Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Alef · Mishná 1 de 4

Kinuyim: as expressões substitutas que valem como votos

כָּל כִּנּוּיֵי נְדָרִים כִּנְדָרִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mishná de abertura do tratado, que estabelece o princípio geral segundo o qual as expressões substitutas (kinuyim) de votos, anátemas, juramentos e nazireado têm a mesma força que o próprio termo, e traz duas disputas: a hesitação de Rabi Akiva sobre "sou excomungado para ti", e a diferença entre votar "como os votos dos ímpios" e "como os votos dos íntegros".

Todas as expressões substitutas de votos são como votos; e as de anátemas, como anátemas; e as de juramentos, como juramentos; e as de nazireado, como nazireado. Quem diz a seu companheiro: sou proibido de ti, sou separado de ti, sou distanciado de ti, que eu não coma para ti, que eu não prove para ti — está proibido. Sou excomungado para ti — Rabi Akiva costumava hesitar quanto a isso, tendendo à rigidez. Como os votos dos ímpios — votou em nazireado, em oferenda e em juramento. Como os votos dos íntegros — não disse nada. Como as ofertas voluntárias deles — votou em nazireado e em oferenda.A mishná abre o tratado distinguindo duas categorias técnicas: as yadot nedarim ("alças" do voto — fórmulas incompletas que precisam de um complemento para proibir algo, como "sou proibido de ti") e os kinuyim (termos distorcidos ou dialetais que substituem a palavra "korban" e outras palavras-chave, tratados nas mishnayot seguintes). Quem diz apenas "sou proibido de ti", "sou separado de ti" ou "sou distanciado de ti" ainda não formulou um voto completo — essas expressões, isoladas, significam apenas que ele deixará de falar, de negociar ou de sentar-se perto do outro; só se tornam proibição de comer e beber quando complementadas com "que eu não coma para ti" ou "que eu não prove para ti". Já "sou excomungado (menudê) para ti" é uma fórmula ambígua sobre a qual Rabi Akiva vacilava, inclinando-se a tratá-la com rigor, como se de fato formasse um voto válido, embora sem poder cobrar as chicotadas de quem a violasse. As duas últimas cláusulas contrastam o comportamento dos ímpios com o dos íntegros: quem vota "como os votos dos ímpios", mencionando explicitamente nazireado, oferenda e juramento, fica obrigado às três coisas caso viole seu voto — pois os ímpios, segundo a mishná, são justamente os que fazem votos e juramentos levianamente. Já quem vota "como os votos dos íntegros" não assume obrigação alguma, pois os íntegros temem fazer votos formais, evitando transgredir a proibição de demorar em cumpri-los; mas quando vota "como as ofertas voluntárias deles", fica obrigado, pois os íntegros costumam apenas trazer ofertas voluntárias, sem se comprometerem antecipadamente por voto.

כָּל כִּנּוּיֵי נְדָרִים כִּנְדָרִים, וַחֲרָמִים כַּחֲרָמִים, וּשְׁבוּעוֹת כִּשְׁבוּעוֹת, וּנְזִירוּת כִּנְזִירוּת. הָאוֹמֵר לַחֲבֵרוֹ, מֻדָּרְנִי מִמְּךָ, מֻפְרָשְׁנִי מִמְּךָ, מְרֻחָקְנִי מִמְּךָ, שֶׁאֵינִי אוֹכֵל לָךְ, שֶׁאֵינִי טוֹעֵם לָךְ, אָסוּר. מְנֻדֶּה אֲנִי לָךְ, רַבִּי עֲקִיבָא הָיָה חוֹכֵךְ בָּזֶה לְהַחֲמִיר. כְּנִדְרֵי רְשָׁעִים, נָדַר בְּנָזִיר, וּבְקָרְבָּן, וּבִשְׁבוּעָה. כְּנִדְרֵי כְשֵׁרִים, לֹא אָמַר כְּלוּם. כְּנִדְבוֹתָם, נָדַר בְּנָזִיר וּבְקָרְבָּן:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

O princípio de que a palavra proferida cria uma obrigação vinculante — mesmo quando expressa por uma fórmula substituta ou incompleta — vem diretamente do versículo que abre a seção da Torá sobre votos e juramentos.

Bamidbar (Números) 30:3
אִישׁ כִּי יִדֹּר נֶדֶר לַה' אוֹ הִשָּׁבַע שְׁבֻעָה לֶאְסֹר אִסָּר עַל נַפְשׁוֹ, לֹא יַחֵל דְּבָרוֹ, כְּכָל הַיֹּצֵא מִפִּיו יַעֲשֶׂה
Se um homem fizer um voto ao Eterno, ou jurar juramento, impondo proibição sobre si mesmo, não profanará sua palavra; conforme tudo o que sair de sua boca, fará.

A Torá fala em "impor proibição sobre si mesmo" (לֶאְסֹר אִסָּר עַל נַפְשׁוֹ) sem exigir uma fórmula sacramental fixa — o essencial é que a pessoa, por sua própria palavra, torne proibido algo que lhe era permitido. É esse princípio que a mishná estende às expressões substitutas: já que a Torá valida "conforme tudo o que sair de sua boca", uma fórmula distorcida, dialetal ou incompleta — desde que compreensível como expressão de proibição — tem a mesma força vinculante que a fórmula plena e correta. A obrigação nasce da intenção manifestada na fala, não da precisão gramatical do voto.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Mishné Torá, detalha exatamente o alcance de cada uma das fórmulas desta mishná — o que cada expressão proíbe, e a diferença prática entre "como os votos dos ímpios" e "como as ofertas voluntárias dos íntegros".

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Nedarim 1:23-26
הָאוֹמֵר לַחֲבֵרוֹ מֻדָּר אֲנִי מִמְּךָ מַשְׁמַע דָּבָר זֶה שֶׁלֹּא יְדַבֵּר עִמּוֹ... אֲבָל אִם אָמַר לוֹ מֻדָּר אֲנִי מִמְּךָ שֶׁלֹּא אֹכַל לְךָ... הֲרֵי זֶה אָסוּר לֶאֱכל... הָאוֹמֵר לַחֲבֵרוֹ הֲרֵי עָלַי כְּנִדְרֵי רְשָׁעִים אִם אֹכַל לְךָ שֶׁמִּנִּדְרֵיהֶם נָזִיר וְקָרְבָּן וּשְׁבוּעָה וְאָכַל חַיָּב בְּכֻלָּן

Rambam codifica com precisão o alcance de cada fórmula: "sou proibido de ti", sozinho, significa apenas que não falará com o outro; "sou separado de ti" significa que não fará negócios com ele; "sou distanciado de ti" significa que não se sentará dentro de quatro amot dele — nenhuma dessas, isoladamente, proíbe comer. Só quando complementadas com "que eu não coma para ti" é que se tornam proibição de comida, e quem come depois disso um kazait (do volume de uma azeitona) leva chicotadas por violar "não profanará sua palavra". Rambam confirma ainda que quem diz "sou excomungado (menudê) para ti" sem o complemento não come com o outro, mas não leva chicotadas se comer — refletindo exatamente a hesitação de Rabi Akiva registrada na mishná. Quanto às duas últimas cláusulas, Rambam esclarece que tanto quem vota "como os votos dos ímpios" quanto quem vota "como as ofertas voluntárias dos íntegros" fica obrigado por completo, mesmo sem especificar os detalhes — pois basta invocar a categoria para assumir toda a obrigação que ela implica.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam, no Perush HaMishná, e Bartenura explicam a estrutura técnica de "yadot" e "kinuyim" com que o tratado se abre; Rashi, sobre a Guemará, liga a mishná à fonte bíblica do voto.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 1:1
מֻדָּר אֲנִי מִמְּךָ מֻפְרָשׁ אֲנִי מִמְּךָ מְרֻחָק אֲנִי מִמְּךָ אֵינָם כִּנּוּיֵי נְדָרִים אֲבָל הֵם חֲלָקִים מִמִּינֵי הַנְּדָרִים וְהֵם נִקְרָאִים בִּלְשׁוֹנֵנוּ יָדוֹת... וְהַהֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא

Rambam esclarece já na abertura do Perush HaMishná a distinção terminológica que estrutura todo o tratado: "sou proibido de ti", "sou separado de ti" e "sou distanciado de ti" não são propriamente kinuyim (termos substitutos que soam como a palavra original, como "korban" distorcido), mas sim yadot — literalmente "alças", isto é, partes ou pontas do voto pelas quais ele é "segurado", tal como a alça de um utensílio permite segurá-lo. A mishná pressupõe (e a Guemará reconstrói) que o texto originalmente distinguia as duas categorias: primeiro as yadot nedarim, depois os kinuyim propriamente ditos, que serão detalhados na mishná seguinte. Rambam explica ainda que quem diz "como os votos dos ímpios" e menciona nazireado, oferenda e juramento fica obrigado a todos os três se violar o voto, pois os ímpios são caracterizados justamente por jurar e votar sem cuidado; já os íntegros evitam o voto formal por temerem violar a proibição de "não demorar em cumpri-lo", trazendo em vez disso ofertas voluntárias sem compromisso prévio. Rambam conclui que a lei segue Rabi Akiva quanto a "sou excomungado para ti".

Bartenura · רע"ב
Nedarim 1:1
כָּל כִּנּוּיֵי נְדָרִים כִּנְדָרִים. בַּגְּמָרָא מוֹקְמִינַן דְּרֵישָׁא דְּמַתְנִיתִין חַסּוֹרֵי מִחַסְּרָא... יְדוֹת נְדָרִים, כְּמוֹ בֵּית יָד שֶׁל כְּלִי שֶׁאוֹחֲזִין אוֹתוֹ בּוֹ, כָּךְ יְדוֹת נְדָרִים שֶׁבָּהֶם הַנְּדָרִים נֶאֱחָזִים

Bartenura explica que, segundo a Guemará, o texto da mishná está incompleto e deve ser lido como se dissesse primeiro "todas as yadot de votos são como votos" e só depois "todas as expressões substitutas (kinuyim) de votos são como votos" — listando em seguida exemplos de cada categoria. Bartenura ilustra a imagem por trás do termo "yadot": assim como a alça (yad) de um utensílio é a parte pela qual se segura o objeto inteiro, as "alças do voto" são as fórmulas parciais pelas quais o voto completo é "segurado" e ativado. Sobre "sou excomungado para ti", Bartenura explica que Rabi Akiva "chochech" — literalmente "esfregava os lábios um no outro" — hesitando entre proibir explicitamente ou não, mas sua inclinação de fato era para o rigor. E sobre a diferença entre ímpios e íntegros, Bartenura acrescenta que os íntegros por vezes fazem votos de nazireado especificamente para se afastar de uma transgressão, e trazem oferendas voluntárias ao pátio do Templo antes de consagrá-las formalmente ali — precisamente para não incorrer no risco de demora que o voto formal acarreta.

Rashi · רש"י
Nedarim 2a
מַתְנִיתִין: כָּל כִּנּוּיֵי נְדָרִים כִּנְדָרִים — דְּעִקַּר נֶדֶר דִּכְתִיב בַּתּוֹרָה אִישׁ כִּי יִדֹּר נֶדֶר, דְּאָמַר קָרְבָּן שֶׁאֲנִי אוֹכֵל לְךָ אוֹ קָרְבָּן שֶׁאֲנִי נֶהֱנֶה לְךָ, וְאִם אָמַר בְּלָשׁוֹן אַחֵר בְּכִנּוּי נֶדֶר... מִתְּסַר בְּהוּ בִּנְדָרִים כְּמוֹ שֶׁאָסוּר גַּבֵּי קָרְבָּן

Rashi liga diretamente a abertura da mishná à fonte bíblica: o voto em sua forma essencial, tal como escrito na Torá ("um homem que fizer um voto"), consiste em dizer "isto é uma oferenda que não comerei de ti" ou "uma oferenda da qual não me beneficiarei de ti" — invocando explicitamente a palavra "korban" (oferenda). A mishná ensina que, se a pessoa usar em vez disso uma expressão substituta (kinuy) para "korban" — como as que serão listadas na mishná seguinte —, o voto é igualmente válido e proibido, exatamente como seria se tivesse mencionado a oferenda diretamente. Sobre "sou excomungado (menudê) para ti", Rashi explica que a expressão evoca a condição de quem está sob nidui (excomunhão comunitária), a quem é proibido negociar; ao dizer isso de si mesmo em relação ao outro, a pessoa se autoimpõe essa mesma restrição — daí a hesitação de Rabi Akiva sobre se essa analogia basta para constituir um voto pleno.