Se estava voando: quando suas asas tocam o ninho, está obrigado a enviá-la. Se suas asas não tocam o ninho, está isento do envio.
— O verso descreve a mãe como “pousada” sobre os filhotes ou os ovos (Devarim 22:6), não simplesmente “sentada”: dessa escolha de palavra a tradição deriva que basta um contato físico mínimo para que o caso se enquadre em “pousada”. Por isso, mesmo a ave que está no ar, em pleno voo, já gera a obrigação de envio, desde que suas asas encostem no ninho; se estiver voando sem tocá-lo, falta o requisito mínimo de “pousada”, e não há obrigação.
Se não há ali senão um só filhote ou um só ovo, está obrigado a enviá-la, pois está dito: ninho — ninho de qualquer modo.
— Embora o verso descreva o caso comum com filhotes ou ovos no plural, a palavra “ninho” (ken) em si é usada de modo absoluto, sem exigir quantidade mínima: por isso a obrigação recai igualmente sobre o ninho que contém um único filhote ou um único ovo.
Se havia ali filhotes já capazes de voar, ou ovos chocados, está isento do envio, pois está dito: “e a mãe está pousada sobre os filhotes ou sobre os ovos” — assim como os filhotes são capazes de viver, também os ovos precisam ser capazes de viver, excluídos os chocados; e assim como os ovos precisam de sua mãe, também os filhotes precisam de sua mãe, excluídos os que já voam.
— A mishná deriva, da justaposição no mesmo verso entre “filhotes” e “ovos”, uma dupla analogia que qualifica ambos os termos reciprocamente: assim como o filhote precisa ser viável (excluindo o ovo chocado, que jamais dará origem a um pássaro vivo), também o ovo precisa ser viável; e assim como o ovo depende inteiramente do calor da mãe para se desenvolver, também o filhote precisa depender dela — o que exclui o filhote já crescido o bastante para voar sozinho, e que já não depende mais da mãe.
Enviou-a e ela voltou, enviou-a e ela voltou, mesmo quatro e cinco vezes, está obrigado, pois está dito: enviarás, sim, enviarás.
— A dobra do verbo no versículo — “shalêach teshalach”, literalmente “enviar, enviarás” — é lida pela mishná não como simples ênfase estilística, mas como fonte para multiplicar a obrigação: se a mãe, uma vez enviada, insiste em retornar ao ninho, o dono deve repetir o envio indefinidamente, cada vez que ela voltar.
Se disse: eis que tomarei a mãe e enviarei os filhotes — está obrigado a enviá-la, pois está dito: enviarás, sim, enviarás a mãe.
— Alguém poderia imaginar que, cumprindo ao menos parte da mitzvá — enviando os filhotes, embora retendo a mãe — já estaria dispensado do restante. A mishná rejeita essa ideia: o verso especifica que é justamente a mãe que deve ser enviada, e essa parte da mitzvá não pode ser substituída pelo envio dos filhotes.
Se tomou os filhotes e os devolveu ao ninho, e depois a mãe voltou sobre eles, está isento do envio.
— Se o dono, antes de a mãe retornar, já havia tomado os filhotes e os recolocado no ninho, o ninho deixa de ser um ninho “não preparado” e passa a ser, para efeitos desta mitzvá, um ninho já sob domínio humano — como uma gaiola preparada de antemão. Quando a mãe volta a pousar sobre filhotes que já estiveram, ainda que momentaneamente, em posse do dono, a obrigação de envio não se renova.
Rambam explica que “shalêach” é um infinitivo absoluto, e o infinitivo absoluto abrange tanto o pouco quanto o muito; por isso está obrigado, na medida em que se trata de um infinitivo absoluto, a enviá-la mesmo mil vezes. E toda esta halachá já está suficientemente explicada no próprio texto da mishná.
Bartenura explica que “quando suas asas tocam o ninho está obrigado a enviá-la” se deve a que o verso diz “pousada” e não “voando”; e por ter escrito “pousada” e não “sentada”, entende-se que, se suas asas tocam o ninho, já está obrigada. Sobre “pois está dito enviarás”, o infinitivo absoluto significa sempre, repetidamente. E sobre “tomou os filhotes etc.”, uma vez que tomou os filhotes, o ninho se torna um ninho preparado.
Rashi explica que “mafrichim” (que já voam) refere-se a filhotes já grandes. E sobre a cláusula final da mishná, esclarece que “tomou os ovos e depois a mãe voltou sobre eles, está isento do envio”, porque, uma vez tomados os ovos pelo dono, o ninho passa a ser um ninho já preparado.