Seder Moed · Massechet Meguilá · Perek Guimel · Mishná 1 de 6 — abre o perek

Sobe-se na santidade, não se desce: a venda de bens sagrados

בְּנֵי הָעִיר שֶׁמָּכְרוּ רְחוֹבָהּ שֶׁל עִיר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O Perek Guimel deixa as regras técnicas da leitura e se volta para a santidade dos bens comunitários — a praça, a sinagoga, a arca, os panos, os livros e o sefer Torá — e o princípio de que se sobe na santidade, nunca se desce.

Os moradores da cidade que venderam a praça da cidade, compram com o dinheiro uma sinagoga. Sinagoga, compram uma arca. Arca, compram panos. Panos, compram livros. Livros, compram um sefer Torá.Quando os moradores vendem um bem comunitário que possui certo grau de santidade — como a praça, onde às vezes se reza em dias de jejum —, o dinheiro obtido só pode ser usado para adquirir algo de santidade igual ou maior: primeiro uma sinagoga, depois, se venderem a sinagoga, uma arca para guardar os rolos sagrados, depois panos para envolvê-los, depois rolos dos Profetas e das Escrituras, e por fim um sefer Torá.

Mas se venderam um sefer Torá, não comprem livros. Livros, não comprem panos. Panos, não comprem arca. Arca, não comprem sinagoga. Sinagoga, não comprem a praça. E o mesmo vale para o excedente.O caminho inverso é proibido: o dinheiro de algo mais sagrado nunca pode ser usado para adquirir algo de santidade menor — a santidade só pode subir, nunca descer. Essa mesma regra aplica-se a qualquer sobra de dinheiro que reste depois de uma compra.

Não se vende o que é da comunidade a um particular, porque isso rebaixa sua santidade, palavras de Rabi Yehudá. Disseram-lhe: se assim, também não se venderia de uma cidade grande para uma cidade pequena.Rabi Yehudá proíbe vender um bem que pertencia a toda a comunidade a um único indivíduo, pois isso reduziria seu grau de santidade — de uso de muitos para uso de um só. Os sábios objetam: se esse fosse o critério, também seria proibido vender de uma cidade grande, com muitos moradores, para uma cidade pequena, com poucos — o que evidentemente é permitido, e portanto o argumento de Rabi Yehudá não se sustenta.

בְּנֵי הָעִיר שֶׁמָּכְרוּ רְחוֹבָהּ שֶׁל עִיר, לוֹקְחִין בְּדָמָיו בֵּית הַכְּנֶסֶת. בֵּית הַכְּנֶסֶת, לוֹקְחִין תֵּבָה. תֵּבָה, לוֹקְחִין מִטְפָּחוֹת. מִטְפָּחוֹת, לוֹקְחִין סְפָרִים. סְפָרִים, לוֹקְחִין תּוֹרָה. אֲבָל אִם מָכְרוּ תוֹרָה, לֹא יִקְחוּ סְפָרִים. סְפָרִים, לֹא יִקְחוּ מִטְפָּחוֹת. מִטְפָּחוֹת, לֹא יִקְחוּ תֵבָה. תֵּבָה, לֹא יִקְחוּ בֵית הַכְּנֶסֶת. בֵּית הַכְּנֶסֶת, לֹא יִקְחוּ אֶת הָרְחוֹב. וְכֵן בְּמוֹתְרֵיהֶן. אֵין מוֹכְרִין אֶת שֶׁל רַבִּים לְיָחִיד, מִפְּנֵי שֶׁמּוֹרִידִין אוֹתוֹ מִקְּדֻשָּׁתוֹ, דִּבְרֵי רַבִּי יְהוּדָה. אָמְרוּ לוֹ, אִם כֵּן, אַף לֹא מֵעִיר גְּדוֹלָה לְעִיר קְטַנָּה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shemot (Êxodo) 40:18
וַיָּקֶם מֹשֶׁה אֶת הַמִּשְׁכָּן
E Moshé ergueu o Tabernáculo.

O princípio "sobe-se na santidade, não se desce" deriva-se, segundo Rashi, do fato de que Betzalel construiu o Tabernáculo, mas foi Moshé — figura de maior estatura — quem o ergueu; e reforça-se com o versículo sobre as bandejas dos duzentos e cinquenta homens de Korach, que, tendo sido consagradas para uso do altar, tiveram de permanecer nesse mesmo nível de santidade ou superior, nunca inferior (Bamidbar 17:3). A partir desses dois exemplos, a Guemará estabelece o princípio geral que rege toda transformação de objetos sagrados: uma vez que algo atinge determinado grau de santidade, o produto de sua venda só pode ser aplicado a algo de santidade igual ou maior — jamais menor.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam identifica a opinião subjacente à mishná sobre a santidade da praça e decide a halachá contra Rabi Yehudá quanto à venda a um particular.

Rambam · Perush HaMishná, Meguilá 3:1
זוֹ הַמִּשְׁנָה הִיא לְרַבִּי מְנַחֵם בַּר יוֹסֵי, שֶׁהוּא נוֹתֵן לִרְחוֹבָהּ שֶׁל עִיר קְדֻשָּׁה מֵאַחַר שֶׁמִּתְפַּלְּלִין בּוֹ בְּתַעֲנִיּוֹת וּבְמַעֲמָדוֹת, וְאֵינָהּ הֲלָכָה. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.
Esta mishná segue a opinião de Rabi Menachem bar Yossei, que atribui santidade à praça da cidade pelo fato de nela se rezar em dias de jejum público e nas reuniões dos ma'amadot; mas essa não é a halachá final, pois a praça só recebe uso de oração ocasional, não constante, e não foi consagrada especificamente para esse fim. E a halachá não segue Rabi Yehudá: é permitido vender um bem que pertencia à comunidade a um único indivíduo, contanto que este trate o objeto com o respeito devido à sua santidade.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica por que a praça tem certo grau de santidade; Rashi detalha a hierarquia dos objetos e por que livros dos Profetas vêm antes do sefer Torá na escala.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Meguilá 3:1
אֵין מוֹכְרִין אֶת שֶׁל רַבִּים לְיָחִיד כוּ׳: וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.

"Não se vende o que é da comunidade a um particular" e assim por diante: a halachá não segue Rabi Yehudá nessa disputa — é permitido vender objetos comunitários a um único indivíduo, tal como é permitido vender de uma cidade grande para uma cidade pequena, contanto que o comprador trate o objeto com o respeito adequado à sua santidade original.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Meguilá 3:1
בְּנֵי הָעִיר. רְחוֹבָהּ שֶׁל עִיר, יֵשׁ בָּהּ קְדֻשָּׁה, שֶׁמִּתְפַּלְּלִין בָּהּ בַּתַּעֲנִיּוֹת. וַחֲכָמִים פְּלִיגֵי עַל סְתָם מַתְנִיתִין וְאָמְרֵי רְחוֹבָהּ שֶׁל עִיר אֵין בָּהּ מִשּׁוּם קְדֻשָּׁה כְּלָל.

"Os moradores da cidade" — a praça da cidade possui certo grau de santidade, pelo fato de nela se rezar publicamente nos dias de jejum comunitário, quando a arca é levada para fora, para a praça, diante de todo o povo. Mas os sábios discordam do que parece ser a opinião simples desta mishná e dizem que a praça da cidade não possui santidade alguma — seu uso ocasional para oração não basta para consagrá-la, e por isso o dinheiro de sua venda poderia, segundo eles, ser usado livremente.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Meguilá 25b-26a
לוֹקְחִין סְפָרִים - נְבִיאִים וּכְתוּבִים. אֲבָל מָכְרוּ תוֹרָה כוּ׳ - שֶׁמַּעֲלִין בַּקֹּדֶשׁ וְלֹא מוֹרִידִין. הוֹאִיל וְהָעָם מִתְפַּלְּלִים בּוֹ בְּתַעֲנִיּוֹת וּבְמַעֲמָדוֹת.

"Compram livros" — refere-se aos rolos dos Profetas e das Escrituras, que têm santidade menor que o sefer Torá, mas maior que os panos e a arca.

"Mas se venderam um sefer Torá" e assim por diante — porque sobe-se na santidade, mas não se desce dela: uma vez atingido o grau mais alto, o caminho de volta está fechado.

"Porque nela se reza em dias de jejum e nos ma'amadot" — como se ensina no tratado Taanit: quando os jejuns anteriores não obtiveram resposta, leva-se a arca para a praça da cidade diante de todo o povo; e, segundo a tosefta, também os representantes dos ma'amadot se reuniam na praça — daí seu grau de santidade, ainda que apenas ocasional.