Seder Nashim · Massechet Guitin · Perek Vav · Mishná 6 de 7

Lançado num poço, o homem saudável que zomba, e a queda do telhado

מִי שֶׁהָיָה מֻשְׁלָךְ לְבוֹר וְאָמַר, כָּל הַשּׁוֹמֵעַ אֶת קוֹלוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Continuando o tema da mishná anterior — quais circunstâncias revelam intenção séria por trás da ordem de escrever um get —, a mishná trata do caso extremo de quem está lançado num poço, sem saber quem o ouve, e do contraste com o homem saudável, cuja ordem isolada de "escrever" é presumida como zombaria, salvo quando seu próprio destino final prova o contrário.

Aquele que foi lançado num poço e disse: Todo aquele que ouvir sua voz, que escreva um get para sua esposa — eis que estes devem escrever e dar. O saudável que disse: Escrevam um get para minha esposa — quis brincar com ela. Houve um caso de um homem saudável que disse: Escrevam um get para minha esposa — e subiu ao topo do telhado e caiu e morreu. Disse Rabban Shimon ben Gamliel: disseram os sábios: se caiu por si mesmo, eis que é get; se o vento o empurrou, não é get.A mishná abre com um caso ainda mais radical do que os da mishná anterior: alguém lançado num poço, temendo morrer ali, que grita para que quem quer que ouça sua voz escreva um get para sua esposa — mesmo sem conhecer pessoalmente quem o escuta, nem esses conhecerem a ele. Ainda assim, precisamente porque essa pessoa especificou seu próprio nome, o de sua esposa e todos os detalhes necessários, a urgência extrema da situação — a beira da morte, sem saber se sobreviverá — já demonstra intenção plena de que o get seja escrito e entregue, de modo que quem ouvir deve escrevê-lo e providenciar sua entrega, mesmo sem conhecer o homem. Em contraste absoluto, a mishná apresenta o caso do homem saudável (bari) que, sem qualquer circunstância de perigo, diz apenas "escrevam um get para minha esposa", sem acrescentar "e deem": como não há urgência alguma que explique por que ele não completou a instrução, presume-se que ele "quis zombar dela" — ou seja, fez uma declaração vazia, sem intenção séria de divórcio, talvez por raiva momentânea ou provocação, e nenhum get válido deve ser escrito com base nisso. A mishná então relata um caso concreto que testa esse princípio: um homem saudável disse "escrevam um get para minha esposa" e, em seguida, subiu ao topo do telhado — e caiu e morreu. Rabban Shimon ben Gamliel relata a decisão dos sábios sobre esse caso ambíguo: se ele caiu por iniciativa própria (revelando, com esse ato final, que sua intenção desde o início era pôr fim à própria vida e, portanto, também ao casamento — seu fim comprova seu começo), o get é válido; mas se foi o vento que o empurrou contra sua vontade — um acidente que nada revela sobre sua intenção original ao pedir o get —, permanece a presunção inicial de zombaria, e o get é inválido.

מִי שֶׁהָיָה מֻשְׁלָךְ לְבוֹר וְאָמַר, כָּל הַשּׁוֹמֵעַ אֶת קוֹלוֹ יִכְתֹּב גֵּט לְאִשְׁתּוֹ, הֲרֵי אֵלּוּ יִכְתְּבוּ וְיִתֵּנוּ. הַבָּרִיא שֶׁאָמַר, כִּתְבוּ גֵט לְאִשְׁתִּי, רָצָה לְשַׂחֶק בָּהּ. מַעֲשֶׂה בְּבָרִיא אֶחָד שֶׁאָמַר, כִּתְבוּ גֵט לְאִשְׁתִּי, וְעָלָה לְרֹאשׁ הַגַּג וְנָפַל וּמֵת. אָמַר רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל, אָמְרוּ חֲכָמִים, אִם מֵעַצְמוֹ נָפַל, הֲרֵי זֶה גֵט. אִם הָרוּחַ דְּחָאַתּוּ, אֵינוֹ גֵט:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, explica o critério de "o fim revela o início" e confirma a halachá segundo Rabban Shimon ben Gamliel; Bartenura esclarece o texto elíptico da mishná sobre o caso do telhado.

Rambam · Perush HaMishná, Guitin 6:6
מִי שֶׁהָיָה מֻשְׁלָךְ לְבוֹר וְאָמַר כוּ': הַבָּרִיא שֶׁאָמַר כִּתְבוּ גֵט לְאִשְׁתִּי כוּ': רָצָה לְשַׂחֶק בָּהּ, כְּשֶׁלֹּא הָיָה שָׁם עִנְיָן מוֹרֶה עַל כַּוָּנָתוֹ, כְּמוֹ שֶׁסִּפֵּר בָּזֶה הַמַּעֲשֶׂה. וְהַהֲלָכָה כְּרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל

Rambam esclarece o princípio geral: presume-se zombaria apenas quando não existe nenhuma circunstância que revele a verdadeira intenção do marido — e é exatamente esse o ponto que o relato concreto do homem que subiu ao telhado e caiu vem ilustrar, pois ali existe, sim, um fato posterior capaz de revelar a intenção original. A halachá segue Rabban Shimon ben Gamliel.

Bartenura · Guitin 6:6
וְאָמַר כָּל הַשּׁוֹמֵעַ אֶת קוֹלוֹ. וּפֵרֵשׁ שְׁמוֹ וְשֵׁם עִירוֹ. רָצָה לְשַׂחֶק בָּהּ. הוֹאִיל וְלֹא אָמַר תְּנוּ. מַעֲשֶׂה בְּבָרִיא. מְפָרֵשׁ בַּגְּמָרָא דַּחֲסוּרֵי מִחַסְּרָא וְהָכִי קָתָנֵי: וְאִם הוֹכִיחַ סוֹפוֹ עַל תְּחִלָּתוֹ, הֲרֵי זֶה גֵט, וּמַעֲשֶׂה נַמִּי בְּבָרִיא וְכוּ'. וַהֲלָכָה כְּרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל

Bartenura precisa que o homem no poço mencionou seu próprio nome e o nome de sua cidade, para que quem o ouvisse pudesse identificá-lo e agir corretamente. E confirma que a presunção de zombaria decorre precisamente do fato de ele não ter dito "e deem" — sem essa palavra, falta a instrução de entrega. Sobre o caso do telhado, Bartenura explica que o texto da mishná está elíptico, faltando uma frase intermediária, e deveria ser lido assim: "e se seu fim comprovou seu início, eis que é get — e houve também um caso de um homem saudável [que subiu ao telhado etc.]." A halachá segue Rabban Shimon ben Gamliel.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Perush de Rashi sobre a Guemará (Guitin 66a), além de Rambam e Bartenura.

Rashi · רש״י
Guitin 66a, s.v. מתני' כל השומע קולו; מתני' רצה לשחק בה; אם מעצמו נפל הרי זה גט
מַתְנִיתִין כָּל הַשּׁוֹמֵעַ קוֹלוֹ - וּפֵרֵשׁ שְׁמוֹ וְשֵׁם עִירוֹ: מַתְנִיתִין רָצָה לְשַׂחֶק בָּהּ - הוֹאִיל וְלֹא אָמַר תְּנוּ: אִם מֵעַצְמוֹ נָפַל הֲרֵי זֶה גֵט - דְּדַעְתּוֹ מִתְּחִלָּה הָיְתָה לְכָךְ וְסוֹפוֹ הוֹכִיחַ, וַהֲוֵה לֵיהּ כִּמְפָרֵשׁ וּמְסֻכָּן

Rashi confirma que a validade do get para quem grita do poço depende de ele ter mencionado seu próprio nome e o de sua cidade — sem isso, ninguém saberia a quem atribuir o get. Sobre a presunção de zombaria, Rashi reafirma que ela decorre exatamente da ausência da palavra "deem". E sobre o caso da queda do telhado, Rashi explica com precisão o raciocínio jurídico: se ele caiu por iniciativa própria, isso prova que sua intenção, desde o início, já era pôr fim à vida — e seu fim comprova seu começo —, de modo que sua situação passa a ser equiparada à daqueles mencionados na mishná anterior, o que embarca ao mar e o moribundo, cuja simples ordem "escrevam" já basta para constituir get válido.

Rambam · רמב״ם
Perush HaMishná, Guitin 6:6
רָצָה לְשַׂחֶק בָּהּ, כְּשֶׁלֹּא הָיָה שָׁם עִנְיָן מוֹרֶה עַל כַּוָּנָתוֹ... וְהַהֲלָכָה כְּרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל

Rambam resume o critério central da mishná: a presunção de zombaria vale apenas na ausência de qualquer indício objetivo da intenção real do marido, e cede diante de qualquer fato posterior capaz de revelá-la — como demonstra o caso concreto relatado na própria mishná.