Rambam explica que o conceito de horaá (decisão) pelo qual o tribunal se torna responsável ocorre quando ele diz ao povo: “está permitido a vós fazer tal coisa”. Explica por que a mishná especifica “agiu por erro segundo eles”: se o erro do indivíduo não se apoiasse na decisão do tribunal — por exemplo, se o tribunal decidiu que o chélev (gordura proibida) próximo ao órgão era permitido, mas o indivíduo pretendia comer sebo permitido e, por engano, comeu o chélev proibido — ele seria obrigado a trazer sacrifício, pois não comeu por confiar na decisão do tribunal; mas quando agiu de fato apoiado na decisão, está isento, mesmo que sua ação tenha ocorrido junto com a do tribunal ou antes dela. Nota que esta mishná segue a opinião de Rabi Yehudá, para quem o indivíduo que age segundo a decisão do tribunal está isento; porém a lei segue os sábios, para os quais ele só está isento quando a maioria dos habitantes da Terra de Israel agiu segundo essa decisão — e, nesse caso, é o tribunal que se torna obrigado a trazer o sacrifício comunitário. Por fim, sobre quem se apoia em si mesmo, esclarece que, ainda que não lhe fosse evidente o erro do tribunal, mas simplesmente não fosse seu costume agir segundo a decisão alheia, e sim segundo o que lhe parecesse correto por si mesmo — se agiu assim, é obrigado.
Bartenura explica que “decidiram transgredir” significa que disseram ao povo: “estais autorizados a fazer algo cuja transgressão deliberada acarreta caret”. Observa que esta mishná segue Rabi Yehudá, para quem o indivíduo que agiu segundo a decisão do tribunal está isento — mas a lei não é assim; segue-se antes os sábios, para quem ele só fica isento quando a maioria dos habitantes da Terra de Israel, ou a maioria das tribos, agiu segundo essa decisão, e então é o tribunal que traz o touro pelo pecado oculto da comunidade, ficando isentos os que agiram segundo ele. Explica “por erro segundo eles” como excluindo o caso em que o indivíduo não se apoiou de fato na decisão — por exemplo, se o tribunal decidiu que o chélev era permitido, mas o sebo se confundiu com o chélev proibido e ele o comeu, pois nesse caso ele é obrigado, já que não comeu por causa do tribunal. Sobre “quer não tenham agido e ele tenha agido”, esclarece que, se o próprio tribunal não praticou o ato segundo sua decisão, o indivíduo que agiu está isento e eles ficam obrigados — pois o tribunal só traz sacrifício pelo erro da decisão em si, já que o ato depende da congregação e a decisão, do tribunal. E sobre “é obrigado porque não se apoiou no tribunal”, nota que, embora pareça deliberado — já que sabia do erro e mesmo assim agiu segundo suas palavras, e o transgressor deliberado não estaria sujeito a sacrifício —, a Guemará explica que ele é considerado um transgressor por erro, pois julgou ser mizvá agir segundo o tribunal mesmo sabendo que erraram. Por fim, “esta é a regra” inclui também quem despreza a decisão do tribunal — que não costuma agir segundo suas palavras, e mesmo assim, por coincidência, agiu como o tribunal decidiu, não por confiar nele, mas porque lhe pareceu correto por si mesmo: também esse é obrigado.
Rashi, ao abrir o coméntario sobre a Guemará deste tratado, explica que o caso da mishná — “o tribunal decidiu transgredir” — refere-se, por exemplo, a uma decisão de que o chélev (gordura proibida) ou o sangue eram permitidos. Sobre “e o indivíduo foi e agiu por erro segundo eles”, remete à explicação detalhada da Guemará. Explica “quer tenham agido” como o próprio tribunal tendo comido, por exemplo, sangue ou chélev junto com o indivíduo; “quer tenham agido e ele tenha agido depois deles”, um após o outro; e esclarece que “quer não tenham agido” refere-se ao tribunal não ter praticado o ato, e “e ele tenha agido” — o indivíduo, segundo a decisão deles. Por fim, sobre “está isento”, precisa que se trata da isenção de trazer a chatat individual (cordeira ou cabra), pois ele se apoiou no tribunal e agiu segundo sua decisão.