Todo lugar em que há kidushin e não há transgressão, o filho segue [o status de] o homem. E qual é este [caso]? Esta é uma filha de cohen, uma filha de levita e uma filha de israelita que se casaram com um cohen, com um levita ou com um israelita. E todo lugar em que há kidushin e há transgressão, o filho segue [o status de] o desqualificado. E qual é este [caso]? Esta é uma viúva para um sumo sacerdote; uma divorciada ou uma chalutzá para um cohen comum; uma mamzeret ou uma netiná para um israelita; uma filha de israelita para um mamzer ou para um natin. E toda [mulher] que não tem kidushin com ele, mas tem kidushin com outros, o filho é mamzer. E qual é este [caso]? Este é aquele que se relaciona com uma das relações proibidas [arayot] da Torá. E toda [mulher] que não tem kidushin nem com ele, nem com outros, o filho é como ela. E qual é este [caso]? Este é o filho de escrava e de não judia [nachrit]. — A mishná constrói quatro categorias que abrangem todas as combinações possíveis entre validade do kidushin e licitude da união. Na primeira — kidushin válido e sem transgressão alguma —, como o casamento comum entre cohen, levita e israelita, o filho simplesmente segue o status paterno: filho de cohen é cohen, e assim por diante. Na segunda — kidushin válido, mas envolvendo transgressão de proibição sacerdotal ou de status —, como a viúva que se casa com o sumo sacerdote, a divorciada ou a chalutzá que se casa com um cohen comum, ou a mamzeret e a netiná que se casam com um israelita — o kidushin é plenamente válido (exigindo get para se separar), mas o filho segue o lado ‘desqualificado’ (pagum) da união, tornando-se, por exemplo, chalal se o pai é cohen mas a mãe é proibida a ele. Na terceira categoria — quando a mulher não pode ter kidushin válido com aquele homem específico, mas poderia validamente casar-se com outros —, como nas relações proibidas da Torá sujeitas a karet (arayot), o filho é mamzer: um status permanente e severo, que o impede de se casar dentro da congregação de Israel comum, transmitindo-se a toda sua descendência. Na quarta e última categoria — quando a mulher não poderia ter kidushin válido com absolutamente ninguém, nem com aquele homem nem com qualquer outro —, como a escrava (shifchá) ou a mulher não judia (nachrit), inteiramente fora do sistema de kidushin judaico, o filho simplesmente segue o status da mãe: filho de escrava é escravo; filho de não judia não é sequer considerado filho, do ponto de vista da linhagem paterna, do homem judeu que o gerou.
Rambam detalha, caso por caso, a aplicação exata destas quatro categorias, e observa uma exceção notável à primeira regra: o converso (ger) que se casa com uma mamzeret tem kidushin válido e, tecnicamente, sem transgressão — pois a comunidade dos convertidos não é chamada de ‘kahal’ para os fins da proibição bíblica que impede o mamzer de se casar ‘no kahal de Hashem’ —, mas ainda assim o filho não segue o pai: ele é mamzer, tanto no caso do converso que se casa com mamzeret quanto no do mamzer que se casa com uma convertida. Rambam conclui citando os versículos que fundamentam a regra da mãe: ‘a mulher e seus filhos pertencerão a seu senhor’, sobre a escrava, e ‘porque ele desviará teu filho de Mim’, do qual se deduz que apenas o filho de uma mulher judia é chamado ‘teu filho’; o filho de um homem judeu com uma mulher não judia é chamado apenas ‘filho dela’.
Bartenura precisa que a regra geral — ‘kidushin sem transgressão, o filho segue o pai’ — não é absoluta: o converso que se casa com uma mamzeret é um caso de kidushin sem transgressão, pois a comunidade de convertidos não é chamada ‘kahal’, e ainda assim o filho não segue o pai, sendo mamzer — o mesmo vale para o mamzer que se casa com uma convertida. Localiza a fonte bíblica da terceira categoria em Devarim 23, no versículo sobre aquele que ‘toma a mulher de seu pai’, lido em conjunto com o versículo seguinte, ‘não entrará mamzer na congregação de Hashem’ — referindo-se especificamente à cunhada do pai, sujeita à proibição de karet. E confirma, com os mesmos versículos citados pelo Rambam, a regra da escrava e da não judia: apenas o filho nascido de mulher judia é chamado ‘teu filho’.
Rashi define a primeira categoria como toda união em que o kidushin realmente se efetiva (tofsin) e não há qualquer transgressão da Torá envolvida no próprio casamento. E, sobre o exemplo da mishná, esclarece que a regra funciona em todas as combinações possíveis entre as três categorias — cohen, levita e israelita: seja qual for a combinação, o filho sempre segue a linhagem paterna, conforme o princípio bíblico de que a descendência se conta ‘segundo suas famílias, segundo a casa de seus pais’.