A Mishná · הַמִּשְׁנָה
Depois de tratar do próprio dízimo que se contaminou, a mishná passa a um caso relacionado, mas distinto: produtos que foram comprados com dinheiro do dízimo (e que, portanto, carregam sua santidade por extensão, não por origem direta) e que se contaminaram. Os sábios permitem seu resgate, exatamente como o próprio dízimo; Rabi Yehudá discorda, exigindo que sejam enterrados. O argumento entre eles gira em torno de uma distinção jurídica sutil sobre até onde vai a analogia entre o dízimo original e o que foi comprado com seu dinheiro
O que foi comprado com dinheiro do segundo dízimo e se contaminou deve ser resgatado (os sábios permitem que esse produto, mesmo tendo apenas a santidade "derivada" do dízimo, seja resgatado do mesmo modo que o próprio dízimo original, quando se torna impuro). Rabi Yehudá diz: deve ser enterrado (discordando, ele sustenta que esse tipo de produto, por ter uma santidade de segundo grau, não pode ser resgatado uma vez impuro — apenas enterrado, como se faz com objetos sagrados que perderam toda utilidade lícita). Disseram a Rabi Yehudá: e se o próprio segundo dízimo, quando se contamina, pode ser resgatado, não seria lógico que o que foi comprado com dinheiro do segundo dízimo, quando se contamina, também pudesse ser resgatado? (um argumento kal vachomer — do mais leve ao mais pesado: se até o dízimo original, de santidade mais forte, permite resgate quando impuro, por que negar essa mesma permissão a um produto de santidade mais fraca?) Disse-lhes: não! Se dissestes isso do próprio segundo dízimo, é porque ele pode ser resgatado mesmo puro, à distância; direis o mesmo do que foi comprado com dinheiro do dízimo, que não pode ser resgatado puro à distância? (Rabi Yehudá rebate o argumento: a comparação falha, pois o próprio dízimo tem uma flexibilidade de resgate — mesmo estando puro, longe de Jerusalém — que o produto comprado com seu dinheiro nunca teve; por isso não se pode inferir, do fato de o dízimo original poder ser resgatado quando impuro, que o mesmo valeria para algo de categoria jurídica mais restrita).
הַלָּקוּחַ בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר שֵׁנִי שֶׁנִּטְמָא, יִפָּדֶה. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, יִקָּבֵר. אָמְרוּ לוֹ לְרַבִּי יְהוּדָה, וּמָה אִם מַעֲשֵׂר שֵׁנִי עַצְמוֹ שֶׁנִּטְמָא, הֲרֵי הוּא נִפְדֶּה, הַלָּקוּחַ בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר שֵׁנִי שֶׁנִּטְמָא, אֵינוֹ דִין שֶׁיִּפָּדֶה. אָמַר לָהֶם, לֹא, אִם אֲמַרְתֶּם בְּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי עַצְמוֹ, שֶׁכֵּן הוּא נִפְדֶּה בְטָהוֹר בְּרִחוּק מָקוֹם, תֹּאמְרוּ בְלָקוּחַ בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר, שֶׁאֵינוֹ נִפְדֶּה בְטָהוֹר בְּרִחוּק מָקוֹם:
Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה
Esta controvérsia depende da distinção, já estabelecida pela Torá, entre o dízimo em si e os produtos secundários adquiridos com seu valor de resgate.
Devarim (Deuteronômio) 14:24-25
כִּי יִרְחַק מִמְּךָ הַמָּקוֹם... וְנָתַתָּה בַכֶּסֶף.
"Porque o lugar estiver distante de ti... converterás em dinheiro" (Devarim 14:24-25) — a Torá permite explicitamente que o próprio produto do dízimo seja resgatado em dinheiro quando o dono está longe de Jerusalém — e essa permissão, segundo o Rambam, se aplica mesmo quando o produto ainda está puro, apenas por causa da distância. Já um produto comprado em Jerusalém com o dinheiro desse resgate (como frutos, carne ou vinho) tem uma origem jurídica diferente: ele nunca foi objeto direto do mandamento de "dizimar"; ganhou sua santidade apenas por ter sido "trocado" pelo dinheiro do dízimo, dentro de Jerusalém. Por isso, esse produto derivado não herda a mesma flexibilidade do dízimo original — não pode, por exemplo, ser resgatado estando puro e à distância — e é exatamente essa diferença estrutural que Rabi Yehudá invoca para negar-lhe também a permissão de resgate quando impuro.
Por que a impureza justificaria, para os sábios, uma permissão que a mera distância não justifica? A resposta dos sábios não é registrada de modo explícito na própria mishná — apenas sua conclusão. Mas os comentadores explicam que a lógica dos sábios provavelmente segue esta linha: mesmo reconhecendo que o produto comprado com dinheiro do dízimo tem uma santidade mais restrita (não podendo ser resgatado à distância enquanto puro), a impureza representa uma circunstância excepcional e urgente — o produto, uma vez impuro, não pode de modo algum ser consumido licitamente, e sua santidade "ficaria presa" sem solução caso não se permitisse o resgate. Diante dessa urgência prática, os sábios preferem permitir o resgate mesmo do produto derivado, evitando que ele se perca ou apodreça sem uso, ao passo que Rabi Yehudá considera que a diferença de categoria jurídica entre o dízimo original e seu produto derivado é fundamental o bastante para não permitir esse tipo de extensão — e por isso, para ele, resta apenas o sepultamento, como se faz com qualquer objeto sagrado que perdeu toda utilidade lícita.
Halachot · הֲלָכוֹת
O Rambam codifica esta lei em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva, capítulo 7, halachot 1-2, decidindo a favor dos sábios, e não de Rabi Yehudá.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 7:1
פֵּרוֹת הַנִּלְקָחוֹת בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר שֵׁנִי אֵינָן נִפְדִּין בְּרִחוּק מָקוֹם אֶלָּא אִם כֵּן נִטְמְאוּ בְּאַב הַטֻּמְאָה, אֶלָּא יַעֲלוּ הֵן עַצְמָן וְיֵאָכְלוּ בִּירוּשָׁלַיִם. זֶה חֹמֶר בְּלָקוּחַ בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר מִפֵּרוֹת מַעֲשֵׂר עַצְמָן.
"Os frutos comprados com dinheiro do segundo dízimo não podem ser resgatados à distância, a não ser que se tenham contaminado por impureza principal; caso contrário, devem eles próprios subir e ser comidos em Jerusalém. Esta é uma estringência aplicada ao que foi comprado com dinheiro do dízimo, maior do que a aplicada aos próprios frutos do dízimo" (o Rambam confirma exatamente a distinção que Rabi Yehudá invoca em sua defesa — o produto comprado com dinheiro do dízimo é, de fato, sujeito a uma lei mais estrita quanto ao resgate à distância — mas, ao mesmo tempo, ao decidir a lei conforme os sábios, afirma que essa mesma lei permite, sim, o resgate quando há impureza, contrariando a conclusão de Rabi Yehudá de que o sepultamento seria a única opção).
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.
Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 3:10
הַלָּקוּחַ בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר. הוּא דָּבָר הַנִּקְנֶה בְּמָעוֹת מַעֲשֵׂר שֵׁנִי. וְאָמַר שֶׁכֵּן הוּא נִפְדֶּה טָהוֹר בְּרִחוּק מָקוֹם, מְבֹאָר מְאֹד, לְפִי שֶׁמַּעֲשֵׂר שֵׁנִי מֻתָּר לִפְדּוֹתוֹ וּלְהוֹצִיאוֹ לְחֻלִּין אֲפִלּוּ הָיָה טָהוֹר, כְּשֶׁהָיָה מְקוֹמוֹ רָחוֹק מִירוּשָׁלַיִם... אֲבָל הַדָּבָר הַנִּקְנֶה בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר שֵׁנִי, כְּשֶׁהוּא טָהוֹר, שֶׁאָסוּר לִפְדּוֹתוֹ אֲפִלּוּ רָחוֹק מִירוּשָׁלַיִם, וְזֶה לְדִבְרֵי הַכֹּל. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.
"O que foi comprado com dinheiro do dízimo": é algo adquirido com moedas do segundo dízimo. E o argumento de que o próprio dízimo pode ser resgatado puro, à distância, é bem claro, pois o segundo dízimo pode ser resgatado e convertido em uso comum mesmo estando puro, quando seu local está distante de Jerusalém... Mas o que foi comprado com dinheiro do segundo dízimo, quando está puro, é proibido resgatá-lo mesmo estando distante de Jerusalém — e isto é consenso de todos (mesmo Rabi Yehudá concorda com esse ponto de partida). E a lei não segue Rabi Yehudá (o Rambam confirma expressamente que a decisão final segue os sábios, permitindo o resgate também do produto derivado quando impuro).
Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 3:10
הַלָּקוּחַ בְּכֶסֶף מַעֲשֵׂר שֵׁנִי. פֵּרוֹת שֶׁנִּקְנוּ מִדְּמֵי מַעֲשֵׂר שֵׁנִי.
"O que foi comprado com dinheiro do segundo dízimo": frutos que foram adquiridos com o valor do segundo dízimo (o Bartenura define de modo simples e direto o objeto da controvérsia: não se trata do dízimo original — grão, mosto ou azeite separados diretamente da colheita —, mas de qualquer produto secundário comprado, em Jerusalém, com o dinheiro obtido pelo resgate desse dízimo original).
Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.