Seder Nashim · Massechet Nazir · Perek Hei · Mishná 6 de 7

Quando o desconhecido recua: nenhum voto se confirma

הִרְתִּיעַ לַאֲחוֹרָיו
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná trata de uma variação do cenário anterior: o que ocorre se a pessoa que se aproximava nunca chega a ser identificada, por ter recuado antes de se aproximar o suficiente.

Se recuou para trás, não é nazireu.Caso o desconhecido, ao se aproximar do grupo de viajantes, mude de direção e se afaste antes que sua identidade possa ser confirmada, nenhum dos apostadores se torna nazireu — nem sequer aquele cuja aposta poderia, em teoria, ter se confirmado. Como nunca se saberá se as palavras de cada um correspondiam ou não à realidade, a halachá considera que ninguém assumiu efetivamente o voto, aplicando a regra geral de que em caso de dúvida sobre nazireado, a tendência é para a leniência.

הִרְתִּיעַ לַאֲחוֹרָיו, אֵינוֹ נָזִיר.
A mishná encerra com a posição de Rabi Shimon, que propõe uma fórmula alternativa para lidar com a incerteza, coerente com sua posição geral de que a dúvida em matéria de nazireado deve ser tratada com rigor.

Rabi Shimon diz: que diga: "se foi como minhas palavras, eis que sou nazireu por obrigação; e se não, eis que sou nazireu por doação voluntária."Rabi Shimon, que em outras passagens do tratado sustenta que a dúvida sobre nazireado deve ser resolvida com rigor, e não com leniência, propõe uma saída para essa situação incerta: em vez de simplesmente declarar-se livre do voto, cada apostador deveria reformular sua fórmula, comprometendo-se a ser nazireu de qualquer forma — como nazireado por obrigação, caso sua afirmação original estivesse correta, ou como nazireado por doação voluntária, caso estivesse errada — de modo a garantir que, seja qual for a verdade, ele efetivamente cumpra algum tipo de nazireado.

רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, יֹאמַר, אִם הָיָה כִדְבָרַי, הֲרֵינִי נְזִיר חוֹבָה. וְאִם לָאו, הֲרֵינִי נְזִיר נְדָבָה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Como nas demais mishnayot que tratam de nazireado condicional, o versículo básico é o mesmo que institui o voto de nazireado.

Bemidbar (Números) 6:2
אִישׁ אוֹ אִשָּׁה כִּי יַפְלִא לִנְדֹּר נֶדֶר נָזִיר לְהַזִּיר לַה'
Um homem ou uma mulher, quando fizer um voto extraordinário, o voto de nazireu, para se consagrar ao Eterno.

A regra de que ninguém se torna nazireu quando a identidade do desconhecido nunca chega a ser esclarecida decorre do princípio geral, aceito por praticamente todos os sábios exceto Rabi Shimon, de que "em caso de dúvida sobre nazireado, a tendência é para a leniência" — não se impõe a alguém um voto que permanece, para sempre, sem confirmação possível. A fórmula proposta por Rabi Shimon, que distingue entre "nazireado por obrigação" (חוֹבָה) e "nazireado por doação voluntária" (נְדָבָה), reflete sua posição contrária: para ele, a incerteza deveria produzir, ainda assim, algum tipo de nazireado efetivo, e não a ausência total de voto.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam confirma que a halachá não segue Rabi Shimon nesta disputa.

Rambam · Perush HaMishná, Nazir 5:6
הרתיע לאחוריו וחזר לאחוריו, ר"ל זה האיש שהיו חולקין עליו אם הוא פלוני או לא, או אם נזיר או לא, לאחר שהוא בא נגד פניהם חזר לאחוריו ולא נודע מי מהם האמת, לפיכך לא נתחייב אחד מהם בנזירות; ור"ש שסובר ספק נזירות להחמיר... מחייב כל אחד מהם נזירות מספק... ואינה הלכה

Rambam explica que, quando o desconhecido recua antes de ser identificado, nunca se esclarece qual das partes tinha razão, e por isso a regra geral é que ninguém se torna nazireu. Confirma também que Rabi Shimon, coerente com sua posição de que a dúvida sobre nazireado deve ser tratada com rigor — já vista em capítulos anteriores do tratado —, exige que cada apostador assuma algum tipo de nazireado mesmo sem certeza, mas que a halachá prática não segue essa posição.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi, Rambam e Bartenura sobre o caso do desconhecido que recua.

Rashi · רש״י
Nazir 32b, s.v. הרתיע לאחוריו
הרתיע לאחוריו - ראה איש פלוני בא כנגדו ואמר הריני נזיר אם זה שמעון, וחזר זה לאחוריו ואין ידוע אם שמעון הוא אם לאו, אינו נזיר, דספק נזירות להקל. ר' שמעון אומר יאמר כו' - ורבי שמעון לטעמיה דאמר ספק נזירות להחמיר

Rashi confirma a leitura geral: quando o suposto Shimon recua e sua identidade permanece incerta para sempre, ninguém se torna nazireu, seguindo o princípio de que a dúvida em nazireado tende à leniência. E observa que Rabi Shimon é fiel, aqui, à sua posição já conhecida de que, ao contrário, a dúvida em nazireado deve ser tratada com rigor.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nazir 5:6
ור"ש שסובר ספק נזירות להחמיר כמו שנקדם בפרק השני, מחייב כל אחד מהם נזירות מספק כמו שזכר, ואינה הלכה

Rambam relembra que a posição de Rabi Shimon sobre dúvida em nazireado já havia sido apresentada no Perek Bet do tratado, mantendo-se coerente ao longo de toda a obra: para ele, sempre que houver incerteza genuína sobre se um nazireado se aplica, a pessoa deve tratar-se como nazireu, e não como livre do voto.

Bartenura · רע"ב
Nazir 5:6
רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר כוּ'. רַבִּי שִׁמְעוֹן לְטַעְמֵיהּ דְּאָמַר סְפֵק נְזִירוּת לְהַחְמִיר. וּמַה תַּקָּנָתָן, שֶׁהֲרֵי אִי אֶפְשָׁר לְהָבִיא קָרְבָּן מִסָּפֵק, אֶלָּא צְרִיכִים לְהַתְנוֹת כָּל אֶחָד וְלוֹמַר אִם אֵינוֹ כִדְבָרָיו שֶׁיְּהֵא נְזִיר נְדָבָה. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן

Bartenura explica o propósito prático da fórmula de Rabi Shimon: como não se pode trazer um sacrifício movido apenas por dúvida — os sacrifícios exigem certeza sobre a obrigação —, cada apostador deve condicionar seu nazireado de forma que, em qualquer dos dois cenários possíveis, ele acabe por completar um nazireado válido e trazer os sacrifícios correspondentes, seja como nazireado por obrigação, seja como nazireado por doação voluntária. E confirma, mais uma vez, que a halachá não segue Rabi Shimon.