Seder Nezikin · Massechet Eduyot · Perek Chet · Mishná 7 de 7 · Encerramento do tratado

Eliyahu HaNavi: fazer as pazes no mundo

לֹא לְרַחֵק וְלֹא לְקָרֵב, אֶלָּא לַעֲשׂוֹת שָׁלוֹם בָּעוֹלָם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mishná final do tratado: a halachá de Moisés no Sinai sobre a vinda de Eliyahu, transmitida por Rabi Yehoshua em nome de Rabban Yochanan ben Zakai — encerrada pela opinião dos Sábios, apoiada em Malaquias, de que sua missão é fazer paz no mundo

Disse Rabi Yehoshua: recebi de Rabban Yochanan ben Zakai, que ouviu de seu mestre, e seu mestre de seu mestre, uma halachá dada a Moisés no Sinai, que Eliyahu não virá para contaminar nem para purificar, para afastar nem para aproximar, mas para afastar os que foram aproximados pela força e para aproximar os que foram afastados pela força. A família de Beit Tzerifa estava do outro lado do Jordão, e Ben Tzion a afastou pela força; e havia outra família ali, e Ben Tzion a aproximou pela força. A casos como estes, Eliyahu virá para contaminar e para purificar, para afastar e para aproximar. Rabi Yehuda diz: para aproximar, mas não para afastar. Rabi Shimon diz: para igualar a disputa. E os Sábios dizem: nem para afastar nem para aproximar, mas para fazer paz no mundo, como está dito: "Eis que eu vos envio a Eliyahu, o profeta..." e "ele fará voltar o coração dos pais para os filhos, e o coração dos filhos para seus pais".A mishná final de todo o tratado Eduyot trata da grande esperança messiânica associada ao profeta Eliyahu (Elias), mas o faz de um modo surpreendentemente restritivo e humilde. Rabi Yehoshua transmite uma cadeia de tradição que remonta, em última instância, a uma halachá dada diretamente a Moisés no Sinai: contrariamente ao que se poderia esperar de um profeta dotado de discernimento divino, Eliyahu não virá, na era messiânica, para resolver por autoridade profética as inúmeras dúvidas de linhagem e pureza que a Mishná registrou ao longo de todo este tratado — famílias de issá, casos de dúvida sobre chalal, disputas de pureza sem solução. Sua função não será revelar segredos ocultos de nascimento ou parentesco. Será, isso sim, corrigir apenas as injustiças cometidas bizroa — "pela força", isto é, por violência, coação política ou abuso de poder — como no caso concreto citado: a família de Beit Tzerifa, do outro lado do Jordão, fora ilegitimamente excluída da comunidade por um homem poderoso chamado Ben Tzion, enquanto outra família, verdadeiramente desqualificada, fora indevidamente aceita pelo mesmo abuso de autoridade. Apenas nesses casos de manipulação social e política — não nos casos de dúvida genuína e legítima — Eliyahu intervirá. Três opiniões adicionais refinam ainda mais o alcance de sua função: Rabi Yehuda restringe seu papel a apenas aproximar, nunca afastar; Rabi Shimon o vê como um conciliador de disputas rabínicas divergentes; e os Sábios, na opinião que fecha o tratado e se tornou a mais citada de todas, negam por completo que sua missão seja jurídica ou genealógica — "nem para afastar, nem para aproximar, mas para fazer paz no mundo". O versículo de apoio, de Malaquias, não fala de decisões halachicas, mas de reconciliação familiar e humana: o retorno do coração dos pais aos filhos, e dos filhos aos pais. Assim, o tratado inteiro — que começou com a pergunta metodológica de por que se preservam opiniões rejeitadas, e percorreu centenas de testemunhos técnicos sobre pureza, linhagem e ritual — termina não com uma resolução técnica, mas com uma visão de esperança: a vinda de Eliyahu não separará os seres humanos em categorias de aptos e inaptos, mas reconciliará os que a força e a discórdia afastaram uns dos outros.

אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ, מְקֻבָּל אֲנִי מֵרַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי, שֶׁשָּׁמַע מֵרַבּוֹ וְרַבּוֹ מֵרַבּוֹ, הֲלָכָה לְמשֶׁה מִסִּינַי, שֶׁאֵין אֵלִיָּהוּ בָא לְטַמֵּא וּלְטַהֵר, לְרַחֵק וּלְקָרֵב, אֶלָּא לְרַחֵק הַמְקֹרָבִין בִּזְרוֹעַ וּלְקָרֵב הַמְרֻחָקִין בִּזְרוֹעַ. מִשְׁפַּחַת בֵּית צְרִיפָה הָיְתָה בְעֵבֶר הַיַּרְדֵּן וְרִחֲקָהּ בֶּן צִיּוֹן בִּזְרוֹעַ, וְעוֹד אַחֶרֶת הָיְתָה שָׁם וְקֵרְבָהּ בֶּן צִיּוֹן בִּזְרוֹעַ. כְּגוֹן אֵלּוּ, אֵלִיָּהוּ בָא לְטַמֵּא וּלְטַהֵר, לְרַחֵק וּלְקָרֵב. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, לְקָרֵב, אֲבָל לֹא לְרַחֵק. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, לְהַשְׁווֹת הַמַּחֲלֹקֶת. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, לֹא לְרַחֵק וְלֹא לְקָרֵב, אֶלָּא לַעֲשׂוֹת שָׁלוֹם בָּעוֹלָם, שֶׁנֶּאֱמַר (מלאכי ג) הִנֵּה אָנֹכִי שֹׁלֵחַ לָכֶם אֵת אֵלִיָּה הַנָּבִיא וְגוֹ׳ וְהֵשִׁיב לֵב אָבוֹת עַל בָּנִים וְלֵב בָּנִים עַל אֲבוֹתָם:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת מִן הַתָּנָ"ךְ

Malaquias 3:23–24 (no texto massorético; 3:23 em algumas versões cristãs é 4:5)
הִנֵּה אָנֹכִי שֹׁלֵחַ לָכֶם אֵת אֵלִיָּה הַנָּבִיא לִפְנֵי בּוֹא יוֹם ה׳ הַגָּדוֹל וְהַנּוֹרָא. וְהֵשִׁיב לֵב אָבוֹת עַל בָּנִים וְלֵב בָּנִים עַל אֲבוֹתָם, פֶּן אָבוֹא וְהִכֵּיתִי אֶת הָאָרֶץ חֵרֶם.
"Eis que eu vos envio a Eliyahu, o profeta, antes que venha o grande e terrível dia do Eterno. E ele fará voltar o coração dos pais para os filhos, e o coração dos filhos para seus pais, para que eu não venha a ferir a terra com extermínio total."
A última profecia dos Últimos Profetas. Este versículo, que a mishná cita para fechar todo o tratado, é também — na ordenação tradicional do Tanach — um dos últimos versículos de toda a seção dos Profetas: Malaquias é considerado o último dos profetas antes do encerramento da profecia em Israel. A mishná não cita o versículo para apoiar uma função jurídica de Eliyahu, mas precisamente o oposto: para explicar que sua missão, segundo a opinião final e vencedora dos Sábios, não é "afastar" nem "aproximar" no sentido técnico-halachico usado ao longo de todo o testemunho, mas reconciliar — heshiv lev, "fazer voltar o coração". A tradição rabínica lê nesse "coração dos pais voltado para os filhos, e coração dos filhos para seus pais" tanto um sentido literal (a paz dentro das famílias) quanto um sentido alegórico, aplicado por Rabi Shimon aos sábios ("pais") e seus discípulos ("filhos"): que não haja mais discórdia de opinião entre gerações de estudiosos da Torá.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Eduyot 8:7
לֹא נִשְׁמַע מִמֹּשֶׁה רַבֵּנוּ עָלָיו הַשָּׁלוֹם זֶה הַלָּשׁוֹן, אֲבָל שָׁמַע מִמֶּנּוּ זֶה הָעִנְיָן... וְהוֹדַע לָהֶם גַּם כֵּן שֶׁהָאִישׁ הַהוּא לֹא יוֹסִיף וְלֹא יִגְרַע בַּתּוֹרָה, אֶלָּא יְסַלֵּק וְיָסִיר הַחֲמָסִים בִּלְבָד... וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, אֵין הָעֹשֶׁק בַּיּוֹחֲסִין, כָּל הַנִּקְרָא בִּשְׁמוֹ הַכֹּל יִתְיַחֲסוּ אֶל הָאֱמֶת וְהַתּוֹרָה שֶׁהִיא אָב הַכֹּל, אֲבָל הַהִתְעַסְּקוּת וְהָרָעוֹת הֵן הַשִּׂנְאוֹת שֶׁבֵּין בְּנֵי אָדָם... וְהוּא אָמְרָם לַעֲשׂוֹת שָׁלוֹם בָּעוֹלָם.

Rambam explica que Moisés, a paz esteja sobre ele, não ouviu literalmente esta formulação exata, mas ouviu de D'us este conteúdo essencial: pois Moisés já havia relatado, na Torá, a vinda futura do Messias — no versículo "ainda que teu desterrado esteja no extremo dos céus...", "e o Eterno teu D'us fará voltar teus cativos...", "e o Eterno teu D'us circuncidará..." e outras passagens — e lhe foi comunicado, também da boca do Todo-Poderoso, que antecederá o Messias um homem que endireitará o caminho para ele, e esse homem é Eliyahu. E foi-lhes informado que esse homem não acrescentará nem diminuirá da Torá, mas apenas removerá as injustiças (chamassim) — e nisso não há disputa nem contestação entre os sábios da mishná; a disputa recai apenas sobre quais males ele removerá. Rabban Yochanan ben Zakai entende que os males a remover são: afastar quem foi tornado apto por linhagem através de coação, e aproximar quem foi indevidamente afastado da comunidade sacerdotal ou israelita por coação — e ele exemplifica com duas famílias, uma apta e outra desqualificada, sobre as quais os "filhos de Tzion" (homens poderosos) prevaleceram e inverteram os status por abuso de força. E repare como os Sábios se afastam da maledicência: embora ambas as famílias fossem conhecidas por eles, mencionaram nominalmente apenas a família injustiçada (a apta que foi indevidamente afastada), e não identificaram pelo nome a família desqualificada que foi indevidamente aproximada pela força — dizendo apenas "havia outra ali" — para te ensinar quanto cuidado se deve ter em não relatar o desprestígio de outrem, e em cobrir a vergonha alheia. Rabi Yehuda diz que a coação só se aplica para afastar o apto (e não para aproximar o desqualificado). E os Sábios dizem que não há coação em matéria de linhagem — todo aquele que é chamado por seu nome de família se vincula, no fim, à verdade e à Torá, que é a origem de todos — mas a disputa e os males são apenas os ódios entre as pessoas, gratuitos por natureza, e a violência nasce desse ódio; e é a isso que se referem ao dizer "fazer paz no mundo".

Bartenura · Eduyot 8:7
הֲלָכָה לְמֹשֶׁה מִסִּינַי. שֶׁהֶרְאָה לוֹ הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא לְמֹשֶׁה בְּסִינַי דּוֹר דּוֹר וְדוֹרְשָׁיו... דַּהֲלָכָה הִיא מִשְׁפָּחָה שֶׁנִּטְמְעָה נִטְמְעָה. וְקֵרְבָהּ בֶּן צִיּוֹן בִּזְרוֹעַ. וְחָס הַתַּנָּא עַל כְּבוֹד הַבְּרִיּוֹת וְלֹא הִזְכִּיר שֵׁם הַמִּשְׁפָּחָה הַפְּסוּלָה... לְלַמֶּדְךָ כַּמָּה צָרִיךְ אָדָם לִזָּהֵר שֶׁלֹּא לְסַפֵּר בִּגְנוּת חֲבֵרוֹ. שֶׁנֶּאֱמַר וְהֵשִׁיב לֵב אָבוֹת עַל בָּנִים. וּלְדִבְרֵי רַבִּי שִׁמְעוֹן, אָבוֹת אֵלּוּ הַחֲכָמִים, וּבָנִים אֵלּוּ הַתַּלְמִידִים, שֶׁיִּהְיֶה לֵב כֻּלָּן שָׁוֶה וְלֹא יִפֹּל בֵּינֵיהֶן מַחֲלֹקֶת.

Bartenura explica que "halachá dada a Moisés no Sinai" significa que o Santo, bendito seja, mostrou a Moisés, no Sinai, geração por geração e seus intérpretes, e lhe mostrou que Eliyahu não virá para contaminar nem purificar, para afastar nem aproximar — isto é, para esclarecer a dúvida das famílias assimiladas, quem se misturou e quem não —, mas as deixará como estão, aptas para o futuro, pois a halachá é: "família que se assimilou, assimilada permanece". "Mas para afastar os aproximados pela força": aqueles que todos sabem serem desqualificados, mas que foram aproximados pela força; já uma família que se assimilou por não se saber sua desqualificação, ele a deixará em sua condição de aptidão. "Beit Tzerifa" é o nome da família; "e a afastou" significa que declarou publicamente que eram desqualificados; "Ben Tzion" era um homem violento e poderoso. "E havia outra família ali" — que era desqualificada — "e Ben Tzion a aproximou pela força", declarando-a publicamente apta para casamento. E o taná teve consideração pela honra das pessoas, e não mencionou o nome da família desqualificada que Ben Tzion aproximou pela força, como mencionou o nome da família apta — para te ensinar o quanto o homem deve se cuidar de não falar mal do próximo, e de cobrir a vergonha alheia: se assim é quanto aos desqualificados, quanto mais quanto aos aptos. "Para aproximar, mas não para afastar": a família apta que foi afastada pela força, ele a aproxima; mas não afasta a que foi aproximada pela força. "Como está dito, e ele fará voltar o coração dos pais para os filhos" — pois no futuro dirá, por espírito profético, "este é dos filhos de fulano"; e, segundo Rabi Shimon, "pais" são os sábios, e "filhos" são os discípulos, para que o coração de todos seja igual, e não caia entre eles disputa.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Eduyot não possui Guemará no Talmud Bavli — é um tratado composto majoritariamente de testemunhos (edviot) de sábios transmitidos e preservados tal como ensinados, sem o desenvolvimento amoraico posterior que caracteriza a maioria dos tratados de Nezikin. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado — inclusive nesta mishná final, uma das mais citadas e comentadas de toda a literatura rabínica posterior, apesar da ausência de Guemará formal sobre ela.

Encerramento do tratado · סִיּוּם הַמַּסֶּכֶת

הֲדַרָן עֲלָךְ מְשׁוּם רַבִּי, וּסְלִיקָא לַהּ מַסֶּכֶת עֵדֻיּוֹת

Com esta sétima mishná do Perek Chet, encerra-se o Perek "מִשּׁוּם רַבִּי" — e com ele, toda a Massechet Eduyot. A fórmula tradicional de encerramento, "hadran alach" ("voltaremos a ti"), expressa o compromisso de retornar ao estudo deste tratado mesmo depois de concluído, seguida da declaração "vessalika lah massechet Eduyot", "e assim se encerra o tratado Eduyot".

Ao longo de seus oito perakim e setenta e quatro mishnayot, Eduyot percorreu um território único entre os tratados da Mishná: não uma exposição sistemática de um tema, mas uma coletânea deliberada de testemunhos (edviot) — relatos preservados de sábios que atestaram halachot recebidas de gerações anteriores, muitas vezes contra a opinião predominante de sua própria época. Da abertura, no Perek Alef, com a pergunta metodológica sobre por que se registra por escrito a opinião do indivíduo rejeitada pela maioria — e a resposta de que um tribunal futuro, maior em sabedoria e em número, pode legitimamente apoiar-se nela —, o tratado percorreu disputas técnicas de pureza entre Beit Shamai e Beit Hilel (Perakim Alef, Dalet e Hei), testemunhos avulsos de sábios individuais sobre sacrifícios, impurezas e calendário (Perakim Bet, Guimel e Zayin), o breve mas denso Perek Vav sobre a impureza de membros separados do corpo, e o caso célebre de Akavia ben Mahalalel, que preferiu ser chamado tolo a se retratar por ambição (Perek Hei). E chegou, neste último capítulo, a testemunhos finais sobre pureza de vasos, alimentos e líquidos do Templo — para culminar na mishná mais citada e mais amada de todo o tratado: a vinda de Eliyahu HaNavi não para decidir disputas de linhagem por autoridade profética, mas para "fazer paz no mundo", reconciliando o coração dos pais com os filhos, e dos filhos com os pais. É um encerramento notável para um tratado dedicado, do início ao fim, a preservar desacordos: depois de tantos testemunhos técnicos sobre o que separa o puro do impuro, o apto do desqualificado, o aceito do rejeitado, a última palavra do tratado é sobre a reconciliação que supera toda separação.

Com a conclusão de Massechet Eduyot, completa-se o sétimo tratado da Seder Nezikin — depois de Bava Kamma, Bava Metzia, Bava Batra, Sanhedrin, Makot e Shevuot —, a quarta das seis Ordens da Mishná. Segue-se agora o estudo do próximo tratado da Ordem Nezikin, Massechet Avodá Zará.