Seder Kodashim · Massechet Menachot · Perek Bet · Mishná 1 de 5

Quem retira o punhado com intenção de comer os restos ou queimar o incenso amanhã

הַקּוֹמֵץ אֶת הַמִּנְחָה לֶאֱכֹל שְׁיָרֶיהָ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O Perek Bet abre onde o Perek Alef fechou: com o tema de pigul e de intenção de tempo errado. Esta primeira mishná traz uma disputa entre Rabi Yosei e os sábios sobre um caso específico — a intenção, no momento da retirada do punhado, de queimar o incenso da menachá apenas no dia seguinte — e a justificativa que Rabi Yosei oferece para tratar o incenso de modo diferente do sangue, da carne e das partes queimadas de uma oferenda animal.

Quem retira o punhado da menachá com a intenção de comer seus restos ou de queimar seu punhado amanhã — Rabi Yosei concede nisto, que é pigul, e há responsabilidade de karet por ela. Com a intenção de queimar seu incenso amanhã, Rabi Yosei diz: é desqualificada, e não há nela karet; e os sábios dizem: é pigul, e há responsabilidade de karet por ela.

Quem retira o punhado da menachá com a intenção de comer seus restos ou de queimar seu punhado amanhã — Rabi Yosei concede nisto, que é pigul.A mishná abre com um caso em que até Rabi Yosei — que na primeira mishná do capítulo anterior discordava dos sábios sobre outros pontos de pigul — reconhece que se trata de pigul: se, ao retirar o punhado, o sacerdote pretendeu comer os restos da menachá ou queimar o próprio punhado apenas no dia seguinte, a oferenda torna-se pigul, com responsabilidade de karet para quem dela comer.

Com a intenção de queimar seu incenso amanhã, Rabi Yosei diz: é desqualificada, e não há nela karet; e os sábios dizem: é pigul.Mas quando a mesma intenção de tempo errado recai não sobre o punhado em si, e sim sobre o incenso que o acompanha, Rabi Yosei muda de posição: para ele, a menachá apenas se desqualifica, sem chegar a pigul nem a karet. Os sábios discordam e mantêm que também esse caso é pigul.

הַקּוֹמֵץ אֶת הַמִּנְחָה לֶאֱכֹל שְׁיָרֶיהָ אוֹ לְהַקְטִיר קֻמְצָהּ לְמָחָר, מוֹדֶה רַבִּי יוֹסֵי בָּזֶה, שֶׁהוּא פִגּוּל וְחַיָּבִין עָלָיו כָּרֵת. לְהַקְטִיר לְבוֹנָתָהּ לְמָחָר, רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, פָּסוּל וְאֵין בּוֹ כָרֵת, וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, פִּגוּל וְחַיָּבִין עָלָיו כָּרֵת.
Disseram-lhe: em que isto difere da oferenda animal? Disse-lhes: porque na oferenda animal, seu sangue, sua carne e suas partes queimadas são um só; mas o incenso não é da menachá.

Disseram-lhe: em que isto difere da oferenda animal?Os sábios desafiam Rabi Yosei com o paralelo da oferenda animal: lá, se o sacerdote abateu o animal com a intenção de queimar as partes destinadas ao altar apenas no dia seguinte, é pigul sem exceção — por que, então, o incenso da menachá deveria ser tratado de modo diferente?

Disse-lhes: porque na oferenda animal, seu sangue, sua carne e suas partes queimadas são um só; mas o incenso não é da menachá.Rabi Yosei responde apontando uma diferença estrutural: na oferenda animal, sangue, carne e partes queimadas formam uma única entidade, de modo que a intenção sobre qualquer uma delas contamina o todo. O incenso, porém, não é considerado parte constitutiva da menachá — é antes um elemento associado a ela — e por isso a intenção de tempo errado voltada para ele não produz pigul, apenas desqualificação.

אָמְרוּ לוֹ, מַה שָּׁנָה זוֹ מִן הַזָּבַח. אָמַר לָהֶם, שֶׁהַזֶּבַח דָּמוֹ וּבְשָׂרוֹ וְאֵמוּרָיו אֶחָד, וּלְבוֹנָה אֵינָהּ מִן הַמִּנְחָה:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Menachot 2:1
הקומץ את המנחה לאכול שיריים או כו': כבר זכרנו שהקומץ והלבונה כמו האימורים מן הזבח... וחכ"א אין המתיר מפגל את המתיר היכא דלא איקבע בחד מנא ולפיכך נתן הכל בכלי אחד היה כגוף א' ומפגל קצתו לקצתו כמו אימורי הזבח... והלכה כחכמים.

Rambam explica que o punhado e o incenso equivalem, na menachá, às partes queimadas de uma oferenda animal. Segundo Rabi Yosei, um habilitador não torna pigul outro habilitador quando ambos não estão fixados num único vaso — por isso sua intenção sobre o incenso, no momento de retirar o punhado, não se fixa. Já os sábios entendem que, uma vez que punhado e incenso são colocados juntos num mesmo vaso, formam um único corpo, e a intenção sobre uma parte torna pigul a outra — assim como as partes queimadas da oferenda animal. Rambam decide explicitamente que a halachá segue os sábios.

Bartenura · Menachot 2:1
הַקּוֹמֵץ אֶת הַמִּנְחָה. מוֹדֶה רַבִּי יוֹסֵי שֶׁהוּא פִּגּוּל... אֵינָהּ מִן הַמִּנְחָה. אֵינָהּ מִמִּין הַמִּנְחָה כְּמוֹ הַקֹּמֶץ, וְאַף עַל פִּי שֶׁהוּא מִמַּתִּירֵי הַמִּנְחָה... וְרַבָּנָן אָמְרֵי לֵיהּ, כִּי אָמְרִינַן דְּאֵין מַתִּיר מְפַגֵּל אֶת הַמַּתִּיר, הֵיכָא דְּלֹא אִקְּבַע בְּחַד מָנָא... אֲבָל הֵיכָא דְּאָקְבְּעוּ בְּחַד מָנָא, כְּגוֹן קֹמֶץ וּלְבוֹנָה שֶׁשְּׁנֵיהֶם בִּכְלִי אֶחָד, מוֹעֶלֶת מַחֲשֶׁבֶת מַתִּיר זֶה לְפַגֵּל מַתִּיר אַחֵר. וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים.

Bartenura observa que a mishná precisa afirmar explicitamente que Rabi Yosei concede pigul no primeiro caso, para deixar claro que sua discordância não se baseia na ideia geral de que "um habilitador não torna pigul outro habilitador com apenas metade dele" — pois o incenso é, tecnicamente, metade do que habilita os restos da menachá para o consumo. Explica que o verdadeiro motivo da posição de Rabi Yosei é que o incenso simplesmente não é considerado parte da menachá. Os sábios respondem que a regra de "um habilitador não torna pigul outro" só vale quando ambos não foram fixados num único vaso — como os dois cordeiros de Shavuot, que permanecem aptos mesmo se um foi abatido com intenção de comer o outro amanhã — mas punhado e incenso, colocados juntos num mesmo vaso, formam uma unidade, e a halachá segue os sábios.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Menachot 13a, sobre a Guemará desta mishná — abertura do Perek Bet
מַה שִּׁנָּה זֶה מִן הַזֶּבַח — שֶׁשּׁוֹחֲטוֹ עַל מְנָת לְהַקְטִיר אֵימוּרָיו לְמָחָר פִּיגּוּל: אֵינָהּ מִן — הַמִּנְחָה. מְפָרֵשׁ בַּגְּמָרָא: גְּמָ' אֵין מְפַגְּלִין בַּחֲצִי מַתִּיר — שֶׁאִם חִישֵּׁב לַעֲבֹד לְמָחָר עֲבוֹדַת חֲצִי מַתִּיר הוּא דְּפָלֵיג רַבִּי יוֹסֵי:

Rashi identifica o paralelo exato que os sábios trazem contra Rabi Yosei: na oferenda animal, quem a abate com a intenção de queimar as partes destinadas ao altar apenas no dia seguinte torna a oferenda pigul, sem exceção — daí a pergunta "em que isto difere?". Sobre "o incenso não é da menachá", remete a explicação detalhada à Guemará. E, na sugia, esclarece o fundamento técnico da posição de Rabi Yosei: ele entende que um habilitador não torna pigul outro habilitador quando a intenção recai sobre metade do que habilita a oferenda — e o incenso, sendo distinto do punhado, é justamente essa "metade" separada sobre a qual Rabi Yosei discorda que a intenção se fixe.