Assim como a mishná 3:2 espelhou a 3:1 para a behêmá, esta mishná espelha a 3:3 para a ave: os mesmos pontos de fragilidade aparente, mas em grau que não compromete a vida do animal.
E estas são kosher na ave: a traqueia perfurada ou rachada; a doninha que a golpeou na cabeça, em lugar que não a torna treifá; o papo perfurado — Rabi diz: mesmo que removido.
— Assim como na behêmá, a traqueia da ave tolera uma perfuração ou fenda pequena. O golpe da doninha só é fatal quando atinge a zona da membrana cerebral; fora dessa zona específica, a ave permanece kosher mesmo tendo sido mordida na cabeça. Já o papo — a bolsa junto ao esôfago onde o alimento se acumula antes da digestão — tolera perfuração, e Rabi (Yehuda HaNassi) vai além, permitindo até sua remoção total, opinião que, como Bartenura registra, não é seguida como halachá.
Os intestinos que saíram sem serem perfurados; as asas quebradas; as pernas quebradas; as penas arrancadas. Rabi Yehuda diz: se a penugem foi removida, é inválida.
— Fecha-se a lista com quatro casos de trauma que, apesar da aparência, não são fatais: os intestinos que se exteriorizam pela parede abdominal sem sofrer perfuração alguma continuam funcionais; asas e pernas quebradas — desde que o osso não se projete para fora da carne — também não afetam a vida da ave; e as penas grandes arrancadas da superfície do corpo são apenas estéticas. Rabi Yehuda discorda quanto à penugem, a camada fina e rente à pele: para ele, sua remoção equivale à pele arrancada da behêmá, tornando a ave trefá — mas a halachá não segue sua opinião.
Rambam explica que o papo funciona na ave como o estômago no ser humano, situado junto ao esôfago. Sobre os intestinos exteriorizados, precisa a condição decisiva: contanto que sua ordem não seja alterada — isto é, que ninguém os tenha invertido ou reposicionado manualmente — a ave permanece kosher, pois eles não podem ser desfeitos uma vez alterados. Quanto às pernas, detalha que a fratura só é grave quando o osso se expõe e a carne se solta ao redor dele; se a carne continua cobrindo o osso quebrado, mesmo que este se mova livremente, a ave permanece kosher. E confirma, por fim, que a halachá não segue nem Rabi Yehuda (quanto à penugem) nem Rabi Meir (quanto à pele da behêmá, tratada na mishná anterior).
Bartenura esclarece a condição precisa dos intestinos exteriorizados: só permanecem kosher se, ao serem recolocados, ninguém inverteu sua ordem original — nem trocou a parte de cima pela de baixo, nem alterou a disposição das alças; se algo foi invertido, a ave é trefá, pois esse rearranjo é irreversível. Distingue ainda a fratura da asa (kosher) do deslocamento da articulação junto ao corpo (trefá): neste último caso, teme-se que o pulmão — que fica escondido entre as costelas, protegido apenas por uma membrana fina de carne — se rompa junto com o deslocamento. Por fim, explica que a penugem fina sem hastes é comparada à pele arrancada da behêmá, mas confirma que a halachá não segue Rabi Yehuda nesse ponto.
Rashi define o zefek (papo) como a bolsa onde o alimento se acumula antes de prosseguir para o esôfago. Sobre as pernas quebradas, especifica a regra: seja abaixo do joelho, seja acima dele, a fratura só é kosher enquanto o osso não se projeta para fora da carne — um caso paralelo ao de uma behêmá em parto difícil, tratado adiante no tratado, onde a saída do osso é decisiva. E distingue, com termos em francês antigo, as duas categorias de penas: “nimretu kenafeha” refere-se às penas grandes que cobrem todo o corpo da ave, enquanto a “notzá” é a penugem fina, rente à carne, sem hastes rígidas.