Seder Kodashim · Massechet Chulin · Perek Chet · Mishná 1 de 6

A proibição de carne e leite: cozinhar e a mesa comum

כָּל הַבָּשָׂר אָסוּר לְבַשֵּׁל בְּחָלָב
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A proibição de cozinhar e de levar à mesa junto com o queijo; a isenção do peixe e do gafanhoto

Toda carne é proibida cozinhar em leite, exceto a carne de peixes e gafanhotos. E é proibido levá-la à mesa junto com o queijo, exceto a carne de peixes e gafanhotos. Quem faz voto afastando-se da carne, é-lhe permitida a carne de peixes e gafanhotos.

— A mishná abre o Perek Chet fixando o âmbito da proibição de bassar bechaláv (carne em leite), que a Torá formula três vezes como “não cozinharás o cabrito no leite de sua mãe”. Toda carne de animal ou ave está sob essa proibição — seja ela de origem bíblica, no caso da behemá, seja de origem rabiníca, no caso da ave, como a própria mishná esclarecerá adiante. Excluem-se apenas o peixe e o gafanhoto, cuja carne não tem, para a lei, o estatuto de “carne” propriamente dita. Sobre essa proibição de cozinhar, os sábios erigiram uma cerca adicional: também é proibido simplesmente levar carne e queijo à mesma mesa, ainda sem cozinhá-los juntos, por receio de que, estando lado a lado, alguém venha a comer um pouco de cada um misturados. E a mishná fecha com uma questão de linguagem comum: quem faz um voto proibindo-se de comer “carne” segue, nos votos, a linguagem corrente das pessoas — e como ninguém chama peixe ou gafanhoto de “carne” no uso cotidiano, esse voto não os alcança, permanecendo ambos permitidos a quem fez o voto.

כָּל הַבָּשָׂר אָסוּר לְבַשֵּׁל בְּחָלָב, חוּץ מִבְּשַׂר דָּגִים וַחֲגָבִים. וְאָסוּר לְהַעֲלוֹתוֹ עִם הַגְּבִינָה עַל הַשֻּׁלְחָן, חוּץ מִבְּשַׂר דָּגִים וַחֲגָבִים. הַנּוֹדֵר מִן הַבָּשָׂר, מֻתָּר בִּבְשַׂר דָּגִים וַחֲגָבִים.
A ave e o queijo na mesma mesa: a disputa entre Beit Shamai e Beit Hilel

A ave sobe com o queijo à mesa e não é comida — palavras de Beit Shamai. E Beit Hilel dizem: não sobe e não é comida. Disse Rabi Yosei: esta é uma das leniências de Beit Shamai e das severidades de Beit Hilel.

— Aqui a mishná introduz a distinção entre a carne da behemá e a carne da ave: como se verá adiante (8:4), o versículo “não cozinharás o cabrito no leite de sua mãe” exclui, por sua própria letra, a carne de ave — que não tem “leite de mãe”. Por isso a proibição de misturar ave e leite é puramente rabiníca, uma cerca sobre outra cerca. Nesse ponto mais brando, Beit Shamai permite ao menos levar a carne de ave à mesma mesa que o queijo, embora proiba com-los juntos; Beit Hilel, mais estrito aqui, probe até essa aproximação na mesa, como já fizera o taná anônimo no início da mishná a respeito de toda carne. Rabi Yosei observa o caráter excepcional dessa disputa: costuma-se dizer que, de modo geral, Beit Shamai é mais estrito e Beit Hilel mais brando — mas aqui a relação se inverte, sendo esta uma das poucas leis em que Beit Shamai é o lado brando e Beit Hilel o lado estrito.

הָעוֹף עוֹלֶה עִם הַגְּבִינָה עַל הַשֻּׁלְחָן וְאֵינוֹ נֶאֱכָל, דִּבְרֵי בֵית שַׁמַּאי. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, לֹא עוֹלֶה וְלֹא נֶאֱכָל. אָמַר רַבִּי יוֹסֵי, זוֹ מִקֻּלֵּי בֵית שַׁמַּאי וּמֵחֻמְרֵי בֵית הִלֵּל.
A que mesa a mishná se refere

A respeito de qual mesa disseram? Da mesa sobre a qual se come. Mas na mesa sobre a qual se arruma o cozido, coloca-se este ao lado daquele, e não se preocupa.

— A mishná fecha limitando o alcance de toda a proibição de “levar à mesa” discutida acima: ela vige apenas na mesa de refeição, onde as pessoas efetivamente comem e onde, por isso, a mão que manuseia um alimento pode facilmente pousar também sobre o outro, levando à mistura inadvertida. Já na bancada onde apenas se organiza e prepara a comida antes de servi-la — sem que ninguém coma diretamente ali — pode-se colocar a carne ao lado do queijo sem receio algum, pois não há ali o risco prático que justificou a cerca dos sábios.

בְּאֵיזֶה שֻׁלְחָן אָמְרוּ, בַּשֻּׁלְחָן שֶׁאוֹכֵל עָלָיו. אֲבָל בַּשֻּׁלְחָן שֶׁסּוֹדֵר עָלָיו אֶת הַתַּבְשִׁיל, נוֹתֵן זֶה בְצַד זֶה וְאֵינוֹ חוֹשֵׁשׁ.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Chulin 8:1
כל הבשר אסור לבשל בחלב חוץ מבשר כו': העוף עולה עם הגבינה על השלחן ואינו נאכל כו': כבר בארנו במקומות מנדרים שהעיקר שעליו סומכים בנדרים הלך אחר לשון בני אדם אבל בזמן שחברו המשנה היו עושין שהנודר מן הבשר אסור ואפילו בבשר דגים ואין מותר לו זולתי בשר חגבים ומה שאמר בכאן מותר בבשר דגים על מנת שיהא שם ענין מורה על שהוא לא נשבע אלא על בשר בעלי ארבע רגלים וכבר נתבארו דוגמות רבות בענין זה בשביעי מנדרים ור' יוסי אינו חולק על ת"ק אלא שרצה המחבר להודיענו כי מה שנזכר למעלה מחלוקת ב"ש וב"ה הוא דברי ר' יוסי והלכה כב"ה והטעם מפני הרגל עבירה:

Rambam observa que, quanto ao voto que exclui “carne”, já explicou em outros lugares, a propósito das leis de votos, que o critério decisivo é sempre a linguagem corrente das pessoas. Mas registra uma nuance histórica importante: na época em que a mishná foi redigida, o uso comum era outro, e quem votava contra a “carne” ficava proibido até mesmo da carne de peixe, sendo-lhe permitida apenas a de gafanhoto — de modo que a permissão do peixe mencionada aqui pressupõe um contexto explícito indicando que o voto visava apenas a carne de quadrúpedes, como se detalha em vários exemplos análogos no sétimo capítulo de Nedarim. E esclarece que Rabi Yosei não discorda do taná anônimo: o autor da mishná quis apenas informar que a disputa de Beit Shamai e Beit Hilel citada acima é relatada precisamente nos termos de Rabi Yosei. A lei segue Beit Hilel, sendo a razão o receio do hábito adquirido na transgressão.

Bartenura · Chulin 8:1
כָּל הַבָּשָׂר אָסוּר לְבַשֵּׁל בְּחָלָב. יֵשׁ מֵהֶן מִדִּבְרֵי תוֹרָה, כְּגוֹן בְּשַׂר בְּהֵמָה. וְיֵשׁ מֵהֶן מִדִּבְרֵי סוֹפְרִים, כְּגוֹן בְּשַׂר עוֹף:
חוּץ מִבְּשַׂר דָּגִים וַחֲגָבִים. שֶׁאֵינָן לֹא מִדִּבְרֵי תוֹרָה וְלֹא מִדִּבְרֵי סוֹפְרִים:
וְאָסוּר לְהַעֲלוֹתָן עִם הַגְּבִינָה עַל הַשֻּׁלְחָן. וַאֲפִלּוּ בְּשַׂר עוֹף דְּאִסּוּר אֲכִילָתוֹ מִדִּבְרֵי סוֹפְרִים אָסוּר לְהַעֲלוֹתוֹ עִם הַגְּבִינָה עַל הַשֻּׁלְחָן. גְּזֵרָה שֶׁמָּא יַעֲלֶה גְבִינָה עִם בְּשַׂר הַבְּהֵמָה בְּאִלְפָס רוֹתֵחַ שֶׁהוּא אָסוּר מִן הַתּוֹרָה, דְּהַיְנוּ מְבַשֵּׁל:
הַנּוֹדֵר מִן הַבָּשָׂר. בִּנְדָרִים הַלֵּךְ אַחַר לְשׁוֹן בְּנֵי אָדָם, וּלְכָל מִין בָּשָׂר אָדָם קוֹרֵא בָּשָׂר, חוּץ מִבְּשַׂר דָּגִים וַחֲגָבִים:
וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים לֹא עוֹלֶה וְלֹא נֶאֱכָל. וְאֵין לְהַקְשׁוֹת בֵּית הִלֵּל הַיְנוּ תַּנָּא קַמָּא דְּאָמַר לְעֵיל וְאָסוּר לְהַעֲלוֹתָן עִם הַגְּבִינָה עַל הַשֻּׁלְחָן, דְּיֵשׁ לוֹמַר דְּהָכִי קָאָמַר, דָּבָר זֶה מַחֲלֹקֶת בֵּית שַׁמַּאי וּבֵית הִלֵּל. וְאֵין זֶה סְתָם וְאַחַר כָּךְ מַחֲלֹקֶת, דְּבֵית שַׁמַּאי בִּמְקוֹם בֵּית הִלֵּל אֵינָהּ מִשְׁנָה:
אָמַר רַבִּי יוֹסֵי כוּ'. הָא קָמַשְׁמַע לָן דְּתַנָּא קַמָּא רַבִּי יוֹסֵי הִיא. וּמִפְּנֵי שֶׁשָּׁכַח וְלֹא הִזְכִּיר שְׁמוֹ בַּתְּחִלָּה, הִזְכִּיר שְׁמוֹ בַּסּוֹף:
בַּשֻּׁלְחָן שֶׁאוֹכֵל עָלָיו. דְּאַיְדֵי דְמִמְּשַׁמְּשֵׁי בֵּיהּ יָדָא אָתֵי לְאִתְנוֹחֵי זֶה עַל גַּב זֶה:

Bartenura distingue a proibição de cozinhar carne em leite conforme a fonte: para a carne de behemá, é de origem bíblica; para a carne de ave, apenas rabiníca, e ambas excluídas no caso de peixe e gafanhoto, cuja carne não é abrangida por nenhuma delas. Explica que a cerca contra levar carne e queijo à mesma mesa se aplica até à carne de ave, cuja proibição de comer é apenas rabiníca, precisamente por receio de que, na prática, alguém acabe colocando queijo junto com carne de behemá numa panela fervente — o que constituiria cozinhar propriamente dito, proibido pela Torá. Sobre os votos, reafirma que a linguagem cotidiana é decisiva: toda carne se chama “carne”, exceto a de peixes e gafanhotos. Esclarece que a posição de Beit Hilel não é idêntica à do taná anônimo, pois se tratasse do mesmo autor sem nomear a disputa, a mishná não citaria Beit Shamai depois de Beit Hilel já posicionado. E explica que Rabi Yosei, ao mencionar seu próprio nome apenas ao final, estava revelando que toda a disputa anterior já era, desde o início, a sua própria posição, apenas esquecida de ser atribuída antes. Por fim, explica por que a proibição vige somente na mesa de comer: é porque, sendo ali que a mão manuseia os alimentos repetidamente, corre-se o risco real de pousar um sobre o outro.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Chulin 103b:16, sobre a primeira cláusula desta mishná
מתני' כל הבשר אסור לבשל בחלב - דאע"ג דאמר רחמנא גדי הוא הדין לחיה ועוף ומיפלג פליגי בה לקמן (חולין דף קיג.) איכא למ"ד דאורייתא ואיכא למ"ד דרבנן: ואסור להעלות - דילמא אתי למיכלינהו כי הדדי דקא נגעי ובלעי מהדדי ואע"ג שמותר לאכול בשר אחר גבינה כדאמרינן בגמרא:

Rashi explica que, embora a Torá fale apenas de “cabrito”, o mesmo se aplica à chayá e à ave — mas os amoraím divergem adiante (Chulin 113a) se, quanto a estas, a proibição é bíblica ou apenas rabiníca. E explica a razão da cerca contra levá-los à mesma mesa: para que não se venha a comê-los juntos, já que ao tocarem-se absorvem sabor um do outro — isto mesmo sendo permitido, como se diz na Guemará, comer carne depois do queijo.

Rashi רש״י
Chulin 104b:6–7, sobre a segunda e a terceira cláusula desta mishná
מתני' ואינו נאכל - עם הגבינה: א"ר יוסי דבר זה כו' - בגמ' פריך היינו תנא קמא: בשולחן שאוכל עליו - דאיידי דממשמשי ביה ידא אתי לאתנוחי זה ע"ג זה:

Rashi esclarece que “não é comida” significa não comida junto com o queijo, e observa que a Guemará pergunta se a posição de Rabi Yosei não seria, afinal, a mesma do taná anônimo. E explica a razão de restringir a proibição à mesa de comer: é porque, sendo essa a mesa cuja superfície a mão toca repetidamente ao manusear os alimentos, existe o risco real de pousar um item sobre o outro.