Seder Zeraim · Massechet Maaser Sheni · Perek Bet · Mishná 9

"Quem troca um sela do segundo dízimo em Jerusalém"

הַפּוֹרֵט סֶלַע שֶׁל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי בִּירוּשָׁלַיִם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mesma controvérsia da mishná anterior, agora aplicada especificamente a quem já está em Jerusalém e precisa trocar prata por moedas miúdas para as despesas da refeição do dízimo. Bet Shamai e Bet Hilel repetem suas posições; e uma série de outros sábios — os discípulos diante dos sábios, Rabi Akiva, Rabi Tarfon e Shamai — propõem proporções ainda mais cautelosas

Quem troca um sela do segundo dízimo em Jerusalém — a Casa de Shamai diz: todo o sela em moedas pequenas; e a Casa de Hilel diz: um shekel de prata e um shekel de moedas (as mesmas duas posições da mishná anterior, agora aplicadas dentro da própria Jerusalém). Os que debatiam diante dos sábios dizem: com três dinares de prata e um dinar de moedas (uma posição intermediária mais cautelosa: de um sela — quatro dinares — apenas um quarto se troca em moedas pequenas). Rabi Akiva diz: três dinares de prata e um quarto de dinar em moedas (uma proporção ainda mais cautelosa: apenas um dezesseis avos do sela em moedas pequenas). Rabi Tarfon diz: quatro asperim de prata (uma medida técnica ainda menor, especificada abaixo). Shamai diz: deve deixá-lo na loja e comer contra ele (a posição mais cautelosa de todas: não trocar nada antecipadamente, mas depositar o sela inteiro com o lojista e ir consumindo seu valor aos poucos, conforme a necessidade).

הַפּוֹרֵט סֶלַע שֶׁל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי בִּירוּשָׁלַיִם, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, כָּל הַסֶּלַע מָעוֹת. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, שֶׁקֶל כֶּסֶף וְשֶׁקֶל מָעוֹת. הַדָּנִין לִפְנֵי חֲכָמִים אוֹמְרִים, בִּשְׁלֹשָׁה דִינָרֵי כֶּסֶף וְדִינָר מָעוֹת. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, שְׁלֹשָׁה דִינָרִין כֶּסֶף, וּרְבִיעִית מָעוֹת. רַבִּי טַרְפוֹן אוֹמֵר, אַרְבָּעָה אַסְפְּרֵי כֶסֶף. שַׁמַּאי אוֹמֵר, יַנִּיחֶנָּה בַחֲנוּת וְיֹאכַל כְּנֶגְדָּהּ:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná é a continuação natural da anterior, deslocando o mesmo problema prático de fora de Jerusalém para dentro dela.

Devarim (Deuteronômio) 14:26
וְנָתַתָּה הַכֶּסֶף בְּכֹל אֲשֶׁר תְּאַוֶּה נַפְשְׁךָ בַּבָּקָר וּבַצֹּאן וּבַיַּיִן וּבַשֵּׁכָר וּבְכֹל אֲשֶׁר תִּשְׁאָלְךָ נַפְשֶׁךָ, וְאָכַלְתָּ שָּׁם לִפְנֵי ה' אֱלֹהֶיךָ וְשָׂמַחְתָּ אַתָּה וּבֵיתֶךָ.
"E darás o dinheiro por tudo que tua alma desejar, por gado e por rebanho, e por vinho e por bebida forte, e por tudo que tua alma pedir, e comerás ali diante do Eterno, teu D-us, e te alegrarás, tu e tua casa" (Devarim 14:26) — uma vez chegado a Jerusalém, o peregrino deve converter o dinheiro do dízimo em alimentos para a refeição sagrada. Isso exige moedas pequenas para compras cotidianas no mercado da cidade — carne, vinho, pão. A questão desta mishná é a mesma da anterior, mas agora dentro da própria Jerusalém: quanto do sela original deve ser convertido de uma vez em moedas pequenas, e quanto deve permanecer em prata, para não desperdiçar valor no câmbio.

Por que tantas opiniões diferentes sobre a mesma questão? A progressão de opiniões nesta mishná — da mais permissiva (Bet Shamai: tudo em moedas pequenas) à mais cautelosa (Shamai: nada trocado antecipadamente) — reflete graus crescentes de preocupação com o mesmo risco identificado na mishná anterior: a perda de valor do dízimo causada pela variação do câmbio entre prata e moedas miúdas, especialmente em Jerusalém durante os períodos de festa, quando a demanda por moedas pequenas dispara e seu preço em relação à prata sobe. Cada opinião representa um cálculo diferente sobre o equilíbrio entre praticidade (ter moedas suficientes à mão) e prudência financeira (não perder valor no câmbio antecipado). A posição de Shamai é a mais radical: evitar completamente o problema deixando a moeda de prata intacta com um comerciante de confiança, e "consumindo" seu valor aos poucos, à medida que compra o necessário — uma espécie de conta corrente informal que elimina o risco cambiário por completo.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam decide a halachá conforme a Casa de Hilel, unificando o caso de dentro e fora de Jerusalém, como já visto na mishná anterior.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 5:14 (já citado em 2:8, aplicado aqui a Jerusalém)
הַפּוֹרֵט סֶלַע מִמְּעוֹת מַעֲשֵׂר שֵׁנִי בֵּין בִּירוּשָׁלַיִם בֵּין חוּץ לִירוּשָׁלַיִם לֹא יְצָרְפֶנָּה כֻּלָּהּ בְּמָעוֹת נְחשֶׁת אֶלָּא בְּשֶׁקֶל מָעוֹת כֶּסֶף וּבְשֶׁקֶל מָעוֹת נְחשֶׁת.
"Quem troca um sela do dinheiro do segundo dízimo, seja em Jerusalém, seja fora de Jerusalém, não deve trocá-lo todo em moedas de cobre, mas em um shekel de moedas de prata e um shekel de moedas de cobre" (o Rambam, ao formular esta halachá de modo unificado — "seja em Jerusalém, seja fora dela" — já responde tanto a esta mishná quanto à anterior com a mesma regra: segue-se a Casa de Hilel em ambos os casos, sem adotar as posições intermediárias mais cautelosas dos discípulos, de Rabi Akiva, de Rabi Tarfon ou de Shamai, nem a posição mais permissiva de Bet Shamai).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 2:9
הַדָּנִין לִפְנֵי חֲכָמִים. שִׁמְעוֹן בֶּן עַזַּאי וְשִׁמְעוֹן בֶּן זוֹמָא וְחָנָן הַמִּצְרִי. בִּשְׁלֹשָׁה דִינָרִין כֶּסֶף וּבְדִינָר מָעוֹת. הַסֶּלַע הוּא אַרְבָּעָה דִינָרִים, וּכְשֶׁבָּא לְהַחֲלִיף הַסֶּלַע לֹא יִקַּח אֶלָּא בְדִינָר אֶחָד פְּרוּטוֹת וּשְׁלֹשָׁה דִינָרִים יִהְיוּ כֶסֶף. רְבִיעִית כֶּסֶף בִּרְבִיעִית מָעוֹת. בְּדִינָר רְבִיעִי שֶׁל כֶּסֶף לֹא יִקַּח אֶלָּא בִּרְבִיעִיתוֹ מָעוֹת שֶׁל נְחֹשֶׁת, וּשְׁלֹשָׁה חֲלָקִים כֶּסֶף.

"Os que debatiam diante dos sábios": Shimon ben Azai, Shimon ben Zoma e Chanan, o Egípcio (discípulos proeminentes que participavam das discussões acadêmicas, sem ainda ter autoridade de decisão própria). "Com três dinares de prata e um dinar de moedas": o sela vale quatro dinares, e quando vier trocar o sela, deve tomar apenas um dinar em moedas pequenas, e três dinares permanecerão em prata. "Um quarto de prata por um quarto de moedas" (posição de Rabi Akiva, ainda mais cautelosa): do quarto dinar de prata restante, deve tomar apenas um quarto dele em moedas de cobre, e os outros três quartos permanecem em prata (resultando numa fração muito menor do valor total convertida em moedas pequenas — apenas um dezesseis avos do sela).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא (continuação — Rabi Tarfon e Shamai)
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 2:9
אַרְבָּעָה אַסְפְּרֵי כֶסֶף. הַדִּינָר חֲמִשָּׁה אַסְפְּרֵי, וּמַטְבֵּעַ הוּא בְּאֶרֶץ יָוָן וְעַד הַיּוֹם קוֹרִין לוֹ אַסְפְּרוֹ. נִמְצָא הַסֶּלַע עֶשְׂרִים אַסְפְּרֵי. וּכְשֶׁהוּא מְחַלֵּל הַדִּינָר יְחַלְּלֶנּוּ עַל אַרְבָּעָה אַסְפְּרֵי כֶסֶף וְאַסְפֵּר אֶחָד נְחֹשֶׁת. יַנִּיחֶנָּה בַחֲנוּת וְיֹאכַל כְּנֶגְדָּהּ. לֹא יְחַלֵּל כְּלָל עַל פְּרוּטוֹת, שֶׁמָּא יִשְׁכַּח וְיַעֲשֶׂה אוֹתָן חֻלִּין, אֶלָּא יַנִּיחַ הַסֶּלַע אֵצֶל הַחֶנְוָנִי וְיֹאכַל כְּנֶגְדָּהּ עַד שֶׁתִּכְלֶה.

"Quatro asperim de prata" (posição de Rabi Tarfon): o dinar vale cinco asperim — uma moeda usada na Grécia, e até hoje chamada "aspro" —, de modo que o sela vale vinte asperim; e quando resgata o dinar, resgata-o sobre quatro asperim de prata e um aspro de cobre (uma fração ainda menor: apenas um vigésimo do sela em cobre). "Deve deixá-lo na loja e comer contra ele" (posição de Shamai): não deve trocar nada por moedas pequenas, com receio de esquecer e tratá-las como dinheiro comum; em vez disso, deve deixar o sela junto ao lojista e ir comendo contra seu valor até que se esgote (a posição mais cautelosa de todas, eliminando por completo o risco de confundir dinheiro sagrado com dinheiro comum). E a halachá é apenas conforme a Casa de Hilel.

Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. A halachá segue apenas a Casa de Hilel, entre todas as opiniões apresentadas.