Toda carne é proibida cozinhar em leite, exceto a carne de peixes e gafanhotos. E é proibido levá-la à mesa junto com o queijo, exceto a carne de peixes e gafanhotos. Quem faz voto afastando-se da carne, é-lhe permitida a carne de peixes e gafanhotos.
— A mishná abre o Perek Chet fixando o âmbito da proibição de bassar bechaláv (carne em leite), que a Torá formula três vezes como “não cozinharás o cabrito no leite de sua mãe”. Toda carne de animal ou ave está sob essa proibição — seja ela de origem bíblica, no caso da behemá, seja de origem rabiníca, no caso da ave, como a própria mishná esclarecerá adiante. Excluem-se apenas o peixe e o gafanhoto, cuja carne não tem, para a lei, o estatuto de “carne” propriamente dita. Sobre essa proibição de cozinhar, os sábios erigiram uma cerca adicional: também é proibido simplesmente levar carne e queijo à mesma mesa, ainda sem cozinhá-los juntos, por receio de que, estando lado a lado, alguém venha a comer um pouco de cada um misturados. E a mishná fecha com uma questão de linguagem comum: quem faz um voto proibindo-se de comer “carne” segue, nos votos, a linguagem corrente das pessoas — e como ninguém chama peixe ou gafanhoto de “carne” no uso cotidiano, esse voto não os alcança, permanecendo ambos permitidos a quem fez o voto.
A ave sobe com o queijo à mesa e não é comida — palavras de Beit Shamai. E Beit Hilel dizem: não sobe e não é comida. Disse Rabi Yosei: esta é uma das leniências de Beit Shamai e das severidades de Beit Hilel.
— Aqui a mishná introduz a distinção entre a carne da behemá e a carne da ave: como se verá adiante (8:4), o versículo “não cozinharás o cabrito no leite de sua mãe” exclui, por sua própria letra, a carne de ave — que não tem “leite de mãe”. Por isso a proibição de misturar ave e leite é puramente rabiníca, uma cerca sobre outra cerca. Nesse ponto mais brando, Beit Shamai permite ao menos levar a carne de ave à mesma mesa que o queijo, embora proiba com-los juntos; Beit Hilel, mais estrito aqui, probe até essa aproximação na mesa, como já fizera o taná anônimo no início da mishná a respeito de toda carne. Rabi Yosei observa o caráter excepcional dessa disputa: costuma-se dizer que, de modo geral, Beit Shamai é mais estrito e Beit Hilel mais brando — mas aqui a relação se inverte, sendo esta uma das poucas leis em que Beit Shamai é o lado brando e Beit Hilel o lado estrito.
A respeito de qual mesa disseram? Da mesa sobre a qual se come. Mas na mesa sobre a qual se arruma o cozido, coloca-se este ao lado daquele, e não se preocupa.
— A mishná fecha limitando o alcance de toda a proibição de “levar à mesa” discutida acima: ela vige apenas na mesa de refeição, onde as pessoas efetivamente comem e onde, por isso, a mão que manuseia um alimento pode facilmente pousar também sobre o outro, levando à mistura inadvertida. Já na bancada onde apenas se organiza e prepara a comida antes de servi-la — sem que ninguém coma diretamente ali — pode-se colocar a carne ao lado do queijo sem receio algum, pois não há ali o risco prático que justificou a cerca dos sábios.
Rambam observa que, quanto ao voto que exclui “carne”, já explicou em outros lugares, a propósito das leis de votos, que o critério decisivo é sempre a linguagem corrente das pessoas. Mas registra uma nuance histórica importante: na época em que a mishná foi redigida, o uso comum era outro, e quem votava contra a “carne” ficava proibido até mesmo da carne de peixe, sendo-lhe permitida apenas a de gafanhoto — de modo que a permissão do peixe mencionada aqui pressupõe um contexto explícito indicando que o voto visava apenas a carne de quadrúpedes, como se detalha em vários exemplos análogos no sétimo capítulo de Nedarim. E esclarece que Rabi Yosei não discorda do taná anônimo: o autor da mishná quis apenas informar que a disputa de Beit Shamai e Beit Hilel citada acima é relatada precisamente nos termos de Rabi Yosei. A lei segue Beit Hilel, sendo a razão o receio do hábito adquirido na transgressão.
Bartenura distingue a proibição de cozinhar carne em leite conforme a fonte: para a carne de behemá, é de origem bíblica; para a carne de ave, apenas rabiníca, e ambas excluídas no caso de peixe e gafanhoto, cuja carne não é abrangida por nenhuma delas. Explica que a cerca contra levar carne e queijo à mesma mesa se aplica até à carne de ave, cuja proibição de comer é apenas rabiníca, precisamente por receio de que, na prática, alguém acabe colocando queijo junto com carne de behemá numa panela fervente — o que constituiria cozinhar propriamente dito, proibido pela Torá. Sobre os votos, reafirma que a linguagem cotidiana é decisiva: toda carne se chama “carne”, exceto a de peixes e gafanhotos. Esclarece que a posição de Beit Hilel não é idêntica à do taná anônimo, pois se tratasse do mesmo autor sem nomear a disputa, a mishná não citaria Beit Shamai depois de Beit Hilel já posicionado. E explica que Rabi Yosei, ao mencionar seu próprio nome apenas ao final, estava revelando que toda a disputa anterior já era, desde o início, a sua própria posição, apenas esquecida de ser atribuída antes. Por fim, explica por que a proibição vige somente na mesa de comer: é porque, sendo ali que a mão manuseia os alimentos repetidamente, corre-se o risco real de pousar um sobre o outro.
Rashi explica que, embora a Torá fale apenas de “cabrito”, o mesmo se aplica à chayá e à ave — mas os amoraím divergem adiante (Chulin 113a) se, quanto a estas, a proibição é bíblica ou apenas rabiníca. E explica a razão da cerca contra levá-los à mesma mesa: para que não se venha a comê-los juntos, já que ao tocarem-se absorvem sabor um do outro — isto mesmo sendo permitido, como se diz na Guemará, comer carne depois do queijo.
Rashi esclarece que “não é comida” significa não comida junto com o queijo, e observa que a Guemará pergunta se a posição de Rabi Yosei não seria, afinal, a mesma do taná anônimo. E explica a razão de restringir a proibição à mesa de comer: é porque, sendo essa a mesa cuja superfície a mão toca repetidamente ao manusear os alimentos, existe o risco real de pousar um item sobre o outro.