Todo dinheiro encontrado é considerado comum, mesmo um dinar de ouro junto com prata e com moedas miúdas (a presunção padrão é sempre que dinheiro perdido e depois encontrado pertence ao domínio comum, e não ao dízimo, mesmo quando a combinação de moedas de diferentes valores e metais poderia sugerir, à primeira vista, que se trata de dinheiro cuidadosamente separado para fins de resgate do dízimo — não se levanta essa suspeita). Se encontrou entre elas um caco de barro com a palavra "dízimo" escrita nele, este é dízimo (a única exceção a essa presunção geral de que o dinheiro é comum é quando, junto às moedas, aparece um fragmento de cerâmica com a inscrição explícita "maasser" — nesse caso específico, a etiqueta rotulada é considerada prova suficiente de que aquele dinheiro particular foi de fato separado como dízimo).
O princípio de que a maioria (rov) determina o status de um objeto de origem incerta é uma regra hermenêutica geral aplicada aqui ao caso específico do dinheiro achado, cuja imensa maioria em circulação é comum.
Por que a combinação incomum de moedas não gera suspeita? Poder-se-ia pensar que encontrar um dinar de ouro junto com prata e moedas miúdas — uma mistura que normalmente as pessoas evitam fazer em seu dinheiro comum, mas que corresponderia exatamente ao procedimento técnico de câmbio do dízimo descrito nos perakim anteriores (converter valores pequenos em dinares de ouro, complementando o resto em prata e cobre) — seria motivo suficiente para presumir que se trata de dinheiro do dízimo. A mishná rejeita essa suspeita: mesmo reconhecendo que essa combinação específica de moedas é exatamente como alguém organizaria seu dinheiro do dízimo, isso não basta para superar a presunção geral e estatística de que a vasta maioria do dinheiro encontrado, seja qual for sua composição, é comum. Só um sinal físico e explícito — a inscrição no caco de barro — é forte o suficiente para inverter essa presunção padrão.
O Rambam codifica esta mishná em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva (Mishné Torá), capítulo 6, halachá 9, no contexto de sua discussão sobre dinheiro e objetos de status duvidoso encontrados.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.
"Mesmo um dinar de ouro junto com prata e com moedas miúdas": e não suspeitamos, dizendo que talvez esse dinheiro tenha sido transferido de novo para esta prata ou para este ouro (pois é exatamente esse tipo de câmbio faseado — conforme já ensinado no perek anterior sobre a conversão em dinares de ouro — que produziria justamente essa combinação de moedas; e ainda assim, a mishná recusa a suspeita)... E se encontrou um caco com a palavra "dízimo" escrita, tudo é dízimo, e não dizemos que talvez seja dinheiro comum e este caco seja de um recipiente onde havia dízimo guardado dentro, e escreveram nele "dízimo" (o Rambam explica a razão da diferença de tratamento: uma inscrição explícita e deliberada é um sinal forte demais para ser descartado por uma explicação alternativa hipotética e pouco provável).
"Todo o dinheiro encontrado": em qualquer lugar, seja durante a festa de peregrinação, seja no restante do ano (o Bartenura antecipa uma distinção que a mishná não menciona, mas que a halachá — codificada pelo Rambam em Hilchot Maaser Sheni 6:9 — introduz para o caso específico de Jerusalém, onde durante a festa a maioria do dinheiro em circulação é presumidamente de peregrinos trazendo o dízimo). "Mesmo um dinar de ouro junto com prata e moedas miúdas": pois não é costume misturá-los juntos, e poder-se-ia dizer que este dinheiro é do segundo dízimo, já que é costume transferir a santidade do dízimo para dinares de ouro, e o restante que não chega a um dinar de ouro transfere-se para prata, e o excedente para moedas de cobre, misturando-os todos juntos (o Bartenura explica com mais detalhe por que a combinação levantaria suspeita, tornando ainda mais notável a decisão da mishná de, ainda assim, não suspeitar)... e mesmo assim não nos preocupamos com isso.