Quem vota contra os que veem o sol está proibido até com os cegos, pois este não pretendia senão referir-se a quem o sol vê. — À primeira vista, "os que veem o sol" pareceria excluir os cegos, que não enxergam. Mas a mishná ensina que essa não é a intenção real de quem formula tal voto: a expressão é apenas uma forma poética e corrente de dizer "toda a humanidade", ou "todos sobre quem o sol brilha" — isto é, todos os seres vivos expostos à luz solar, sejam eles capazes de enxergar ou não. Quem vota dessa forma não está pensando na capacidade visual de cada pessoa, mas usando uma expressão idiomática para englobar a totalidade das pessoas. Por isso, mesmo os cegos, que tecnicamente não "veem" o sol, ficam incluídos na proibição — pois o sol os "vê" a eles, no sentido de que sua luz os alcança e ilumina, e é esse o sentido pretendido pela expressão.
A própria Torá emprega o sol como imagem universal do alcance sobre toda a humanidade, sem distinção entre videntes e não videntes — fundamento para a leitura ampla que a mishná dá à expressão.
A expressão "debaixo do sol" na literatura bíblica funciona como sinônimo abrangente de "sobre a terra", "entre os vivos" — não uma referência técnica à capacidade de enxergar o astro. A mishná aplica precisamente essa lógica: assim como "debaixo do sol" significa simplesmente "no mundo", também "os que veem o sol" significa, na fala comum, simplesmente "as pessoas em geral" — e a halachá dos votos sempre segue essa linguagem corrente, e não o sentido técnico e restrito das palavras.
Na ausência de uma citação direta em Mishné Torá para este caso específico, segue-se aqui o Perush HaMishná do próprio Rambam como fonte halachica, explicitamente rotulado.
Rambam resume o princípio metodológico que rege toda esta série de mishnayot: em matéria de votos, o critério decisivo é sempre a linguagem corrente das pessoas comuns em sua época e lugar, não o significado técnico ou gramaticalmente literal das palavras. Como o caso é evidente por si mesmo, Rambam não se estende em explicações adicionais, mas deixa claro que a mesma lógica interpretativa vale para todos os casos seguintes desta série — quem vota, deve ser entendido segundo o que as pessoas comumente entendem por aquela expressão, e não segundo uma leitura estritamente literal.
Bartenura destaca a nuance gramatical que sustenta a leitura da mishná; Rashi, sobre a Guemará, confirma a mesma leitura.
Bartenura chama atenção para a nuance gramatical que sustenta toda a leitura da mishná: se a pessoa tivesse votado "contra os videntes" (min haroim), poderia haver espaço para excluir os cegos, que tecnicamente não enxergam. Mas a expressão usada — "os que veem o sol" — inverte sutilmente a perspectiva, e a mishná lê essa inversão como referindo-se, na verdade, a quem é visto pelo sol, isto é, quem está exposto à sua luz, categoria que evidentemente inclui os cegos tanto quanto os videntes.
Rashi confirma a leitura direta da mishná: quem formula esse voto não tem em mente uma classificação técnica entre quem enxerga e quem não enxerga, mas sim toda pessoa "sobre quem o sol brilha" — ou seja, toda a humanidade, sem exceção, expressão retórica que abrange também os cegos, que continuam expostos à luz solar mesmo sem poder percebê-la visualmente.