Seder Nezikin · Massechet Eduyot · Perek Bet · Mishná 10 de 10

As cinco coisas que duram doze meses

חֲמִשָּׁה דְבָרִים שֶׁל שְׁנֵים עָשָׂר חֹדֶשׁ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O julgamento do dilúvio, de Jó, do Egito, de Gog e Magog, e dos ímpios na Gehinom

Também costumava dizer: cinco coisas duram doze meses. O julgamento da geração do dilúvio [durou] doze meses; o julgamento de Jó, doze meses; o julgamento dos egípcios, doze meses; o julgamento de Gog e Magog no futuro por vir [durará] doze meses; o julgamento dos ímpios na Gehinom [dura] doze meses, pois está dito (Isaías 66): "e será, de mês em mês". Rabi Yochanan ben Nuri diz: [dura tanto] quanto de Pessach até Shavuot, pois está dito: "e de sábado em sábado".A última mishná do capítulo — e a última coisa que Rabi Akiva "costumava dizer" — reúne cinco julgamentos que, segundo a tradição, tiveram ou terão duração de exatamente doze meses: o julgamento da geração do dilúvio (o período entre o início das chuvas e a secagem completa da terra), o julgamento de Jó (o período de seu sofrimento), o julgamento dos egípcios (as pragas), o julgamento futuro de Gog e Magog (a guerra escatológica final) e — o mais relevante halachicamente — o julgamento dos ímpios na Gehinom, cuja duração máxima de doze meses passou a fundamentar o costume de recitar o Kadish e observar o luto (avelut) pelos pais por esse mesmo período. Rabi Yochanan ben Nuri discorda apenas quanto à Gehinom, propondo uma duração menor — equivalente ao período entre Pessach e Shavuot (sete semanas, quarenta e nove dias) — com base numa leitura diferente do mesmo versículo de Isaías, que menciona tanto "mês" quanto "sábado".

אַף הוּא הָיָה אוֹמֵר, חֲמִשָּׁה דְבָרִים שֶׁל שְׁנֵים עָשָׂר חֹדֶשׁ. מִשְׁפַּט דּוֹר הַמַּבּוּל, שְׁנֵים עָשָׂר חֹדֶשׁ. מִשְׁפַּט אִיּוֹב, שְׁנֵים עָשָׂר חֹדֶשׁ. מִשְׁפַּט הַמִּצְרִיִּים, שְׁנֵים עָשָׂר חֹדֶשׁ. מִשְׁפַּט גּוֹג וּמָגוֹג לֶעָתִיד לָבֹא, שְׁנֵים עָשָׂר חֹדֶשׁ. מִשְׁפַּט רְשָׁעִים בְּגֵיהִנֹּם, שְׁנֵים עָשָׂר חֹדֶשׁ, שֶׁנֶּאֱמַר (ישעיה סו), וְהָיָה מִדֵּי חֹדֶשׁ בְּחָדְשׁוֹ. רַבִּי יוֹחָנָן בֶּן נוּרִי אוֹמֵר, מִן הַפֶּסַח וְעַד הָעֲצֶרֶת, שֶׁנֶּאֱמַר וּמִדֵּי שַׁבָּת בְּשַׁבַּתּוֹ:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Isaías 66:23
וְהָיָה מִדֵּי חֹדֶשׁ בְּחָדְשׁוֹ וּמִדֵּי שַׁבָּת בְּשַׁבַּתּוֹ יָבוֹא כָל בָּשָׂר לְהִשְׁתַּחֲוֺת לְפָנַי אָמַר יְהוָה
"E será que, de mês em mês, e de sábado em sábado, virá toda carne para prostrar-se diante de Mim, diz o Eterno." (Isaías 66:23)
Nota: A mishná lê a primeira metade do versículo — "de mês em mês" — como referência ao limite máximo de doze meses (o número de vezes que um "mês" se repete até completar um ano) que o ímpio permanece na Gehinom antes de "vir prostrar-se", isto é, ser libertado. Rabi Yochanan ben Nuri lê a segunda metade — "de sábado em sábado" — como referência ao período entre o primeiro dia de Pessach (chamado "shabat" em Vayikrá 23:15, base da contagem do Ômer) e Shavuot, um período de sete semanas.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Eduyot 2:10
רְצוֹנוֹ לוֹמַר הַשַּׁבָּתוֹת הָרְצוּפוֹת, אוֹתָם שֶׁהָיוּ שַׁבָּתוֹת בְּיִחוּסָם קְצָתָם לִקְצָתָם...

Rambam explica que Rabi Yochanan ben Nuri se refere aos "sábados" contados em sequência, relacionados uns aos outros — conforme o versículo "e contareis para vós, a partir do dia seguinte ao sábado" (Vayikrá 23), que chama o primeiro dia de Pessach de "sábado", e ordena contar depois dele sete semanas ["sábados"] a ele relacionadas — totalizando quarenta e nove dias, como há entre Pessach e Shavuot [Atzeret].

Rambam observa, a propósito desta mishná — e de muitas outras leis trazidas neste tratado sem conterem propriamente um "testemunho" — que tudo o que aparece em Massechet Eduyot são leis que os sábios discutiram, testemunharam e decidiram todas num único dia, numa mesma assembleia: o dia em que instalaram Rabi Elazar ben Azaryá na presidência da academia — como se diz "neste mesmo dia" (bo bayom) as estabeleceram. Por isso, sempre que a mishná diz "neste mesmo dia", refere-se àquele dia; e por essa razão encontram-se neste tratado leis de assuntos os mais diversos, reunidas apenas por terem sido tratadas naquela mesma sessão.

Bartenura · Eduyot 2:10
שֶׁנֶּאֱמַר וְהָיָה מִדֵּי חֹדֶשׁ בְּחׇדְשׁוֹ. כְּשֶׁיָּבֹא חֹדֶשׁ בְּאוֹתוֹ הַחֹדֶשׁ שֶׁמֵּת בּוֹ...

"Pois está dito: 'e será, de mês em mês'": quando chegar o mês correspondente àquele em que morreu [o ímpio], ele sairá da Gehinom e virá prostrar-se diante do Eterno — isto é, ao cabo de doze meses.

"Pois está dito: 'e de sábado em sábado'": isto é, depois de permanecer na Gehinom tantos dias quantos há desde o primeiro dia de Pessach — que é chamado "sábado", conforme está escrito (Vayikrá 23) "e contareis para vós, a partir do dia seguinte ao sábado..." — até Shavuot [Atzeret], que é o dia seguinte ao sétimo "sábado", ele sairá da Gehinom e virá prostrar-se.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Eduyot não possui Guemará no Talmud Bavli — é um tratado composto majoritariamente de testemunhos (edviot) de sábios transmitidos e preservados tal como ensinados, sem o desenvolvimento amoraico posterior que caracteriza a maioria dos tratados de Nezikin. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.