Dois gitin que se escreveram um ao lado do outro, e duas testemunhas hebraicas vêm de debaixo de um para debaixo do outro, e duas testemunhas gregas vêm de debaixo de um para debaixo do outro: aquele junto ao qual as primeiras testemunhas são lidas é válido. Uma testemunha hebraica e uma testemunha grega, uma testemunha hebraica e uma testemunha grega, vindo de debaixo de um para debaixo do outro: ambos são inválidos. — A mishná descreve uma situação puramente técnica de caligrafia: dois gitin foram escritos lado a lado, na mesma largura do pergaminho, e quatro testemunhas assinaram abaixo deles — duas em hebraico, que escrevem da direita para a esquerda, e duas em grego, que escrevem da esquerda para a direita. Por causa dessa direção oposta de escrita, o nome de uma testemunha pode começar sob um documento e terminar sob o outro — de modo que fica ambíguo, à primeira vista, sob qual dos dois documentos a assinatura de fato "pertence". Quando as duas testemunhas hebraicas assinaram primeiro, seguidas pelas duas gregas, o documento válido é aquele sob o qual as primeiras testemunhas — as hebraicas — são lidas integralmente, pois presume-se que as testemunhas posteriores simplesmente seguiram, na direção de sua própria escrita, o padrão já estabelecido pelas primeiras. Mas se a ordem das assinaturas se alternou — uma hebraica, uma grega, outra hebraica, outra grega, cada uma vindo de debaixo de um documento para debaixo do outro — não há mais como determinar com segurança qual conjunto de testemunhas pertence a qual get, e por isso ambos os documentos são invalidados.
Rambam explica a peculiaridade da escrita das testemunhas gregas — da esquerda para a direita — e como o nome e o patronímico de cada uma acabam se dividindo entre os dois documentos; Bartenura detalha o mesmo mecanismo com precisão gráfica.
Rambam esclarece um ponto que poderia confundir o leitor: as "testemunhas gregas" mencionadas na mishná não são gregas quanto à sua fé ou origem — são judeus plenamente qualificados para testemunhar — mas assinaram o documento usando a escrita grega, isto é, escreveram seus nomes na direção da esquerda para a direita, ao contrário do hebraico e do árabe, que se escrevem da direita para a esquerda. É exatamente essa diferença de direção que faz o nome de uma testemunha começar sob um documento e seu sobrenome patronímico terminar sob o outro, criando a ambiguidade que a mishná resolve.
Bartenura descreve o cenário com precisão gráfica: os dois gitin foram escritos em duas colunas lado a lado; as duas testemunhas hebraicas assinaram primeiro, com o nome da testemunha sob o documento da direita e o nome de seu pai sob o documento da esquerda (seguindo a direção direita-para-esquerda do hebraico); e as duas testemunhas gregas assinaram depois, seguindo o padrão já estabelecido pelas primeiras, mas em sentido contrário. O critério final é sempre "aquele junto ao qual as primeiras testemunhas são lidas": se as hebraicas assinaram por cima, o documento da direita é válido; se as gregas assinaram por cima, o documento da esquerda é válido — pois se presume que as segundas testemunhas seguiram a ordem física já traçada pelas primeiras.
Rashi, sobre a Guemará (Guitin 87a), detalha graficamente como o cruzamento de nome e patronímico entre os dois documentos determina qual das assinaturas pertence a cada get, e por que a ordem alternada invalida ambos.
Rashi explica o mecanismo gráfico exato: os dois documentos foram escritos lado a lado, na largura do pergaminho. As testemunhas hebraicas assinam do primeiro documento (direita) em direção ao segundo (esquerda) — de modo que o nome próprio da testemunha fica sob o primeiro documento, e o nome de seu pai, sob o segundo. Já as testemunhas gregas, que residem em terras helênicas e escrevem à moda grega — da esquerda para a direita —, quando assinam abaixo, na verdade invertem a ordem: como quem escreve "יוסף בן שמעון" à maneira grega, o resultado se lê como "filho de Yossef, Shimon" — de modo que o nome da testemunha acaba, na prática, sob o segundo documento, e o nome do pai, sob o primeiro. Por isso, conclui Rashi, quando as testemunhas hebraicas assinaram primeiro, as gregas necessariamente assinaram sob o segundo documento — daí o critério de que vale o get junto ao qual as primeiras testemunhas, lidas em sua própria direção de escrita, se completam integralmente.
Rashi explica que, quando a ordem das assinaturas se alterna — hebraico, grego, hebraico, grego, cada par vindo de um documento para o outro em sequência —, a incerteza gráfica se agrava a ponto de já não ser mais possível determinar, com base na ordem física das assinaturas, quantas testemunhas de fato assinaram sob cada documento: pode ser que três tenham assinado sob um e apenas uma sob o outro, invertendo-se dependendo de como se lê a sequência. Diante dessa incerteza real quanto ao número de testemunhas válidas em cada get, ambos os documentos ficam inválidos — a razão precisa é desenvolvida com mais detalhe na própria Guemará.