Seder Nashim · Massechet Kidushin · Perek Guimel · Mishná 12 de 13

Todo lugar em que há kidushin: o princípio que determina a linhagem do filho

כָּל מָקוֹם שֶׁיֵּשׁ קִדּוּשִׁין וְאֵין עֲבֵרָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná mais central do capítulo — e uma das mais estruturantes de toda a lei de linhagem (yuchassin) na Mishná — estabelece o princípio geral que determina o status do filho segundo a validade e a licitude da união dos pais: o filho segue o pai quando há kidushin válido sem transgressão; segue o cônjuge de status inferior quando há kidushin válido mas com transgressão; é mamzer quando não há kidushin possível com aquele homem mas há com outros; e segue a mãe quando não há kidushin possível com ninguém.

Todo lugar em que há kidushin e não há transgressão, o filho segue [o status de] o homem. E qual é este [caso]? Esta é uma filha de cohen, uma filha de levita e uma filha de israelita que se casaram com um cohen, com um levita ou com um israelita. E todo lugar em que há kidushin e há transgressão, o filho segue [o status de] o desqualificado. E qual é este [caso]? Esta é uma viúva para um sumo sacerdote; uma divorciada ou uma chalutzá para um cohen comum; uma mamzeret ou uma netiná para um israelita; uma filha de israelita para um mamzer ou para um natin. E toda [mulher] que não tem kidushin com ele, mas tem kidushin com outros, o filho é mamzer. E qual é este [caso]? Este é aquele que se relaciona com uma das relações proibidas [arayot] da Torá. E toda [mulher] que não tem kidushin nem com ele, nem com outros, o filho é como ela. E qual é este [caso]? Este é o filho de escrava e de não judia [nachrit].A mishná constrói quatro categorias que abrangem todas as combinações possíveis entre validade do kidushin e licitude da união. Na primeira — kidushin válido e sem transgressão alguma —, como o casamento comum entre cohen, levita e israelita, o filho simplesmente segue o status paterno: filho de cohen é cohen, e assim por diante. Na segunda — kidushin válido, mas envolvendo transgressão de proibição sacerdotal ou de status —, como a viúva que se casa com o sumo sacerdote, a divorciada ou a chalutzá que se casa com um cohen comum, ou a mamzeret e a netiná que se casam com um israelita — o kidushin é plenamente válido (exigindo get para se separar), mas o filho segue o lado ‘desqualificado’ (pagum) da união, tornando-se, por exemplo, chalal se o pai é cohen mas a mãe é proibida a ele. Na terceira categoria — quando a mulher não pode ter kidushin válido com aquele homem específico, mas poderia validamente casar-se com outros —, como nas relações proibidas da Torá sujeitas a karet (arayot), o filho é mamzer: um status permanente e severo, que o impede de se casar dentro da congregação de Israel comum, transmitindo-se a toda sua descendência. Na quarta e última categoria — quando a mulher não poderia ter kidushin válido com absolutamente ninguém, nem com aquele homem nem com qualquer outro —, como a escrava (shifchá) ou a mulher não judia (nachrit), inteiramente fora do sistema de kidushin judaico, o filho simplesmente segue o status da mãe: filho de escrava é escravo; filho de não judia não é sequer considerado filho, do ponto de vista da linhagem paterna, do homem judeu que o gerou.

כָּל מָקוֹם שֶׁיֵּשׁ קִדּוּשִׁין וְאֵין עֲבֵרָה, הַוָּלָד הוֹלֵךְ אַחַר הַזָּכָר. וְאֵיזֶה, זוֹ כֹהֶנֶת, לְוִיָּה וְיִשְׂרְאֵלִית שֶׁנִּשְּׂאוּ לְכֹהֵן וּלְלֵוִי וּלְיִשְׂרָאֵל. וְכָל מָקוֹם שֶׁיֵּשׁ קִדּוּשִׁין וְיֵשׁ עֲבֵרָה, הַוָּלָד הוֹלֵךְ אַחַר הַפָּגוּם. וְאֵיזוֹ, זוֹ אַלְמָנָה לְכֹהֵן גָּדוֹל, גְּרוּשָׁה וַחֲלוּצָה לְכֹהֵן הֶדְיוֹט, מַמְזֶרֶת וּנְתִינָה לְיִשְׂרָאֵל, בַּת יִשְׂרָאֵל לְמַמְזֵר וּלְנָתִין. וְכָל מִי שֶׁאֵין לָהּ עָלָיו קִדּוּשִׁין אֲבָל יֶשׁ לָהּ עַל אֲחֵרִים קִדּוּשִׁין, הַוָּלָד מַמְזֵר. וְאֵיזֶה, זֶה הַבָּא עַל אַחַת מִכָּל הָעֲרָיוֹת שֶׁבַּתּוֹרָה. וְכָל מִי שֶׁאֵין לָהּ לֹא עָלָיו וְלֹא עַל אֲחֵרִים קִדּוּשִׁין, הַוָּלָד כְּמוֹתָהּ. וְאֵיזֶה, זֶה וְלַד שִׁפְחָה וְנָכְרִית:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Kidushin 3:12
כָּל מָקוֹם שֶׁיֵּשׁ קִדּוּשִׁין וְאֵין עֲבֵרָה כוֹ': כְּבָר יָדַעְתָּ שֶׁאַלְמָנָה לְכֹהֵן גָּדוֹל גְּרוּשָׁה וַחֲלוּצָה לְכֹהֵן הֶדְיוֹט הַוָּלָד חָלָל, וְלֹא נֶאֱמַר בְּאֵלּוּ הַוָּלָד הוֹלֵךְ אַחַר הַפָּגוּם אֶלָּא מִפְּנֵי שֶׁהֵם מְחַיְּבֵי לָאוִין וְהַוָּלָד פָּגוּם, כְּלָלוּם עִם מְחַיְּבֵי לָאוִין שֶׁאֶפְשָׁר לוֹמַר בָּהֶם הַוָּלָד הוֹלֵךְ אַחַר הַפָּגוּם, לְפִי שֶׁיִּשְׂרָאֵל שֶׁנָּשָׂא מַמְזֶרֶת אוֹ מַמְזֵר שֶׁנָּשָׂא יִשְׂרְאֵלִית הַוָּלָד מַמְזֵר, כְּמוֹ כֵן הַדִּין בְּנָתִין וּנְתִינָה. וְאַף עַל פִּי שֶׁאֵלּוּ הַכְּלָלוֹת אֲמִתִּיִּים וְהַהַסְכָּמָה עָלֶיהָ, אָמְנָם יֵשׁ בַּבָּבָא הָרִאשׁוֹנָה זוּג אֶחָד בִּלְבַד שֶׁאֵינוֹ כְּמוֹ שֶׁאָמַרְנוּ, וְהוּא גֵּר שֶׁנָּשָׂא מַמְזֶרֶת שֶׁיֵּשׁ קִדּוּשִׁין וְאֵין עֲבֵרָה, לְפִי שֶׁהַגֵּר מֻתָּר בְּמַמְזֶרֶת לְפִי שֶׁפָּסַק הֲלָכָה קְהַל גֵּרִים לֹא אִקְּרֵי קָהָל, אֲבָל הַוָּלָד מַמְזֵר, וּכְמוֹ כֵן מַמְזֵר שֶׁנָּשָׂא גִּיּוֹרֶת בְּזֶה הַזּוּג בִּלְבַד, וְאַף עַל פִּי שֶׁהוּא בְּלֹא עֲבֵרָה וְהַוָּלָד הוֹלֵךְ אַחַר הַפָּגוּם. וְנֶאֱמַר בְּשִׁפְחָה הָאִשָּׁה וִילָדֶיהָ תִּהְיֶה לַאדֹנֶיהָ, וְנֶאֱמַר בְּעוֹבֶדֶת כּוֹכָבִים כִּי יָסִיר אֶת בִּנְךָ מֵאַחֲרָי, בִּנְךָ מִיִּשְׂרְאֵלִית קָרוּי בִּנְךָ, וְאֵין בִּנְךָ הַבָּא מִן הָעוֹבֶדֶת כּוֹכָבִים קָרוּי בִּנְךָ אֶלָּא בְּנָהּ:

Rambam detalha, caso por caso, a aplicação exata destas quatro categorias, e observa uma exceção notável à primeira regra: o converso (ger) que se casa com uma mamzeret tem kidushin válido e, tecnicamente, sem transgressão — pois a comunidade dos convertidos não é chamada de ‘kahal’ para os fins da proibição bíblica que impede o mamzer de se casar ‘no kahal de Hashem’ —, mas ainda assim o filho não segue o pai: ele é mamzer, tanto no caso do converso que se casa com mamzeret quanto no do mamzer que se casa com uma convertida. Rambam conclui citando os versículos que fundamentam a regra da mãe: ‘a mulher e seus filhos pertencerão a seu senhor’, sobre a escrava, e ‘porque ele desviará teu filho de Mim’, do qual se deduz que apenas o filho de uma mulher judia é chamado ‘teu filho’; o filho de um homem judeu com uma mulher não judia é chamado apenas ‘filho dela’.

Bartenura · Kidushin 3:12
כָּל מָקוֹם שֶׁיֵּשׁ קִדּוּשִׁין וְאֵין עֲבֵרָה, שֶׁקִּדּוּשִׁין תּוֹפְסִין בָּהּ וְאֵין עֲבֵרָה בְּנִשּׂוּאֶיהָ, וְהַאי כְּלָלָא לָאו דַּוְקָא, שֶׁהֲרֵי גֵּר שֶׁנָּשָׂא מַמְזֶרֶת יֵשׁ קִדּוּשִׁין וְאֵין עֲבֵרָה, דִּקְהַל גֵּרִים לֹא אִקְּרֵי קָהָל, וְאַף עַל פִּי כֵן אֵין הַוָּלָד הוֹלֵךְ אַחַר הַזָּכָר שֶׁהַוָּלָד מַמְזֵר, אֶחָד גֵּר שֶׁנָּשָׂא מַמְזֶרֶת וְאֶחָד מַמְזֵר שֶׁנָּשָׂא גִּיּוֹרֶת: וְכָל מִי שֶׁאֵין לָהּ עָלָיו קִדּוּשִׁין וְכוּ' הַוָּלָד מַמְזֵר, בִּיבָמוֹת נָפְקָא לָן מִקְּרָא דִכְתִיב לֹא יִקַּח אִישׁ אֶת אֵשֶׁת אָבִיו, וּסְמִיךְ לֵיהּ לֹא יָבֹא מַמְזֵר, וּמוֹקְמִינַן לַהּ בְּשׁוֹמֶרֶת יָבָם שֶׁל אָבִיו, שֶׁהִיא אֵשֶׁת אֲחִי אָבִיו שֶׁהִיא עָלָיו בְּכָרֵת: עַל אַחַת מִכָּל הָעֲרָיוֹת, שֶׁל חַיָּבֵי כְרֵתוֹת: וְלַד שִׁפְחָה וְנָכְרִית, דִּכְתִיב בְּשִׁפְחָה הָאִשָּׁה וִילָדֶיהָ תִּהְיֶה לַאדֹנֶיהָ, וּבְנָכְרִית כְּתִיב כִּי יָסִיר אֶת בִּנְךָ מֵאַחֲרָי, וּמִדְּלָא כְתִיב כִּי תָסִיר, שְׁמַע מִנָּהּ הָכִי קָאָמַר, בִּתְּךָ לֹא תִתֵּן לִבְנוֹ כִּי יָסִיר בַּעַל בִּתְּךָ אֶת בִּנְךָ אֲשֶׁר תֵּלֵד לוֹ בִתְּךָ מֵאַחֲרַי, אֲבָל אַבִּתּוֹ לֹא תִקַּח לִבְנֶךָ לֹא מְהַדַּר, שֶׁאֵין הַבֵּן הַבָּא מִן הַנָּכְרִית קָרוּי בִּנְךָ אֶלָּא בְנָהּ:

Bartenura precisa que a regra geral — ‘kidushin sem transgressão, o filho segue o pai’ — não é absoluta: o converso que se casa com uma mamzeret é um caso de kidushin sem transgressão, pois a comunidade de convertidos não é chamada ‘kahal’, e ainda assim o filho não segue o pai, sendo mamzer — o mesmo vale para o mamzer que se casa com uma convertida. Localiza a fonte bíblica da terceira categoria em Devarim 23, no versículo sobre aquele que ‘toma a mulher de seu pai’, lido em conjunto com o versículo seguinte, ‘não entrará mamzer na congregação de Hashem’ — referindo-se especificamente à cunhada do pai, sujeita à proibição de karet. E confirma, com os mesmos versículos citados pelo Rambam, a regra da escrava e da não judia: apenas o filho nascido de mulher judia é chamado ‘teu filho’.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Kiddushin 66b, s.v. מתני' כל מקום שיש קידושין ואין עבירה; כהנת לויה וישראלית וכו'
מַתְנִיתִין כָּל מָקוֹם שֶׁיֵּשׁ קִדּוּשִׁין וְאֵין עֲבֵרָה – שֶׁהַקִּדּוּשִׁין תּוֹפְסִין בָּהּ וְאֵין עֲבֵרָה בְּנִשּׂוּאִין, שֶׁלֹּא אֲסָרַתָּהּ תּוֹרָה עָלָיו: כֹּהֶנֶת לְוִיָּה וְיִשְׂרְאֵלִית וְכוּ' – לֵוִי שֶׁנָּשָׂא כֹּהֶנֶת אוֹ יִשְׂרְאֵלִית בְּנָהּ לֵוִי, וְכֹהֵן שֶׁנָּשָׂא לְוִיָּה וְיִשְׂרְאֵלִית בְּנָהּ כֹּהֵן, יִשְׂרָאֵל שֶׁנָּשָׂא כֹּהֶנֶת אוֹ לְוִיָּה הַוָּלָד יִשְׂרָאֵל, לְמִשְׁפְּחֹתָם לְבֵית אֲבֹתָם כְּתִיב:

Rashi define a primeira categoria como toda união em que o kidushin realmente se efetiva (tofsin) e não há qualquer transgressão da Torá envolvida no próprio casamento. E, sobre o exemplo da mishná, esclarece que a regra funciona em todas as combinações possíveis entre as três categorias — cohen, levita e israelita: seja qual for a combinação, o filho sempre segue a linhagem paterna, conforme o princípio bíblico de que a descendência se conta ‘segundo suas famílias, segundo a casa de seus pais’.