Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Guimel · Mishná 5 de 11

"Estas mudas são korban se não forem cortadas": voto condicional e resgate

הֲרֵי נְטִיעוֹת הָאֵלּוּ קָרְבָּן אִם אֵינָן נִקְצָצוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Deixando os quatro tipos de votos permitidos, a mishná passa a um novo tema: o voto condicional que consagra um bem como korban, formulado de duas maneiras opostas quanto à direção da condição — e a diferença crucial que isso gera quanto ao direito de resgate.

Eis estas mudas como korban, se não forem cortadas; este manto como korban, se não for queimado — têm resgate. Eis estas mudas como korban até que sejam cortadas; este manto como korban até que seja queimado — não têm resgate.A mishná apresenta duas fórmulas de voto de consagração aparentemente semelhantes, mas estruturalmente opostas quanto à direção da condição temporal. Na primeira fórmula, a pessoa — temendo, por exemplo, uma tempestade que ameace suas mudas, ou um incêndio que ameace seu manto — vota que o bem se torna korban apenas se a condição-limite não se cumprir: "se não forem cortadas" significa que a consagração vale enquanto e somente enquanto as mudas permanecerem intactas; assim que forem cortadas, ou o prazo estabelecido passar sem que a condição se cumpra deixando o objeto ainda consagrado, a pessoa pode resgatá-lo mediante pagamento de seu valor ao tesouro do templo, como em qualquer bem consagrado comum. Na segunda fórmula, a condição se inverte: "até que sejam cortadas" significa que a consagração persiste exatamente até o momento do corte, e é a própria condição-limite que marca o fim — não o início — da santidade. Nesse caso, enquanto as mudas não forem cortadas, elas permanecem em santidade de corpo (kedushat haguf), a forma mais rigorosa de consagração, que não admite resgate algum: mesmo que a pessoa tente pagar seu valor, o bem permanece consagrado até que a própria condição prevista — o corte ou a queima — se cumpra.

הֲרֵי נְטִיעוֹת הָאֵלּוּ קָרְבָּן אִם אֵינָן נִקְצָצוֹת, טַלִּית זוֹ קָרְבָּן אִם אֵינָהּ נִשְׂרֶפֶת, יֵשׁ לָהֶן פִּדְיוֹן. הֲרֵי נְטִיעוֹת הָאֵלּוּ קָרְבָּן עַד שֶׁיִּקָּצְצוּ, טַלִּית זוֹ קָרְבָּן עַד שֶׁתִּשָּׂרֵף, אֵין לָהֶם פִּדְיוֹן:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A distinção entre bens que podem e não podem ser resgatados remonta à lei geral da consagração e do resgate no Levítico, que estabelece o mecanismo pelo qual um bem votado pode retornar ao uso comum mediante pagamento de seu valor.

Vaicrá (Levítico) 27:9-10
וְאִם בְּהֵמָה אֲשֶׁר יַקְרִיבוּ מִמֶּנָּה קָרְבָּן לַה', כֹּל אֲשֶׁר יִתֵּן מִמֶּנּוּ לַה' יִהְיֶה קֹּדֶשׁ. לֹא יַחֲלִיפֶנּוּ וְלֹא יָמִיר אֹתוֹ, טוֹב בְּרָע אוֹ רַע בְּטוֹב
E se for animal do qual se oferece korban ao Eterno, tudo o que dele for dado ao Eterno será santo. Não o substituirá nem o trocará, bom por mau ou mau por bom.

O versículo estabelece que aquilo que se torna "korban" adquire santidade que, em princípio, é irrevogável e não admite substituição. É essa mesma santidade rigorosa — a "santidade do corpo" (kedushat haguf) — que a mishná atribui às mudas ou ao manto votados "até que sejam cortados": enquanto a condição não se cumpre, o bem permanece tão consagrado quanto um animal apto ao altar, sem possibilidade de resgate. Já na primeira fórmula da mishná, o bem nunca chega a essa santidade máxima — trata-se de uma consagração de valor monetário (kedushat damim), que a própria Torá permite resgatar mediante pagamento equivalente, como ocorre com os bens consagrados à manutenção do templo (bedek habait).

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, explica o mecanismo prático por trás da distinção entre as duas fórmulas de voto — qual delas gera consagração de valor e qual gera santidade de corpo.

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 3:5
בֵּאוּר זֹאת הַמִּשְׁנָה, שֶׁהוּא כְּשֶׁאָמַר הַנְּטִיעוֹת הָאֵלּוּ קָרְבָּן אִם אֵינָן נִקְצָצוֹת הַיּוֹם, וְעָבַר הַיּוֹם וְלֹא נִקְצְצוּ, יָכוֹל לְפָדְּתָן מִיָּד הַהֶקְדֵּשׁ כְּדִין קָדְשֵׁי בֶדֶק הַבַּיִת... אֲבָל אִם אָמַר הֲרֵי הַנְּטִיעוֹת הָאֵלּוּ קָרְבָּן עַד שֶׁיִּקָּצְצוּ, אִי אֶפְשָׁר לְפָדְּתָן עַד שֶׁיִּקָּצְצוּ

Rambam esclarece que a mishná pressupõe um prazo implícito: "se não forem cortadas" refere-se a um dia determinado — a pessoa vota que, se ao final daquele dia as mudas ainda não tiverem sido cortadas, elas se tornam korban; passado o dia sem que o corte ocorra, a santidade recai sobre elas, mas como uma consagração de valor comum, podendo ser resgatada imediatamente junto ao tesoureiro do templo, exatamente como qualquer bem consagrado à manutenção do templo. Já na fórmula "até que sejam cortadas", explica Rambam, não há como resgatar antes do corte: se a pessoa tentasse pagar o resgate antes de as mudas serem cortadas, elas voltariam a ficar consagradas assim que saíssem para uso comum, pois a própria condição do voto — "até que sejam cortadas" — implica que permanecerão korban continuamente até que essa condição se cumpra; somente depois do corte é que o resgate anterior finalmente se efetiva e elas saem definitivamente para uso comum.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura descreve o cenário típico do voto — o temor da tempestade ou do incêndio — e detalha os dois regimes de resgate; Rashi, sobre a Guemará, confirma a leitura da mishná e a distinção entre as duas fórmulas.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 3:5
הֲרֵי נְטִיעוֹת הָאֵלּוּ קָרְבָּן אִם אֵינָן נִקְצָצוֹת. רָאָה רוּחַ סְעָרָה בָּאָה וְיָרֵא שֶׁמָּא יִקָּצְצוּ נְטִיעוֹתָיו... יֵשׁ לָהֶם פִּדְיוֹן. כִּשְׁאָר הֶקְדֵּשׁוֹת... אֵין לָהֶם פִּדְיוֹן. אֶלָּא הַמָּעוֹת נִתְפָּסִין בִּקְדֻשָּׁה וְהַנְּטִיעוֹת חוֹזְרוֹת לִהְיוֹת קְדוֹשׁוֹת

Bartenura descreve o pano de fundo realista do voto: a pessoa vê uma tempestade se aproximando e teme que suas mudas sejam arrancadas, ou vê um incêndio na cidade e teme por seu manto, e vota apressadamente para proteger o bem por meio da consagração — como se dissesse "que ao menos sirva de korban, e não se perca em vão". Sobre a primeira fórmula, confirma que o resgate segue as regras comuns de qualquer bem consagrado. Sobre a segunda fórmula, explica o mecanismo peculiar: se a pessoa tentar resgatar antes do corte, o dinheiro do resgate fica retido em santidade, mas as próprias mudas retornam automaticamente à condição de consagradas — pois a fórmula "até que sejam cortadas" significa que elas permanecerão sagradas continuamente até esse evento, e nenhum resgate anterior pode quebrar essa continuidade.

Rashi · רש"י
Nedarim 28a-28b
מַתְנִי' אָמַר הֲרֵי נְטִיעוֹת הָאֵלּוּ קָרְבָּן — כְּלוֹמַר שֶׁיְּהוּ הֶקְדֵּשׁ. אִם אֵינָן נִקְצָצוֹת — הַיּוֹם, מוֹקִי לָהּ בַּגְּמָרָא, וְעָבַר הַיּוֹם וְלֹא נִקְצְצוּ וְלֹא נִשְׂרַף הַטַּלִּית, הֲרֵי הֵן הֶקְדֵּשׁ וְיֵשׁ לָהֶן פִּדְיוֹן, וְהַדָּמִים יִכָּנְסוּ לְהֶקְדֵּשׁ וְהֵם יֵצְאוּ לְחֻלִּין. אֲבָל אִם אָמַר הֲרֵי הַנְּטִיעוֹת הָאֵלּוּ קָרְבָּן עַד שֶׁיִּקָּצְצוּ, אֵין לָהֶם פִּדְיוֹן, לְעוֹלָם כָּל זְמַן שֶׁלֹּא נִקְצְצוּ

Rashi confirma, com base na Guemará, que a mishná pressupõe um dia determinado como prazo da condição na primeira fórmula: passado esse dia sem que o corte ou a queima ocorressem, o bem se torna consagrado, mas com direito pleno de resgate — o dinheiro entra para o tesouro do templo e o bem sai para uso comum. Sobre a segunda fórmula, Rashi enfatiza a extensão temporal da santidade: "para sempre, todo o tempo em que não forem cortadas" — a consagração persiste indefinidamente, sem qualquer possibilidade de resgate, até que a própria condição do voto — o corte das mudas ou a queima do manto — finalmente se cumpra.