Seder Kodashim · Massechet Chulin · Perek Zayin · Mishná 1 de 6

O alcance do gid hanashe

גִּיד הַנָּשֶׁה נוֹהֵג בָּאָרֶץ וּבְחוּצָה לָאָרֶץ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Onde, quando e sobre quem vige a proibição

O nervo ciático vige na Terra e fora da Terra, na presença do Templo e não na presença do Templo, no comum e nos consagrados. E vige na behemá e na chayá, na coxa direita e na coxa esquerda. E não vige na ave, porque ela não tem colher. E vige no feto. Rabi Yehudá diz: não vige no feto. E sua gordura é permitida. E os açougueiros não são credíveis sobre o nervo ciático — palavras de Rabi Meir. E os sábios dizem: são credíveis sobre ele e sobre a gordura.

— A mishná abre o Perek Zayin fixando, em seis cláusulas encadeadas, o alcance total da proibição do gid hanashe (o nervo ciático) que a Torá associa à luta de Yaakóv com o anjo (Bereshit 32:33). Primeiro, o eixo geográfico e temporal: a lei vige tanto em Eretz Yisrael quanto fora dela, tanto com o Templo em pé quanto após sua destruição — ao contrário de tantas mitzvot ligadas à terra, esta não depende nem do lugar nem da existência do santuário. Segundo, o eixo do estatuto do animal: aplica-se igualmente ao abate comum e aos animais consagrados ao Templo. Terceiro, o tipo de animal e o lado da coxa: tanto domesticado quanto selvagem, tanto a coxa direita quanto a esquerda — sem que nenhuma espécie ou lado escape. A ave, porém, fica isenta, porque o versículo fala especificamente do nervo “sobre a colher da coxa”, e a ave não tem esse formato arredondado de colher em sua coxa. A mishná estende ainda a lei ao shalil, o feto encontrado no ventre da mãe abatida — posição contestada por Rabi Yehudá —, e esclarece que, ao contrário do próprio nervo, a gordura que o envolve é permitida pela Torá. Por fim, fecha com uma disputa prática sobre credibilidade: Rabi Meir não confia na palavra dos açougueiros que afirmam já ter removido o nervo, exigindo verificação; os sábios, ao contrário, confiam neles tanto quanto à remoção do nervo quanto à da gordura proibida.

גִּיד הַנָּשֶׁה נוֹהֵג בָּאָרֶץ וּבְחוּצָה לָאָרֶץ, בִּפְנֵי הַבַּיִת וְשֶׁלֹּא בִפְנֵי הַבַּיִת, בְּחֻלִּין וּבְמֻקְדָּשִׁים. וְנוֹהֵג בִּבְהֵמָה וּבְחַיָּה, בְּיָרֵךְ שֶׁל יָמִין וּבְיָרֵךְ שֶׁל שְׂמֹאל. וְאֵינוֹ נוֹהֵג בְּעוֹף, מִפְּנֵי שֶׁאֵין לוֹ כָף. וְנוֹהֵג בְּשָׁלִיל. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אֵינוֹ נוֹהֵג בְּשָׁלִיל. וְחֶלְבּוֹ מֻתָּר. וְאֵין הַטַּבָּחִין נֶאֱמָנִין עַל גִּיד הַנָּשֶׁה, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, נֶאֱמָנִין עָלָיו וְעַל הַחֵלֶב.

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Bereshit 32:33
עַל־כֵּן לֹא־יֹאכְלוּ בְנֵי־יִשְׂרָאֵל אֶת־גִּיד הַנָּשֶׁה אֲשֶׁר עַל־כַּף הַיָּרֵךְ עַד הַיּוֹם הַזֶּה, כִּי נָגַע בְּכַף־יֶרֶךְ יַעֲקֹב בְּגִיד הַנָּשֶׁה.
“Por isso os filhos de Israel não comem o nervo ciático, que está sobre a colher da coxa, até o dia de hoje, porque ele tocou a colher da coxa de Yaakóv, no nervo ciático.”
O versículo, ao fim do relato da luta noturna de Yaakóv com o anjo em Peni'el, é a única proibição alimentar da Torá associada a um episódio narrativo, e não a um mandamento direto. A própria expressão “sobre a colher da coxa” é a base textual usada pela mishná para excluir a ave da proibição — já que somente a coxa da behemá e da chayá possui esse formato de “colher” arredondada em torno do osso.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Chulin 7:1
גיד הנשה נוהג בארץ ובח"ל בפני הבית ושלא כו': מה שאמר ובמוקדשין ואפילו עולה ששורפין אותה על גבי המזבח מוציאו ומשליכו על האפר המתוקן באמצע המזבח והוא הנקרא תפוח. ומה שאמר מפני שאין לו כף רוצה לומר אין לו כף ירך דומה לשל אדם שהוא עגול ואם יזדמן מין עוף או אחד מאיזה מין שיהיה שכף ירכו עגול הרי זה גיד הנשה שלו אסור ומה שאמר חלבו מותר רוצה לומר חלב גיד הנשה והוא שמנונית שלו וזהו לדברי הכל אבל אמרו ישראל קדושים הן ונהגו בו איסור רוצה לומר בשמנונית של גיד. ושליל הוא העובר הנמצא בגוף קודם שלמותו ואין הלכה כר"מ ולא כרבי יהודה:

Rambam explica que a inclusão dos animais consagrados significa que, mesmo numa oferenda queimada por inteiro sobre o altar como a olá, o nervo ciático deve ser retirado e lançado sobre as cinzas acumuladas no meio do altar — o lugar chamado tapuach — e não oferecido junto com a carne. Sobre a exclusão da ave, esclarece que ela não tem uma coxa arredondada como a do ser humano; e se, por acaso, existisse uma espécie de ave com uma coxa arredondada nesse formato, seu nervo ciático seria proibido. E quanto à gordura permitida, refere-se especificamente à gordura que envolve o próprio nervo ciático — permitida, segundo todos, pela Torá, embora, como ressalva, “Israel é santo” e adotou o costume de tratá-la também como proibida. E o shalil é o feto encontrado no corpo da mãe antes de completar sua formação. A lei não segue nem Rabi Meir nem Rabi Yehudá.

Bartenura · Chulin 7:1
גִּיד הַנָּשֶׁה. וּבְמֻקְדָּשִׁים. אֲפִלּוּ עוֹלָה שֶׁכֻּלָּהּ כָּלִיל, מוֹצִיא אֶת הַגִּיד וּמַשְׁלִיכוֹ עַל הָאֵפֶר הַצָּבוּר בַּמִּזְבֵּחַ הַקָּרוּי תַּפּוּחַ, וְאֵינוֹ מַקְרִיבוֹ עִם הַבָּשָׂר:
שֶׁאֵין לוֹ כָף. אֵין לוֹ כַּף יָרֵךְ דּוֹמָה לְשֶׁל אָדָם שֶׁהוּא עָגֹל, אֶלָּא הַבָּשָׂר שֶׁעַל הַקּוּלִית שֶׁל עוֹף בָּרֹחַב הוּא. וְאִם נִמְצָא עוֹף שֶׁיֵּשׁ לוֹ כַּף עָגֹל, גִּיד הַנָּשֶׁה שֶׁלּוֹ אָסוּר:
וְנוֹהֵג בְּשָׁלִיל. בֶּן תִּשְׁעָה חַי הַנִּמְצָא בִּבְהֵמָה:
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר אֵינוֹ נוֹהֵג בְּשָׁלִיל. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה:
וְחֶלְבּוֹ. שֶׁל שָׁלִיל מֻתָּר. פֵּרוּשׁ אַחֵר וְחֶלְבּוֹ, שֶׁל גִּיד. כְּלוֹמַר שֻׁמָּנוֹ שֶׁל גִּיד מֻתָּר לְדִבְרֵי הַכֹּל, אֶלָּא שֶׁיִּשְׂרָאֵל קְדוֹשִׁים נָהֲגוּ בוֹ אִסּוּר:
וְאֵין הַטַּבָּחִים נֶאֱמָנִים. לוֹמַר נְטַלְנוּהוּ. מִפְּנֵי שֶׁטֹּרַח הוּא לָהֶם לְחַטֵּט אַחֲרָיו. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי מֵאִיר:

Bartenura precisa que, mesmo numa olá inteiramente queimada, o nervo ainda assim é retirado e depositado sobre o montão de cinzas do altar chamado tapuach, nunca oferecido junto com a carne. Sobre a ave, explica que ela não tem uma coxa arredondada como a do ser humano, mas sim uma carne larga sobre o osso da coxa; e se por acaso se encontrasse uma ave com coxa arredondada, seu nervo também seria proibido. Define o shalil como o feto de nove meses, vivo, encontrado dentro da behemá abatida — e a lei não segue Rabi Yehudá, que o isenta. Sobre “sua gordura”, oferece duas leituras: a gordura do próprio feto é permitida, ou, alternativamente, a gordura que envolve o nervo ciático é permitida pela lei estrita, embora Israel, em sua santidade, tenha adotado o costume de tratá-la também como proibida. E explica que os açougueiros não são credíveis para dizer “nós já o retiramos”, porque é trabalhoso escavá-lo por completo — e a lei não segue Rabi Meir.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Chulin 89b:3, sobre a Guemará desta mishná
מתני' גיד הנשה: ובמוקדשין - לקמן (חולין דף צ.) פליגי בה איכא למאן דאמר אפילו בעולה ואיכא למ"ד בקדשים הנאכלין: שאין לו כף - בגמרא מפרש אית ליה ולא עגיל: כף - פוליפ"א הנכרכת סביבות עצם הקולית העליונה סביב סביב בעיגול אבל עוף אינו כן שהבשר שעל הקולית ברוחב הוא ואינו דומה לכף: כף - שעל גב הירך:

Rashi observa que, quanto aos consagrados, a Guemará adiante discute se a lei vale até mesmo para a olá ou apenas para os consagrados cuja carne se come. Sobre “não tem colher”, explica que a Guemará esclarece: a ave tem o osso, mas não tem o formato arredondado. E define “kaf” (colher) como a carne enrolada em torno do osso superior da coxa, em círculo — ao passo que, na ave, a carne sobre esse osso se estende em largura, sem formar esse círculo; e situa essa “colher” sobre o dorso da coxa.