O Perek Dalet abre uma nova frente no tratado: depois de tratar, nos capítulos anteriores, dos sinais externos de pureza das diferentes espécies, a mishná passa a discutir o estatuto do feto (ubar) encontrado no ventre da mãe abatida — e como o abate da mãe permite, ou deixa de permitir, o consumo de suas partes.
Um animal que tem dificuldade para parir, e o feto estendeu sua pata e a recolheu, é permitido no comer. Se estendeu a cabeça, ainda que a tenha recolhido, eis que este é como um já nascido. Quem corta do feto que está em suas entranhas, é permitido no comer. Do baço e dos rins, é proibido no comer. Este é o princípio: a coisa que é do seu próprio corpo é proibida; a que não é do seu corpo, é permitida.
A mishná estabelece o eixo de todo o capítulo: o feto, enquanto está dentro do ventre materno, é tratado como parte do corpo da mãe, de modo que o abate dela também o permite para consumo. Mas, se algum membro do feto sai para fora dessa fronteira antes do abate, esse membro passa a ter o status de algo que saiu do seu limite natural — e, mesmo recolhido de volta, permanece proibido, salvo o caso de uma simples pata; já a saída da cabeça equivale ao próprio nascimento, retirando o feto inteiro da condição de mero apêndice da mãe e exigindo, dali em diante, abate próprio. Pedaços cortados do feto, enquanto este continua dentro do ventre, são permitidos pelo abate da mãe, por serem considerados parte do seu corpo; já pedaços do baço ou dos rins da própria mãe, mesmo deixados dentro dela, permanecem proibidos, porque são partes do corpo dela mesma, separadas antes do abate — e o abate não redime o que já foi destacado de um corpo vivo. A mishná fecha com o princípio que resume a distinção entre os dois casos.
Rambam explica que a permissão da mishná se refere ao feto inteiro: quando a mãe é abatida e ele é retirado de seu corpo, é permitido comê-lo. Mas o membro que saiu antes do abate não pode ser comido, mesmo tendo voltado para dentro do corpo do animal, porque a Torá diz “carne dilacerada no campo” — carne que sai para fora de sua fronteira, tornando-se como seu próprio “campo”, tem o status de tereifá; e, assim como a tereifá, uma vez configurada, não tem mais remédio, também essa carne, uma vez fora de sua fronteira, não tem mais remédio, ainda que retorne a ela. Por isso o membro permanece proibido mesmo recolhido. Rambam esclarece a diferença prática: se o membro foi recolhido antes do abate, corta-se apenas a parte que havia saído, e come-se o resto do feto; se não foi recolhido e a mãe foi abatida, corta-se o membro que saiu — que permanece proibido — cortando-se também, por precaução, um pouco a mais, junto ao corpo, e descartando essa porção adicional. Sobre “eis que este é como um nascido”, esclarece que, se o feto for encontrado vivo no ventre após o abate da mãe, ele não pode ser comido até que seja abatido por si mesmo. E quanto ao que é cortado do feto ainda dentro do ventre, confirma que é permitido, pois não se aplica a ele a proibição de “membro de um ser vivo”, já que permanece dentro do corpo até o abate.
Bartenura detalha a razão prática: quando a pata do feto sai e não retorna, é preciso deixar uma pequena porção do lado interno para cortar, pois o próprio ponto de corte marca a fronteira entre o que estava dentro e o que já esteve fora, e por isso esse ponto é proibido, por ter estado à beira do útero. Já se o membro foi recolhido antes do abate, não é necessário cortar para dentro: corta-se rente, e o próprio ponto de corte é permitido, porque nunca chegou de fato a sair da fronteira — aplicando-se a ele o versículo “do animal comereis”. Sobre “eis que este é como um nascido”, esclarece que, a partir desse momento, o abate da mãe já não ajuda: é necessário abate próprio se encontrado vivo, e status de carcaça se encontrado morto. Sobre o que é cortado do feto dentro do ventre, esclarece que, deixando o pedaço lá dentro, ele é permitido pelo abate do animal, sem incorrer na proibição de membro de ser vivo. Já quanto ao baço e aos rins, especifica que são órgãos da própria mãe, e observa que a mishná escolheu justamente esses dois órgãos como exemplo porque cortá-los não torna o animal uma tereifá.
Rashi esclarece que a dificuldade de parto de que fala a mishná ocorre precisamente no momento do abate, e que “a recolheu” refere-se a antes do abate. Sobre “permitido no comer”, remete à Guemará, que discute exatamente qual porção está permitida. E sobre “eis que este é como um nascido”, confirma que, a partir desse ponto, o abate da mãe já não ajuda: é necessário abate próprio caso o feto seja encontrado vivo; e, se for encontrado morto, seu status é o de uma carcaça.