Seder Kodashim · Massechet Chulin · Perek Vav · Mishná 1 de 7

O âmbito da mitzvá de cobrir o sangue

כִּסּוּי הַדָּם נוֹהֵג בָּאָרֶץ וּבְחוּצָה לָאָרֶץ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O âmbito geral: onde, quando e sobre que animais

A cobertura do sangue vige na Terra e fora da Terra, na presença do Templo e sem a presença do Templo, em chulin, mas não em muqdashím [animais consagrados]. E vige em chayá [animal selvagem] e em ave, seja mezumãn [disponível, doméstico] ou não seja mezumãn.

— A mishná abre o Perek Vav delimitando o âmbito da mitzvá de cobrir o sangue do abate, prescrita em Vayikrá 17:13. Ao contrário de tantas outras leis ligadas ao Templo e à Terra de Israel, esta obrigá vige sempre e em toda parte: dentro e fora da Terra, com o Templo em pé ou destruído. Mas seu objeto é restrito: aplica-se apenas ao sangue de abates não-sagrados (chulin), nunca ao sangue de animáis consagrados ao altar, cujo sangue tem destino próprio nas leis de sacrifícios. E aplica-se apenas às espécies para as quais a Torá a prescreveu — animal selvagem (chayá, como veado ou cabra montesa) e ave —, jamais ao boi, ovelha ou cabra domésticos (behemá), cujo sangue não requer cobertura. E vige igualmente sobre a caça livre e sobre aves e animáis criados e mantidos em casa.

כִּסּוּי הַדָּם נוֹהֵג בָּאָרֶץ וּבְחוּצָה לָאָרֶץ, בִּפְנֵי הַבַּיִת וְשֶׁלֹּא בִפְנֵי הַבַּיִת, בְּחֻלִּין אֲבָל לֹא בְמֻקְדָּשִׁים. וְנוֹהֵג בְּחַיָּה וּבְעוֹף, בִּמְזֻמָּן וּבְשֶׁאֵינוֹ מְזֻמָּן.
O koy: um caso de dúvida, e a proibição de abatê-lo em Yom Tov

E vige no koy, porque ele é uma dúvida. E não se abate a ele em dia de festa. E se o abateu, não se cobre o seu sangue.

— O koy é um animal cuja natureza os sábios deixaram em aberto: não se decidiu se é uma espécie de chayá (animal selvagem, sujeito à cobertura do sangue) ou de behemá (animal doméstico, isento dela). Por essa dúvida, exige-se cobrir seu sangue por precaução — mas, precisamente por ser apenas uma dúvida, não se pode abatê-lo em Yom Tov, pois cobrir terra sobre o sangue envolve um trabalho normalmente proibido no dia festivo, e esse trabalho só se permite quando a obrigação é certa. Como aqui ela é apenas provável, não se autoriza a violação do dia festivo. E se, ainda assim, alguém o abateu em Yom Tov, não se cobre o sangue naquele dia mesmo depois do fato — a cobertura fica adiada para depois da festa.

וְנוֹהֵג בְּכוֹי, מִפְּנֵי שֶׁהוּא סָפֵק. וְאֵין שׁוֹחֲטִין אוֹתוֹ בְיוֹם טוֹב. וְאִם שְׁחָטוֹ, אֵין מְכַסִּין אֶת דָּמוֹ:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת מִן הַתּוֹרָה

Vayikrá 17:13
וְאִישׁ אִישׁ מִבְּנֵי יִשְׂרָאֵל וּמִן־הַגֵּר הַגָּר בְּתוֹכָם אֲשֶׁר יָצוּד צֵיד חַיָּה אוֹ־עוֹף אֲשֶׁר יֵאָכֵל וְשָׁפַךְ אֶת־דָּמוֹ וְכִסָּהוּ בֶּעָפָר
“E qualquer homem dos filhos de Israel, ou dos estrangeiros que residem entre eles, que caçar caça de animal selvagem ou de ave que se pode comer, derramará o seu sangue e o cobrirá com terra.”
Este é o único versículo da Torá que institui a mitzvá de cobrir o sangue, e dele a mishná extrai os limites precisos da obrigação que irá detalhar em todo o Perek Vav: o versículo fala apenas de quem caça — daí a restrição a chayá e ave, os animais tipicamente caçados, excluindo o gado doméstico; e não menciona limitação geográfica ou temporal, o que explica por que a mitzvá vige em toda parte e em toda época, diferente de tantas outras leis agrícolas e sacrificiais ligadas específicamente à Terra de Israel e ao período do Templo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Chulin 6:1
כסוי הדם נוהג בארץ ובחוצה לארץ בפני כו': אין הפרש בין קדשי מזבח ובין קדשי בדק הבית אם עבר אדם ושחטן אינו חייב בכסוי וכבר ביארנו שהכוי בריה בפני עצמו ולא הכריעו חכמים אם מין חיה הוא אם מין בהמה לפיכך אם יכסו דמו בי"ט ידמה שהוא חיה ויבאו לאכול חלבו ולפיכך אין מכסין את דמו עד למוצאי י"ט:

Rambam esclarece que não há diferença, para este efeito, entre animáis consagrados ao próprio altar e animáis consagrados à manutenção do Templo (bedek habait): se alguém transgrediu e os abateu fora do procedimento correto, mesmo assim não há obrigação de cobrir o sangue, pois o critério é a consagração do animal, não a validade do abate. E explica a razão prática de não cobrir o sangue do koy mesmo depois de abatido em Yom Tov: se alguém visse cobrirem seu sangue no próprio dia festivo, poderia concluir, erroneamente, que se trata certamente de um animal selvagem, e vir a permitir o consumo de seu sebo — proibido na behemá doméstica, mas permitido na chayá.

Bartenura · Chulin 6:1
כִּסּוּי הַדָּם כוּ'. מִשּׁוּם דְּבָעֵי לְמִתְנֵי בְּחֻלִּין אֲבָל לֹא בְמֻקְדָּשִׁין, נָקַט לְכֻלְּהוּ:
בְּמֻקְדָּשִׁין. חַטַּאת הָעוֹף וְעוֹלַת הָעוֹף. וְכֵן קָדְשֵׁי בֶדֶק הַבַּיִת אִם עָבַר וּשְׁחָטָן אֵין טְעוּנִים כִּסּוּי:
וְנוֹהֵג בְּחַיָּה וּבְעוֹף. לְמִעוּטֵי בְּהֵמָה. דְּלֹא תֵימָא בְּהֵמָה בִּכְלַל חַיָּה. וְנַפְקָא לָן מִדִּכְתִיב בִּבְכוֹר בַּעַל מוּם (דברים טו) עַל הָאָרֶץ תִּשְׁפְּכֶנּוּ כַּמָּיִם, מַה מַּיִם אֵינָן טְעוּנִין כִּסּוּי אַף דַּם בְּהֵמָה אֵינוֹ טָעוּן כִּסּוּי:
בִּמְזֻמָּן. עוֹף הַגָּדֵל בַּבַּיִת:
וְנוֹהֵג בְּכוֹי. בְּרִיָּה בִּפְנֵי עַצְמָהּ הִיא וְלֹא הִכְרִיעוּ בָהּ חֲכָמִים אִם חַיָּה הִיא וּטְעוּנָה כִּסּוּי אִם בְּהֵמָה וְאֵינָהּ טְעוּנָה כִּסּוּי:
וְאֵין שׁוֹחֲטִים אוֹתוֹ בְיוֹם טוֹב. מִשּׁוּם דִּלְמָא בָּעֵי כִּסּוּי, וּמִסְּפֵקָא לֹא מְחַלְלִינַן יוֹם טוֹב:
וְאִם שְׁחָטוֹ בְיוֹם טוֹב אֵין מְכַסִּין אֶת דָּמוֹ. וַאֲפִלּוּ הָיָה לוֹ עָפָר מוּכָן אוֹ אֵפֶר. שֶׁמָּא יֹאמַר הָרוֹאֶה, חַיָּה וַדַּאי הוּא וּלְפִיכָךְ כִּסָּה דָמוֹ בְּיוֹם טוֹב, וְיָבֹא לְהַתִּיר חֶלְבּוֹ:

Bartenura explica por que a mishná reuniu, num só período, tantas categorias diferentes: porque todas elas dependem de uma única clausula final — “em chulin, mas não em muqdashím”. Esclarece que “muqdashím” aqui inclui tanto a chatat da ave quanto a olá da ave, e também animáis consagrados à manutenção do Templo. Sobre a restrição a chayá e ave, traz a fonte que exclui a behemá doméstica: a Torá manda derramar o sangue do primogênito defeituoso “sobre a terra como água”, e assim como a água não requer cobertura, tampouco o sangue da behemá a requer. E, sobre o koy abatido em Yom Tov, repete e reforça a explicação prática do Rambam: mesmo que a pessoa já tivesse terra ou cinza preparada de véspera, ainda assim não se cobre o sangue nesse dia, para que ninguém veja e conclua, erroneamente, que se trata de uma chayá certa, vindo a permitir seu sebo.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Chulin 83b:3, sobre a Guemará desta mishná
מתני' כסוי הדם - משום דבעי למתני בחולין אבל לא במוקדשין נקט לכולהו: במוקדשין - חטאת העוף ועולת העוף: במזומן ובשאינו מזומן - משום דגבי שלוח הקן אצטריך למיתני לקמן (חולין דף קלח:) שאינו מזומן אבל לא במזומן. מזומן עוף הגדל בבית: ונוהג בכוי - גרס:

Rashi explica a lógica da redação da mishná: ela reuniu todas essas categorias — Terra e fora da Terra, Templo e sem Templo, chayá e ave, mezumãn e não mezumãn — porque todas precisavam ser ditas antes da clausula final que as excetua em relação aos animáis consagrados. Esclarece que “muqdashím” refere-se à chatat da ave e à olá da ave. E observa que a distinção entre mezumãn e não mezumãn foi necessária porque, adiante no tratado, a respeito do envio do ninho (shilu'ach haken), a mishná ensinará que a mitzvá vige apenas quando o pássaro não é mezumãn — e não quando ele é; aqui, ao contrário, a cobertura do sangue vige em ambos os casos.