Três terras há para o casamento: Judeia, Transjordânia e Galileia. Não se obriga a sair de cidade para cidade, nem de metrópole para metrópole. Mas dentro da mesma terra, obriga-se de cidade para cidade e de metrópole para metrópole, mas não de cidade para metrópole, nem de metrópole para cidade. Obriga-se de um lar ruim para um lar bom, mas não de um lar bom para um lar ruim. Rabán Shimon ben Gamliel diz: também não de um lar ruim para um lar bom, porque o lar bom testa. — A mishná divide a Terra de Israel, para efeitos matrimoniais, em três grandes regiões — Judeia, Transjordânia e Galileia — estabelecendo que, uma vez casado numa dessas regiões, nenhum dos cônjuges pode forçar o outro a se mudar para uma região diferente: presume-se que o casamento foi contraído com a expectativa implícita de permanecer naquela região, tornando qualquer mudança inter-regional uma alteração substancial demais das condições originais do casamento. Dentro de uma mesma região, porém, a regra é mais flexível: pode-se obrigar a mudança de uma cidade comum para outra, ou de uma metrópole (centro comercial maior e mais movimentado) para outra, mas nunca de uma cidade comum para uma metrópole, nem o inverso — pois a vida numa metrópole é qualitativamente diferente, mais congestionada e menos arejada, o suficiente para constituir uma mudança substancial mesmo dentro da mesma região. A mishná acrescenta um princípio adicional sobre qualidade do lar: pode-se obrigar a mudança de um lar insalubre para um lar mais saudável, mas nunca o inverso — presumindo que ninguém se opõe razoavelmente a uma melhora em suas condições de vida. Rabán Shimon ben Gamliel discorda até desse último ponto aparentemente óbvio, adotando uma posição ainda mais protetora: mesmo a mudança para um lar objetivamente melhor não deve ser imposta, pois qualquer alteração no ambiente habitual — mesmo para melhor — representa um risco à saúde, já que o corpo humano se acostuma ao seu entorno conhecido.
A Torá garante à esposa três direitos básicos que o marido não pode reduzir — alimento, vestimenta e relação conjugal —, o fundamento textual de todo o sistema de deveres materiais que o marido assume ao se casar. Esta mishná estende esse princípio de proteção ao ambiente doméstico em sentido amplo: o lugar onde o casal vive, a cidade, a região, a qualidade do ar e da água — tudo isso faz parte das condições implícitas sob as quais o casamento foi contraído, e uma mudança substancial demais nessas condições, mesmo para melhor segundo Rabán Shimon ben Gamliel, pode equivaler a diminuir aquilo que o cônjuge tinha o direito de esperar ao se casar.
Rambam define os termos técnicos da mishná: "cidade" refere-se às povoações menores ao redor de uma região, enquanto "metrópole" (kerach) é a grande cidade murada, centro comercial para onde convergem mercadores de toda a vizinhança, com abundância de todo tipo de mercadoria. Rambam cita ainda a explicação talmúdica de por que a mudança de ambiente é prejudicial mesmo quando aparentemente positiva: "mudança de hábito é o início da doença intestinal" — mesmo mudanças para melhor perturbam o equilíbrio do corpo acostumado a seu entorno. A lei segue Rabán Shimon ben Gamliel, a posição mais protetora. Rambam acrescenta uma aplicação prática: se um homem da Galileia se casa com uma mulher da Judeia, ou o inverso, ele pode obrigá-la a se mudar com ele para sua própria região de origem, pois esse foi o entendimento implícito do casamento desde o início; e em todos os casos, pode-se obrigar a mudança de uma cidade de maioria não-judaica para uma cidade de maioria judaica, mas nunca o inverso.
Bartenura resume os quatro níveis de proteção da mishná: entre as três grandes regiões (Judeia, Transjordânia, Galileia), nenhuma mudança pode ser imposta; dentro da mesma região, pode-se obrigar a mudança entre cidades comuns ou entre metrópoles, mas nunca entre uma e outra categoria, pois a vida numa metrópole é mais difícil — todos se apertam ali, aproximando as casas umas das outras sem ventilação adequada, ao contrário das cidades comuns, que têm jardins e pomares próximos às casas, com ar mais saudável. E quanto à qualidade do lar, a lei segue Rabán Shimon ben Gamliel: nem mesmo a mudança para um lar objetivamente melhor pode ser imposta. Bartenura confirma ainda a aplicação prática: um casamento entre pessoas de regiões diferentes obriga a esposa a se mudar para a região do marido, e sempre se pode obrigar a saída de uma cidade de maioria não-judaica para uma de maioria judaica, nunca o inverso.