Aquele que consagra a mulher e diz: ‘Eu pensava que ela era filha de cohen, e eis que é filha de levita’; ‘filha de levita, e eis que é filha de cohen’; ‘pobre, e eis que é rica’; ‘rica, e eis que é pobre’ — ela está consagrada, porque ela não o enganou. Aquele que diz a uma mulher: ‘Eis que tu estás consagrada a mim depois que eu me converter’, ou ‘depois que tu te converteres’; ‘depois que eu for libertado’, ou ‘depois que tu fores libertada’; ‘depois que teu marido morrer’, ou ‘depois que tua irmã morrer’; ‘depois que teu cunhado te libertar por chalitzá’ — ela não está consagrada. E do mesmo modo, aquele que diz a seu companheiro: ‘Se tua esposa der à luz uma fêmea, eis que ela está consagrada a mim’ — ela não está consagrada. Se a esposa de seu companheiro estava grávida e a gravidez já era perceptível, suas palavras têm efeito, e se ela deu à luz uma fêmea, esta está consagrada. — No primeiro caso, o homem se enganou sozinho sobre a origem tribal ou a condição econômica da mulher — ela nunca afirmou ser filha de cohen, ou rica, apenas ele presumiu isso por conta própria —, e por isso o kidushin permanece válido: um engano que a própria mulher não provocou não anula a consagração, pois pensamentos e presunções não expressos (‘devarim she-balev’) não têm força jurídica para desfazer um ato já realizado. No segundo caso, a mishná trata de kidushin condicionado a uma mudança de status jurídico futura — conversão, alforria, viuvez, o falecimento da irmã, ou a chalitzá recebida pelo cunhado — todas hipóteses em que a mulher, no momento da declaração, ainda não é elegível para o kidushin, e por isso a condição simplesmente não se sustenta: não se pode consagrar hoje o que só se tornará juridicamente possível amanhã. O mesmo vale para a fêmea ainda não nascida — ‘ninguém pode transferir a outrem algo que ainda não veio ao mundo’ —, e por isso a promessa de consagrar a futura filha de outro homem não tem efeito, a menos que a gravidez já esteja visivelmente reconhecível no momento da declaração, caso em que as palavras têm alguma força, e se a criança nascer fêmea, ela — sujeita a novo ato de kidushin — fica consagrada.
Rambam esclarece que, mesmo no caso da gravidez já reconhecível, é necessário consagrar a menina novamente após seu nascimento, e só então o noivo pode desposá-la — pois, seguindo o princípio de que ninguém transfere a outrem algo que ainda não veio ao mundo, a declaração original não bastaria por si só; o que a mishná quer dizer com ‘suas palavras têm efeito’ é apenas que, para efeitos de proibição — tratando-a como potencialmente já reservada a ele —, deve-se ser rigoroso, tratando o caso com mais cautela do que a mera possibilidade sugeriria.
Bartenura, citando o Rambam, confirma que o noivo não pode desposar a menina apenas com base na declaração original — é preciso um segundo ato de kidushin depois que ela nasce, pois ninguém pode transferir a outrem algo que ainda não existe no mundo. A expressão ‘suas palavras têm efeito’ foi dita apenas para tratar o caso com rigor, proibindo-a de se casar com outros até que a situação se esclareça — e não para validar, por si só, um kidushin sobre alguém que ainda não nasceu.
Rashi explica sucintamente a expressão final da mishná: a mulher não enganou o noivo — foi ele mesmo quem se enganou sozinho, presumindo por conta própria que ela era filha de cohen ou rica; e, como ela nunca declarou explicitamente essas qualidades, sua presunção equivocada é apenas um ‘pensamento do coração’ (davar she-balev) sem qualquer expressão verbal — e pensamentos não externados não têm força para desfazer um ato jurídico já realizado.