Seder Zeraim · Massechet Maaser Sheni · Perek Alef · Mishná 4

"Quem compra animal selvagem para ofertas de paz"

הַלּוֹקֵחַ חַיָּה לְזִבְחֵי שְׁלָמִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Esta mishná espelha exatamente a anterior, invertendo cada um dos três casos: quando a compra em si é inválida (animal selvagem para sacrifício não existe), ou quando o costume local é vender as partes separadamente, a santidade do dízimo se estende também ao couro, ao jarro e ao recipiente

Quem compra animal selvagem para ofertas de paz (compra inválida, pois animais selvagens não são aptos para esse sacrifício), ou animal doméstico para carne de desejo (também sem valor de sacrifício aqui), o couro não sai para uso comum (permanece com a santidade do dízimo, pois não houve, de fato, uma compra válida de "carne para sacrifício" que justificasse tratar o couro como mero acessório). Jarras de vinho, abertas ou fechadas, em lugar onde o costume é vendê-las abertas (cobrando separadamente pelo recipiente), o jarro não sai para uso comum (pois ali o comprador de fato paga também pelo jarro). Cestos de azeitonas e cestos de uvas, vendidos com o recipiente (sem costume de venda avulsa), o valor do recipiente não sai para uso comum (mantendo a santidade do dízimo sobre todo o conjunto).

הַלּוֹקֵחַ חַיָּה לְזִבְחֵי שְׁלָמִים, בְּהֵמָה לִבְשַׂר תַּאֲוָה, לֹא יָצָא הָעוֹר לְחֻלִּין. כַּדֵּי יַיִן פְּתוּחוֹת אוֹ סְתוּמוֹת, מְקוֹם שֶׁדַּרְכָּן לִמָּכֵר פְּתוּחוֹת, לֹא יָצָא קַנְקַן לְחֻלִּין. סַלֵּי זֵיתִים וְסַלֵּי עֲנָבִים עִם הַכְּלִי, לֹא יָצְאוּ דְמֵי הַכְּלִי לְחֻלִּין:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A mesma base bíblica da mishná anterior — Devarim 14:26, sobre o que se pode adquirir com dinheiro do segundo dízimo —, aplicada agora aos casos em que a compra falha em seu propósito principal, ou em que o costume comercial local inclui o recipiente no preço do produto.

Vayikrá (Levítico) 1:2 · Devarim (Deuteronômio) 14:26
אָדָם כִּי יַקְרִיב מִכֶּם קָרְבָּן לַה', מִן הַבְּהֵמָה, מִן הַבָּקָר וּמִן הַצֹּאן תַּקְרִיבוּ אֶת קָרְבַּנְכֶם.
"Quando um homem entre vós trouxer oferenda ao Eterno, do gado, do rebanho trareis vossa oferenda" (Vayikrá 1:2) — o versículo restringe as ofertas de paz ao "gado" e ao "rebanho" (behemá), excluindo explicitamente animais selvagens (chayá). Por isso, quem tenta comprar um animal selvagem com dinheiro do dízimo "para ofertas de paz" não realiza, de fato, nenhuma compra válida com esse propósito — a intenção declarada é impossível de se cumprir, e por isso a lógica que retirava o couro da santidade do dízimo (por ser mero acessório da carne pretendida) não se aplica: como a compra inteira nunca correspondeu ao uso declarado, o dinheiro do dízimo permanece vinculado a tudo o que foi adquirido, inclusive o couro.

Por que a inversão do costume muda o resultado? O princípio comum a ambas as mishnayot (1:3 e 1:4) é que a santidade do dízimo acompanha exatamente aquilo que o comprador teve em mente adquirir, conforme o costume do mercado onde a compra ocorre. Quando o costume é vender a carne com o couro embutido no preço, sem distinção, a intenção do comprador — e, portanto, a santidade do dízimo — recai apenas sobre a carne; o couro "sai" livre. Mas onde o costume local é vender essas partes com preços distintos (jarras abertas cobradas à parte, cestos com o recipiente tarifado), o comprador está, de fato, pagando também por elas, e a santidade do dízimo se estende a todo o valor pago. O primeiro caso da mishná — animal selvagem "para ofertas de paz" — segue uma lógica um pouco diferente: como não existe, bíblica e halachicamente, oferenda de paz proveniente de animal selvagem, a declaração de propósito do comprador é vazia; a compra é tratada, na prática, como uma aquisição comum de todo o animal — carne e couro — com dinheiro do dízimo, sem a distinção que separaria as partes.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam trata deste caso espelhado em Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva (Mishné Torá), capítulo 7, imediatamente após o caso paralelo da mishná anterior.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Maaser Sheni veNeta Reva 7:18
לָקַח חַיָּה לְזִבְחֵי שְׁלָמִים, וּבְהֵמָה לִבְשַׂר תַּאֲוָה, הֲרֵי זֶה כְּמִי שֶׁקָּנָה שׁוֹר לַחֲרִישָׁה וְלֹא קָנָה שְׁלָמִים.
"Comprou animal selvagem para ofertas de paz, ou animal doméstico para carne de desejo, isso é como quem comprou boi para lavoura — e não adquiriu ofertas de paz" (o Rambam explica a lógica exata: como esse tipo de compra nunca poderia servir ao propósito declarado — animal selvagem jamais é apto a ofertas de paz —, ela é tratada como se o comprador tivesse simplesmente adquirido um bem qualquer com dinheiro do dízimo, sem a santidade se limitar apenas à carne; todo o animal, incluindo o couro, permanece vinculado ao dízimo).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 1:4
מְעוֹת מַעֲשֵׂר שֵׁנִי מֻתָּר לִקְנוֹת מֵהֶם בְּהֵמָה לִבְשַׂר תַּאֲוָה, אֲבָל אֲסָרוּהוּ וְאָמְרוּ אָסוּר לִקְנוֹת בְּהֵמָה מִמְּעוֹת מַעֲשֵׂר שֵׁנִי אֶלָּא לִשְׁלָמִים... וּמַה שֶּׁאָמַר בְּכָאן כִּי מִי שֶׁקָּנָה חַיָּה לְזִבְחֵי שְׁלָמִים וְזֶה אָסוּר, כִּי הַקָּרְבָּן אֵינוֹ בָא מִן הַחַיָּה לְמַאֲמַר הַשֵּׁם יִתְעַלֶּה "מִן הַבָּקָר וּמִן הַצֹּאן".

Com dinheiro do segundo dízimo, seria em princípio permitido comprar animal para carne de desejo, mas os sábios o proibiram e disseram que não se compra animal com dinheiro do segundo dízimo, exceto para ofertas de paz... E o que se disse aqui — que quem comprou animal selvagem para ofertas de paz, e isso é proibido — é porque o sacrifício não provém do animal selvagem, conforme a palavra do Altíssimo: "do gado e do rebanho" (a proibição desta mishná não é apenas rabínica, como no caso do animal doméstico para carne comum, mas decorre diretamente da impossibilidade bíblica de o animal selvagem servir de oferta de paz).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Maaser Sheni 1:4
הַלּוֹקֵחַ חַיָּה לְזִבְחֵי שְׁלָמִים. וְאֵין קָרְבָּן בָּא מִן הַחַיָּה, דִּכְתִיב "מִן הַבָּקָר וּמִן הַצֹּאן". וּבְהֵמָה לִבְשַׂר תַּאֲוָה. חֲכָמִים גָּזְרוּ שֶׁלֹּא יִקְנוּ בְּהֵמָה מִמְּעוֹת מַעֲשֵׂר שֵׁנִי אֶלָּא שְׁלָמִים... אֵין הָעוֹר יוֹצֵא לְחֻלִּין. כְּלוֹמַר אֵינוֹ בְתוֹרַת זוֹ שֶׁיֵּצֵא הָעוֹר לְחֻלִּין, אֶלָּא לֹא קָנָה מַעֲשֵׂר לֹא הַחַיָּה וְלֹא הַבְּהֵמָה.

"Quem compra animal selvagem para ofertas de paz": e não há sacrifício proveniente de animal selvagem, pois está escrito "do gado e do rebanho". "E animal doméstico para carne de desejo": os sábios decretaram que não se compre animal com dinheiro do segundo dízimo, exceto para ofertas de paz... "O couro não sai para uso comum": isto é, não se trata aqui do caso em que o couro sai para uso comum (porque nem sequer houve compra válida com esse dinheiro), mas sim que o dinheiro do dízimo nunca comprou nem o animal selvagem nem o doméstico (a transação inteira falhou, e por isso o dinheiro do dízimo continua "preso" a tudo o que foi adquirido com ele, incapaz de se transformar em uso comum).

Massechet Maaser Sheni não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.