o próprio fato de o enviado sentir necessidade de voltar e consultar o remetente sobre as abóboras — em vez de simplesmente comprá-las como qualquer outra verdura — mostra que elas pertencem, sim, à categoria de verdura, pois é exatamente esse tipo de item que gera a dúvida cotidiana relatada no caso. Bartenura confirma a decisão final a favor dos sábios contra Rabi Akiva.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, na Guemará (Nedarim 54a), fixa em poucas palavras o fundamento da posição de Rabi Akiva e o motivo da conclusão contrária dos sábios.

Rashi · רש"י
Nedarim 54a
מַתְנִי׳ הַנּוֹדֵר מִן הַיָּרָק וְכוּ׳ וְרַבִּי עֲקִיבָא אוֹסֵר — דְּקָסָבַר דִּלּוּעִין בִּכְלַל יָרָק: אֶלָּא דִּלּוּעִין — מִכְּלָל דְּלָאו מִינֵּיהּ הוּא

Rashi resume que Rabi Akiva proíbe porque entende que as abóboras estão, sim, incluídas na categoria de verdura — e é justamente por isso que ele proíbe o votado de comê-las, ao contrário do que se poderia supor à primeira vista. Sobre a réplica dos sábios, Rashi nota que a expressão "senão abóboras" pressupõe, na leitura deles, que as abóboras não pertencem naturalmente à mesma espécie da verdura originalmente pedida — daí o enviado sentir necessidade de mencionar a ressalva —, o que na verdade reforça a leitura de que elas contam como uma resposta aceitável ao pedido de "verdura".

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 7:1
רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר כָּל מִדֵּי דְּמִמְלִיךְ עֲלֵיהּ שְׁלוּחֵיהּ מִינֵּיהּ הוּא. וַחֲכָמִים חוֹלְקִין בָּזֶה. וְהֲלָכָה כַּחֲכָמִים

Rambam formula o princípio geral por trás da posição de Rabi Akiva: todo item sobre o qual o enviado sente necessidade de consultar o remetente antes de comprá-lo pertence, por essa mesma razão, à categoria original solicitada — e não fora dela, como se poderia pensar. Os sábios discordam desse princípio, e Rambam decide a halachá a favor deles.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 7:1
הַנּוֹדֵר מִן הַיָּרָק. לֹא מָצָאתִי אֶלָּא דְלוּעִין. וְאִם מִין יָרָק הוּא אַמַּאי לֹא זְבִין לֵיהּ: כֵּן הַדָּבָר. וּמִשָּׁם אֲנִי מֵבִיא רְאָיָה. שֶׁמָּא אוֹמֵר לֹא מָצָאתִי אֶלָּא קִטְנִית

Bartenura levanta a objeção implícita no caso: se as abóboras fossem realmente um tipo de verdura, por que o enviado não as compraria diretamente, sem voltar para consultar? A resposta dos sábios, explica Bartenura, é que o próprio hábito de consultar nesse caso específico — e não em qualquer outro tipo de verdura comum — prova que as abóboras estão na fronteira da categoria, mas ainda dentro dela; já a leguminosa, que fica totalmente fora da categoria de verdura, não geraria sequer essa consulta, pois seria evidente que não atende ao pedido original.