Seder Kodashim · Massechet Chulin · Perek Chet · Mishná 6 de 6

Mais severo no sebo, mais severo no sangue

חֹמֶר בַּחֵלֶב מִבַּדָּם, וְחֹמֶר בַּדָּם מִבַּחֵלֶב
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

As três severidades exclusivas do sebo: meilá, pigul e notar, e impureza

Há mais severidade no sebo do que no sangue, e há mais severidade no sangue do que no sebo. Mais severidade no sebo: que no sebo há meilá, e são culpados por causa dele por pigul, notar e impuro — o que não é assim quanto ao sangue.

— A mishná fecha o Perek Chet, e com ele toda a seção do tratado dedicada às proporções de bassar bechaláv, comparando duas outras substâncias proibidas pela Torá e ambas puniveis com caret: o chelev (sebo consagrado a Deus, proibido para consumo em qualquer animal puro) e o dam (sangue). Embora ambos compartilhem a punição mais grave, cada um tem âmbitos de severidade próprios, e nenhum é simplesmente “mais severo” que o outro em todos os aspectos. Três severidades são exclusivas do sebo: primeiro, sendo o sebo de um sacrifício destinado ao altar, quem dele se beneficia incorre em meilá (uso indevido de bem consagrado); segundo, se o sebo vem de um sacrifício abatido com intenção inválida quanto ao tempo de consumo, ou consumido após o prazo permitido, aplicam-se as punições de pigul e notar; terceiro, se alguém impuro o consome, incorre também na punição por comer coisa sagrada em estado de impureza. Nenhuma dessas três categorias se aplica ao sangue, que é destinado apenas à aspergão no altar como meio de expiação, e não entra nas mesmas categorias legais que regem o consumo indevido de coisas sagradas.

חֹמֶר בַּחֵלֶב מִבַּדָּם, וְחֹמֶר בַּדָּם מִבַּחֵלֶב. חֹמֶר בַּחֵלֶב, שֶׁהַחֵלֶב מוֹעֲלִין בּוֹ, וְחַיָּבִין עָלָיו מִשּׁוּם פִּגּוּל וְנוֹתָר וְטָמֵא, מַה שֶּׁאֵין כֵּן בַּדָּם.
A severidade exclusiva do sangue: vige em todo animal, puro ou impuro

E mais severidade no sangue: que o sangue vige na behemá, na chayá e na ave, tanto impuros quanto puros, e o sebo não vige senão na behemá pura somente.

— Em contrapartida, o sangue tem uma abrangência muito maior que o sebo: a proibição de comer sangue vige em toda espécie animal — behemá doméstica, chayá selvagem e ave —, tanto nas espécies puras quanto nas impuras. Ou seja, mesmo o sangue de um animal já proibido para consumo por ser impuro carrega sua própria proibição adicional de sangue. Já a proibição de chelev vige exclusivamente na behemá pura, pois apenas os animais domésticos puros podem ser trazidos como sacrifício ao altar, e é exatamente esse sebo consagrado — as partes internas destinadas a subir ao altar — que a Torá probe para consumo humano. Na chayá, na ave e nos animais impuros, não existe essa categoria de sebo proibido: seu sebo é permitido para consumo, pois nunca teve destino sacrificial. Com essa última comparação, o Perek Chet encerra o tratamento das leis de carne e leite, sebo e sangue, três das proibições alimentares mais fundamentais da Torá.

וְחֹמֶר בַּדָּם, שֶׁהַדָּם נוֹהֵג בִּבְהֵמָה וְחַיָּה וָעוֹף, בֵּין טְמֵאִים וּבֵין טְהוֹרִים, וְחֵלֶב אֵינוֹ נוֹהֵג אֶלָּא בִּבְהֵמָה טְהוֹרָה בִלְבָד.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Chulin 8:6
חומר בחלב מבדם וחומר בדם מבחלב חומר כו': כל חלב לה' אמרו לרבות אימורי קדשים למעילה רוצה לומר למי שנהנה בהן בשוה פרוטה מעל כמו שנתבאר במעילה וכן אם היה אותו החלב נותר חייבים עליו משום נותר וכן אם אכל אותו אדם טמא חייבים עליו משום טמא וכן אם נתפגל הזבח כמו שנתבאר בשני מזבחים מי שאכל מחלבו חייב ודם קדשים נאמר בו ואני נתתיו לכם על המזבח לכפר לכפרה נתתיו ולא למעילה וא"א שיהיה דם קדשים פיגול לפי שהוא בעצמו מתיר ואין מי שיתירנו כמו שנתבאר ברביעי מזבחים:

Rambam explica a fonte da meilá no sebo: a Torá diz, sobre os sacrifícios de paz, “todo sebo é do Senhor”, e dessa expressão os sábios derivam que os órgãos destinados a subir ao altar estão incluídos na proibição de meilá — ou seja, quem deles se beneficia no valor de uma perutá (a menor moeda) incorre em meilá, como se explica no tratado de Meilá. Da mesma forma, se esse sebo permanecer além do prazo de consumo, torna-se notar, e quem o come é culpado por essa razão; e se alguém impuro o come, é culpado por comer coisa sagrada em impureza; e se o sacrifício se tornou pigul — como se explica no segundo capítulo de Zevachim —, quem come de seu sebo também é culpado. Já sobre o sangue dos sacrifícios, a Torá diz “e eu o dei a vós sobre o altar para expiar” — ele foi dado exclusivamente para a expiação, não para meilá; e é impossível que o sangue dos sacrifícios se torne pigul, pois ele mesmo é o que permite o consumo do restante, e não há nada que o permita a ele, como se explica no quarto capítulo de Zevachim.

Bartenura · Chulin 8:6
שֶׁהַחֵלֶב מוֹעֲלִין בּוֹ. וַאֲפִלּוּ קָדָשִׁים קַלִּים שֶׁהֵן מָמוֹן בְּעָלִים וְאֵין בָּהֶן מְעִילָה בְּחַיֵּיהֶן, יֵשׁ מְעִילָה בְּאֵמוּרֵיהֶן לְאַחַר שֶׁנִּזְרַק דָּמָן. דִּכְתִיב גַּבֵּי קָדָשִׁים קַלִּים כָּל חֵלֶב לַה', וּלְהָכִי כְּתִיב בְּהוּ לַה', לְמֵימַר דְּקָדְשֵׁי ה' קָרִינַן בֵּיהּ לְעִנְיַן מְעִילָה:
וְטָמֵא. אִם אֲכָלוֹ בְּטֻמְאַת הַגּוּף חַיָּב שְׁתֵּי חַטָּאוֹת, אַחַת מִשּׁוּם חֵלֶב וְאַחַת מִשּׁוּם טֻמְאַת הַגּוּף:
מַה שֶּׁאֵין כֵּן בַּדָּם. דְּגַבֵּי דָּם כְּתִיב עַל הַמִּזְבֵּחַ לְכַפֵּר, לְכַפָּרָה נְתַתִּיו וְלֹא שֶׁיְּהֵא קָרוּי שֶׁלִּי לִמְעֹל בּוֹ, שֶׁאֵינוֹ עוֹמֵד אֶלָּא לְכַפֵּר בִּשְׁבִילְכֶם. וּמִשּׁוּם פִּגּוּל אֵין בּוֹ, דְּכָל שֶׁדָּבָר אַחֵר מַתִּיר אוֹתוֹ יֵשׁ בָּהֶן מִשּׁוּם פִּגּוּל, אֲבָל דָּם דְּהוּא גּוּפֵיהּ מַתִּיר הוּא אֵין חַיָּבִין עָלָיו מִשּׁוּם פִּגּוּל. וּמִשּׁוּם נוֹתָר וְטָמֵא נַמִּי אֵין בּוֹ, דִּכְתִיב בַּדָּם תְּרֵי מִעוּטֵי, הוּא וְלָכֶם, חַד לְמִעוּטֵי מִנּוֹתָר וְחַד לְמִעוּטֵי מִטֻּמְאָה:
אֶלָּא בִּבְהֵמָה טְהוֹרָה. כְּדִכְתִיב מִן הַבְּהֵמָה אֲשֶׁר יַקְרִיב מִמֶּנָּה:

Bartenura detalha cada uma das severidades do sebo: quanto à meilá, esclarece que ela se aplica até aos sacrifícios de menor santidade — que pertencem ao dono e não têm meilá enquanto vivos —, mas, uma vez aspergido o sangue, os órgãos destinados ao altar já ficam sujeitos à meilá, porque a Torá os chama “do Senhor”. Quanto à impureza, precisa que quem come o sebo em estado de impureza corporal é culpado por duas ofertas de purificação distintas — uma pelo sebo, outra pela impureza. E explica por que essas categorias não se aplicam ao sangue: a Torá diz que ele foi dado “sobre o altar para expiar” — destinado exclusivamente à expiação, e não chamado propriamente “meu” para efeito de meilá; não há pigul no sangue porque ele mesmo é o que permite o restante do sacrifício, e só incorre em pigul aquilo que depende de outro elemento para ser permitido; e a própria Torá exclui expressamente o sangue de notar e de impureza por meio de duas expressões distintas no texto. Por fim, esclarece que a restrição do sebo à behemá pura decorre do versículo que fala do sebo “do animal que se traz como oferenda”.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Chulin 117a:1, sobre a Guemará desta mishná
מתני' מועלין בו - אם קרבן הוא דהא קדשי ה' הן ואינם לכהנים והדם אין מועלין בו כדיליף בגמרא: וטמא - אם אכלו בטומאת הגוף חייב שתי חטאות אחת משום חלב ואחת משום טומאת הגוף שהיא בכרת: משא"כ בדם - מפרש בגמרא:

Rashi explica que há meilá no sebo quando se trata de um sacrifício, pois esses órgãos são “coisas sagradas do Senhor” e não pertencem aos sacerdotes, enquanto no sangue não há meilá, como se deduz na Guemará. E explica que quem come o sebo em estado de impureza corporal é culpado por duas ofertas de purificação — uma por causa do sebo, outra por causa da impureza corporal, que em si carrega punição de caret —, deixando a explicação de por que isso não se aplica ao sangue para o desenvolvimento posterior da Guemará.