"Olha desde tua morada sagrada, desde os céus" (ibid., 15): fizemos o que decretaste sobre nós (esta frase, embora não faça parte da citação literal do versículo bíblico, é entendida pela mishná como o pensamento implícito que fundamenta a súplica que se segue: tendo o dono acabado de declarar, nas mishnayot anteriores, o cumprimento minucioso e correto de todas as suas obrigações relativas aos dízimos, ele agora se volta para o Eterno com base nesse cumprimento), faze Tu também o que nos prometeste (a súplica assume abertamente a estrutura de um pedido baseado numa promessa recíproca: já que a parte humana do compromisso — separar corretamente os dízimos — foi cumprida, pede-se agora que a parte divina do compromisso, a bênção prometida, também se cumpra). "Olha desde tua morada sagrada, desde os céus, e abençoa teu povo, Israel" com filhos e filhas (a bênção solicitada abrange, em primeiro lugar, a fertilidade humana — a continuidade do próprio povo de Israel através de seus descendentes). "E a terra que nos deste" com orvalho, e com chuva, e com descendência de gado (em segundo lugar, a bênção solicitada abrange a fertilidade agrícola da própria terra — as condições climáticas necessárias para uma boa colheita, e a multiplicação do gado), e dá sabor aos frutos (uma bênção adicional, específica e sensorial: não apenas que a colheita seja abundante em quantidade, mas que os frutos produzidos tenham qualidade e sabor — encerrando a súplica com um pedido que retoma, de certo modo, o tema central de todo este tratado: os frutos que, quando dizimados e consumidos corretamente, tornam-se ocasião de alegria "diante do Eterno").
Esta mishná trata da conclusão do texto do viduy maasrot — a súplica final que encerra a confissão, transformando-a de uma declaração unilateral de cumprimento em um diálogo de aliança recíproca entre o povo e o Eterno.
Por que a confissão termina em súplica, e não em declaração? A estrutura completa do viduy maasrot — como visto ao longo destas quatro mishnayot (10 a 13) — revela um movimento retórico cuidadosamente construído: começa com uma declaração detalhada e técnica de cumprimento ("removi o sagrado da casa... conforme todo o mandamento que me ordenaste... não transgredi... não me esqueci"), avança por condições cada vez mais específicas sobre a pureza desse cumprimento (aninut, impureza, uso funerário), e culmina, precisamente depois de estabelecida essa base de mérito integral, em uma súplica ousada: "faze Tu também o que nos prometeste". A mishná ensina, por meio dessa estrutura, uma lição sobre a natureza da relação entre o cumprimento humano dos preceitos e a resposta divina — sugerindo que o mérito acumulado pela fidelidade meticulosa aos detalhes de uma mitzvá (mesmo uma tão tecnicamente exigente quanto a separação correta dos dízimos) confere ao suplicante o direito, quase a audácia, de pedir abertamente pela bênção prometida em troca — filhos, chuva, e frutos de bom sabor, os elementos concretos da prosperidade agrícola e familiar que sustentam a vida em Israel.
O Rambam registra a recitação integral do texto do viduy maasrot, incluindo esta súplica final, em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva (Mishné Torá), capítulo 11, halachá 16.
O que o Rambam diz sobre esta mishná, que encerra o texto do viduy maasrot.
"Que dês sabor aos frutos": seu sentido é que sejam gordos e de bom sabor. E este derash que aqui se faz sobre esta parashá, palavra por palavra, não pretende que a pessoa diga isso literalmente no momento da confissão; mas apenas nos informa, à maneira de comentário explicativo, o sentido de cada parte desta parashá (o Rambam faz uma observação metodológica importante e conclusiva sobre todo o exercício das últimas quatro mishnayot: a decomposição frase por frase que a mishná realizou — identificando cada expressão bíblica com um presente ou uma condição específica — é um recurso pedagógico e interpretativo, não um roteiro litúrgico literal a ser recitado palavra por palavra); mas no momento da leitura, não se lê senão a própria parashá em sua linguagem original, tal como foi dada pelo profeta (isto é, tal como está escrita na Torá, sem intercalar as identificações e explicações da mishná); e isso é muito claro.