Seder Nezikin · Massechet Eduyot · Perek Vav · Mishná 2 de 3

Um membro do morto

עַל אֵבֶר מִן הַמֵּת שֶׁהוּא טָמֵא
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Novo testemunho: Rabi Yehoshua e Rabi Nechunia ben Elinatan sobre a impureza de um membro separado de um cadáver, e a objeção de Rabi Eliezer

Testemunharam Rabi Yehoshua e Rabi Nechunia ben Elinatan, homem de Kefar HaBavli, sobre um membro separado do morto, que é impuro; e Rabi Eliezer diz: não disseram isso senão sobre um membro separado do vivo. Disseram-lhe: e não há aqui um raciocínio a fortiori (kal vachomer)? E se do vivo, que é puro, um membro que dele se separa é impuro, o morto, que é impuro, não seria lógico que um membro que dele se separa seja impuro? Disse-lhes: não disseram isso senão sobre um membro separado do vivo. Outra resposta: é maior a impureza dos vivos que a impureza dos mortos, pois o vivo faz leito e assento debaixo de si, para tornar impuros o homem e as vestes, e sobre ele há impureza de midaf, para tornar impuros os alimentos e as bebidas — o que o morto não torna impuro.A segunda mishná do perek traz um novo testemunho, agora com dois transmissores — Rabi Yehoshua e Rabi Nechunia ben Elinatan — sobre uma questão de pureza ritual: se um membro separado de um cadáver humano transmite impureza como o próprio morto. Rabi Eliezer contesta, restringindo essa regra apenas ao membro separado de uma pessoa viva. A objeção dos colegas é elegante: um raciocínio a fortiori parece exigir o oposto — se mesmo o vivo, que em si é puro, transmite impureza através de um membro separado, quanto mais o morto, que já é fonte de impureza, deveria fazê-lo através de um membro seu! Rabi Eliezer não recua diante do raciocínio lógico, mas responde com uma distinção qualitativa: a impureza do vivo, paradoxalmente, é em certos aspectos mais abrangente que a do morto, pois o vivo (tratando-se do zav, o que sofre fluxo) gera impurezas de leito e assento que tornam impuros pessoas e vestes, além da impureza mais leve chamada "midaf" sobre os objetos colocados sobre ele — capacidades que o próprio cadáver não possui. Por isso, não se pode inferir automaticamente do vivo para o morto.

הֵעִיד רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ וְרַבִּי נְחוּנְיָא בֶּן אֱלִינָתָן אִישׁ כְּפַר הַבַּבְלִי, עַל אֵבֶר מִן הַמֵּת שֶׁהוּא טָמֵא, שֶׁרַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, לֹא אָמְרוּ אֶלָּא עַל אֵבֶר מִן הַחַי. אָמְרוּ לוֹ, וַהֲלֹא קַל וָחֹמֶר. וּמַה מִן הַחַי שֶׁהוּא טָהוֹר, אֵבֶר הַפּוֹרֵשׁ מִמֶּנּוּ טָמֵא, הַמֵּת שֶׁהוּא טָמֵא, אֵינוֹ דִין שֶׁיִּהְיֶה אֵבֶר הַפּוֹרֵשׁ מִמֶּנּוּ טָמֵא. אָמַר לָהֶם, לֹא אָמְרוּ אֶלָּא עַל אֵבֶר מִן הַחַי. דָּבָר אַחֵר, מְרֻבָּה טֻמְאַת הַחַיִּים מִטֻּמְאַת הַמֵּתִים, שֶׁהַחַי עוֹשֶׂה מִשְׁכָּב וּמוֹשָׁב מִתַּחְתָּיו, לְטַמֵּא אָדָם וּלְטַמֵּא בְגָדִים, וְעַל גַּבָּיו מַדָּף לְטַמֵּא אֳכָלִים וּמַשְׁקִין, מַה שֶּׁאֵין הַמֵּת מְטַמֵּא:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Eduyot 6:2
כבר ידעת שהמקראות הכתובי' בתורה בזב שהוא מטמא משכב ומושב ומשכב הזב ומושבו יטמא אדם ויטמא בגדים...

Rambam explica detalhadamente a base desta impureza: os versículos da Torá a respeito do zav (o que sofre fluxo) ensinam que seu leito e seu assento tornam impuros o homem e as vestes de quem os toca. Mas tudo o que estiver sobre o zav — vestes e utensílios — mesmo separado dele por múltiplas camadas, torna os alimentos e as bebidas impuros apenas com uma impureza leve, chamada "midaf" (contato indireto), como "folha levada pelo vento" — e essa impureza não atinge pessoas nem vestes, apenas comida e bebida. Se dispuséssemos cem vestes umas sobre as outras e o zav se sentasse sobre a de cima, todas as cem se tornariam impuras por leito; mas se pusessem o morto sobre cem vestes, apenas três ficariam impuras — a que o tocou diretamente e as duas seguintes, por contato sucessivo — e nada além disso, pois o morto não transmite impureza por via de leito como o zav, apenas por contato. Do mesmo modo, se lançássemos sobre o zav cem coberturas, a superior ficaria impura por midaf, afetando alimentos e bebidas — o que não ocorre com o morto além das três camadas mencionadas. É a partir desse princípio que Rabi Eliezer argumenta que a impureza dos vivos é, nesse sentido, maior que a dos mortos — mas Rambam ressalva que a disputa não envolve um membro do tamanho de uma azeitona, que todos concordam ser impuro como o próprio morto; refere-se apenas a um membro pequeno, pois membros, em princípio, não têm medida fixa. E a lei não segue Rabi Eliezer.

Bartenura · Eduyot 6:2
עַל אֵבֶר מִן הַמֵּת. שֶׁאֵין בּוֹ כַּזַּיִת. דְּכַזַּיִת מִן הַמֵּת לְעוֹלָם מְטַמֵּא לְדִבְרֵי הַכֹּל כַּמֵּת עַצְמוֹ...

Bartenura precisa o objeto da disputa: trata-se de um membro que não tem nele o volume de uma azeitona de carne — pois um volume de azeitona proveniente do morto sempre torna impuro, segundo todos, como o próprio morto; a controvérsia se limita a um membro pequeno, sem esse volume. Explica ainda o raciocínio de Rabi Eliezer: seria lógico que o membro do vivo tornasse impuro em qualquer quantidade, mesmo sem o volume mínimo exigido do morto, pois a impureza dos vivos é maior que a dos mortos — o zav (vivo) faz leito e assento sob todos os utensílios que estão debaixo dele, tornando impuros o homem e as vestes, como está escrito na Torá; e sobre ele, todos os utensílios, ainda que muitos, ficam impuros com a impureza leve de midaf, atingindo alimentos e bebidas — e o termo "midaf" evoca tanto o som de uma folha levada pelo vento quanto o odor que se espalha à distância. O morto, por sua vez, não torna impuros os utensílios sob ou sobre ele além do terceiro grau de contato, e não pela via de leito e assento.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Eduyot não possui Guemará no Talmud Bavli — é um tratado composto majoritariamente de testemunhos (edviot) de sábios transmitidos e preservados tal como ensinados, sem o desenvolvimento amoraico posterior que caracteriza a maioria dos tratados de Nezikin. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.