Na véspera do primeiro dia de festa de Pessach do quarto e do sétimo ano (do ciclo sabático de sete anos — nos anos em que se separa maasar ani, o dízimo do pobre, em vez do segundo dízimo comum), era o biur (a data-limite pela qual todos os presentes agrícolas ainda retidos em casa desde o ano anterior deviam ser definitivamente distribuídos ou eliminados). Como era o biur? Dá-se teruma e teruma do dízimo a seus donos (a teruma comum e a teruma separada do primeiro dízimo pelo levita — teruma do dízimo — são entregues aos cohanim, seus destinatários legítimos), e o primeiro dízimo a seu dono (entregue ao levita), e o dízimo do pobre a seu dono (entregue aos pobres). Mas o segundo dízimo e os bikurim são removidos em qualquer lugar (diferentemente dos presentes anteriores — que têm um destinatário legítimo específico a quem basta entregá-los para cumprir a obrigação —, o segundo dízimo e os primeiros frutos (bikurim) que ainda restam em casa na época do biur não têm mais um destinatário disponível para recebê-los como tal; por isso, se ainda restam, precisam ser eliminados, "removidos do mundo", onde quer que se encontrem). Rabi Shimon diz: os bikurim são como a teruma (Rabi Shimon discorda quanto aos bikurim especificamente: para ele, os bikurim, tal como a teruma, também têm um destinatário legítimo — o cohen — a quem ainda podem ser entregues mesmo depois da época do biur, dispensando sua eliminação). O prato cozido (que contém algum ingrediente do segundo dízimo ou de produto da sétima que ainda não foi removido na época do biur), eis que é como removido (precisamente porque, uma vez cozido e misturado a outros ingredientes, sua identidade individual como produto sagrado do dízimo já não é mais reconhecível, e por isso a halachá o considera, para efeitos práticos do biur, como se já tivesse sido removido, mesmo sem uma ação física adicional).
Esta mishná abre o segundo bloco temático do quinto perek com a fonte central do biur: o versículo de Devarim que ordena, ao fim de três anos, "tirar" todo o dízimo da casa.
Por que alguns presentes se "dão" e outros se "removem"? A distinção que a mishná traça entre presentes que são entregues a seus donos (teruma, teruma do dízimo, primeiro dízimo, dízimo do pobre) e presentes que são "removidos" onde quer que estejam (segundo dízimo e bikurim) reflete uma diferença estrutural fundamental entre os tipos de presentes agrícolas. Os primeiros têm sempre um destinatário externo específico e disponível — um cohen, um levita, um pobre — a quem basta entregá-los fisicamente para cumprir integralmente a obrigação da Torá. O segundo dízimo, porém, não tem um "destinatário" nesse sentido: ele pertence ao próprio dono, que deveria tê-lo consumido em Jerusalém; se ainda resta em sua casa na época do biur, isso significa que o dono não cumpriu a tempo sua obrigação de consumi-lo lá, e a única solução remanescente é eliminá-lo por completo, "removendo-o do mundo" (בְּעַרְתִּי הַקֹּדֶשׁ מִן הַבַּיִת, "removi o sagrado da casa", conforme o próprio texto do viduy que será citado nas mishnayot seguintes). Os bikurim, segundo a opinião anônima da mishná, seguem essa mesma lógica de eliminação — mas Rabi Yossei (aqui chamado Rabi Shimon nesta versão da mishná) discorda, sustentando que os bikurim, como a teruma, sempre têm um cohen disponível para recebê-los, mesmo tardiamente.
O Rambam codifica esta mishná em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva (Mishné Torá), capítulo 11, halachot 1-9, no início de seu tratamento do viduy maasrot e do biur que o precede.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná, que abre o bloco temático do biur.
Já explicamos várias vezes anteriormente que no terceiro e sexto ano da semana sabática se separa maasar ani (dízimo do pobre) em vez do segundo dízimo. E disse o Nome bendito: "ao fim de três anos" (Devarim 14), e disse: "ao fim de sete anos, na época do ano sabático, na festa de Sucot" (ibid. 31); e disseram: assim como o "fim" mencionado adiante é uma festa (regel), também o "fim" mencionado aqui é uma festa. Poder-se-ia pensar que é a festa de Sucot; ensina o versículo: "quando terminares de separar todo o dízimo de tua produção" (ibid. 26) — a festa em que todos os dízimos terminam, dir-se-á que é Pessach, pois Pessach do quarto ano só chega depois que se completa tudo o que cresceu no terceiro ano quanto ao que se deve de maasar ani, e do mesmo modo tudo o que cresceu no sexto ano, que também é ano de dízimo (o Rambam reconstrói passo a passo a dedução hermenêutica que identifica Pessach, e não Sucot, como o momento exato do biur). E o sentido de "removidos" é que se removam e se percam aqueles frutos, até que não se encontre mais nada deles junto ao dono e em sua posse, pois está dito: "removi o sagrado da casa". E disse Rabi Shimon: que os bikurim, se restar algo deles, deve-se dá-los ao cohen como se dá a teruma, e não é obrigado a jogá-los fora ou queimá-los. E o sentido do biur aqui é que se dê de todos os produtos todos os presentes a que se é obrigado, e que se dê cada presente a seu dono, e o que é obrigado a comer, como o segundo dízimo e a plantação de quarto ano, e perde o que restar. E se havia junto a ele um prato cozido de segundo dízimo, dizem Bet Hillel que é como removido, pois se restar e se demorar, se perderá (a mistura culinária já dissolveu a identidade distinta do produto do dízimo, tornando impraticável separá-lo novamente; por isso a halachá o trata como já eliminado); e a halachá não é como Rabi Shimon (quanto aos bikurim — a halachá segue a opinião anônima, de que os bikurim remanescentes devem ser removidos como o segundo dízimo, e não entregues tardiamente ao cohen).
"Na véspera do primeiro dia de festa de Pessach etc.": pois está escrito "ao fim de três anos tirarás todo o dízimo de tua produção" (Devarim 14), e adiante está dito "ao fim de sete anos, na época do ano sabático, na festa de Sucot" (ibid. 31) — assim como ali é festa, também aqui é festa. Poder-se-ia pensar que é a festa de Sucot; ensina o versículo "quando terminares de separar" (ibid. 26) — a festa em que todos os dízimos terminam, dir-se-á que é Pessach, pois os frutos do terceiro ano não terminam de ser todos colhidos até que chegue o Pessach do quarto ano, e do mesmo modo os do sexto ano até que chegue o Pessach do sétimo ano. "Teruma e teruma do dízimo a seus donos": aos cohanim, pois a teruma é deles. "E o primeiro dízimo a seu dono": aos levitas. "E o dízimo do pobre a seu dono": aos pobres. "São removidos em qualquer lugar": é preciso removê-los e destruí-los do mundo. "Os bikurim são dados aos cohanim como a teruma": e não precisam ser removidos do mundo, pois o Misericordioso os chamou de teruma, já que se ensinou: "e a teruma de tua mão" — estes são os bikurim, pois está escrito a respeito deles "e o cohen tomará o cesto de tua mão" (Devarim 26). E a halachá não é como Rabi Shimon (a opinião anônima prevalece: os bikurim remanescentes devem ser removidos, não entregues). "O prato cozido": que tem nele frutos da sétima ou do segundo dízimo, na época do biur. "Eis que é como removido": pois já não é reconhecível sua substância própria.