Abre-se aqui o Perek Guimel de Chulin, inteiramente dedicado à enumeração técnica dos sinais de trefá — as lesões e defeitos que tornam proibido o consumo de uma behêmá mesmo depois de um abate ritualmente correto.
Estas são as treifot na behêmá: o esôfago perfurado, e a traqueia cortada; se a membrana do cérebro foi perfurada; se o coração foi perfurado até sua cavidade; se a espinha foi quebrada e sua medula, cortada; se o fígado foi removido e nada restou dele — é treifá. E também o pulmão que foi perfurado ou que está faltando. Rabi Shimon diz: não é treifá a menos que seja perfurado até os brônquios.
— A mishná abre com os sete primeiros sinais de trefá, todos ligados a órgãos cuja lesão compromete diretamente a vida do animal. O esôfago e a traqueia possuem cada um duas camadas: perfurar apenas uma delas não torna o animal treifá, mas perfurar ambas, sim — ainda que os dois furos não estejam um diante do outro. O cérebro também tem duas membranas: só a perfuração da interna, próxima ao próprio cérebro, torna o animal treifá. O coração tem duas cavidades, e a perfuração que alcança qualquer uma delas é fatal. Quanto ao pulmão, Rabi Shimon discorda dos sábios anônimos e exige que a perfuração alcance os brônquios internos para ser considerada trefá.
O abomaso perfurado, a vesícula biliar perfurada, os intestinos delgados perfurados; o rúmen interno perfurado, ou a maior parte do externo rasgada — Rabi Yehuda diz: na behêmá grande, um tefach; e na pequena, a maior parte dela. O omaso e o retículo perfurados para fora,
— O rúmen possui uma parede interna e uma externa; a interna torna a behêmá trefá com qualquer perfuração mínima, enquanto a externa exige que se rasgue sua maior parte. Rabi Yehuda propõe um critério alternativo baseado no tamanho absoluto do animal: um tefach de rasgo já basta num boi grande, mesmo sem ser a maioria, enquanto num bezerro pequeno é preciso a maioria mesmo que seja menos de um tefach. Já o omaso e o retículo — dois dos quatro compartimentos do estômago ruminante — só tornam o animal trefá quando perfurados "para fora", isto é, na direção da cavidade abdominal; se a perfuração ocorre no ponto de junção entre os dois, um protege o outro e o animal permanece kosher.
A que caiu do telhado, a que teve a maioria de suas costelas quebradas, e a garra do lobo — Rabi Yehuda diz: a garra do lobo, na behêmá pequena; e a garra do leão, na grande; a garra do falcão, na ave pequena; e a garra da grande, na ave grande. Esta é a regra: tudo que, em condição semelhante, não poderia viver — é treifá.
— A mishná fecha a primeira lista com três casos ligados a trauma externo — queda, fratura de costelas e garra de predador — e depois com o princípio geral que sustenta toda a categoria de trefá: o critério não é uma lista fechada e arbitrária, mas sim a pergunta se um animal ferido daquela forma poderia, em condições normais, continuar vivendo. Rabi Yehuda distingue os predadores conforme o porte do animal atacado, entendendo que só o predador cujo veneno é potente o bastante para aquele porte específico causa a lesão fatal.
Rambam detalha a anatomia por trás de cada sinal: as duas camadas do esôfago e do pulmão, as duas membranas do cérebro, as duas cavidades do coração. Explica que, no fígado, é preciso que restem pelo menos um kazait junto ao ponto da vesícula biliar e outro kazait no ponto de fixação sob os rins — faltando qualquer um dos dois locais, ou havendo menos que isso, o animal é trefá. Sobre a queda do telhado, esclarece que o exame se faz na cavidade interna do abdômen e do peito, procurando órgãos esmagados; e sobre as costelas, informa que a behêmá tem onze de cada lado, de modo que a maioria significa seis mais seis, ou todas de um lado mais uma do outro. Por fim, define a garra do predador como aquela cravada pelas mãos (patas dianteiras), não pelos pés.
Bartenura acrescenta detalhes práticos: no caso da queda do telhado, se o animal andou normalmente com suas próprias pernas logo depois de cair, está kosher sem necessidade de exame; se apenas ficou em pé sem andar, ou se aguardou um dia inteiro antes do abate, é kosher mas precisa de exame interno da cavidade corporal, para verificar se algum órgão foi esmagado pelo impacto. Sobre a garra do predador, explica que o veneno das garras dianteiras é o que causa a lesão letal — por isso a definição exclui golpes de pata traseira — e que, havendo dúvida se o animal foi mesmo atacado, examina-se o dorso, o abdômen e as laterais em busca de carne avermelhada, sinal de que o veneno penetrou.
Rashi observa, logo de início, a regra geral que rege quase toda a lista: qualquer perfuração nos órgãos mencionados torna o animal trefá ainda que seja mínima (“bemashehu”). Sobre a traqueia, precisa que a fratura deve atingir a maior parte de sua largura. E esclarece um ponto estrutural importante: “a espinha quebrada e a medula cortada” não são dois sinais distintos, mas um único — o que realmente causa a trefá é o corte da medula espinhal, e a menção à fratura da espinha é apenas a forma usual como isso costuma acontecer, já que a medula raramente se rompe sem que o osso também se quebre.