O envio do ninho vige na Terra e fora da Terra, com o Templo em pé e sem o Templo em pé, no comum, mas não nos consagrados.
— Encerrado o Perek Yud-Alef com a primeira tosquia, o tratado se volta, em seu último capítulo, a shiluach hakan: a mitzvá de afastar a mãe pássaro antes de tomar seus filhotes ou ovos (Devarim 22:6–7). A mishná abre fixando seu alcance nos mesmos quatro eixos usados para as demais mitzvot deste tratado — território, presença do Templo, e tipo de animal — e conclui que ela vige sempre e em toda parte, mas apenas sobre aves comuns, nunca sobre aves consagradas ao Templo.
Há maior rigor na cobertura do sangue do que no envio do ninho, pois a cobertura do sangue vige no animal selvagem e na ave, no preparado e no não preparado. E o envio do ninho não vige senão na ave, e não vige senão no que não está preparado.
— Como fez no Perek Vav ao comparar kissui hadam com oto ve-et beno, a mishná agora compara duas mitzvot ligadas às aves: a cobertura do sangue do abate (kissui hadam) e o envio do ninho. A primeira é mais abrangente — vige tanto no animal selvagem quanto na ave, e tanto no animal preparado (já sob domínio do dono) quanto no não preparado (selvagem). O envio do ninho é mais restrito em ambos os eixos: só vige na ave, e só quando ela não está preparada — isto é, quando ainda não pertence a ninguém em particular.
E qual é o não preparado? Como gansos e galinhas que fizeram ninho no pomar. Mas se fizeram ninho na casa, e do mesmo modo os pombos de Herodes, está isento do envio.
— A mishná define o termo técnico “não preparado” com um exemplo concreto: gansos e galinhas domésticas que se rebelaram contra seus donos, saíram de casa e passaram a nidificar livremente no pomar — tornando-se, na prática, como aves selvagens, sujeitas ao envio. Mas se essas mesmas aves fizerem ninho dentro de casa, permanecem “preparadas”, sob domínio pleno do dono, e isentas; o mesmo vale para os pombos de Herodes, criados junto às pessoas desde sempre, cujo hábito de conviver com o homem os mantém sempre no estatuto de preparados.
Rambam explica que é possível haver um caso de envio do ninho mesmo em ave consagrada, apesar de a mishná dizer que a mitzvá não vige nos consagrados: se alguém consagrou uma ave ao bedek habait (a manutenção do Templo) enquanto ela ainda estava sob seu domínio, e depois ela voou e saiu de seu domínio, e ele a reconheceu, e depois a encontrou pousada sobre ovos — está obrigado a trazer tudo por meio do tesoureiro do Templo, caso que não se enquadra na regra de que a mitzvá não vige nos consagrados. Esta é uma halachá dita na Guemará, possível de ocorrer e impossível de ser de outro modo, conforme o princípio de que ninguém consagra algo que não está sob seu domínio — um acréscimo ao que já foi explicado neste capítulo. E “os de Herodes” remetem ao rei Herodes, que foi quem começou a criar pombos dentro de casas.
Bartenura explica que “mas não nos consagrados” permite entender um caso onde, se fossem comuns, ficariam obrigados no envio do ninho: por exemplo, quando alguém tinha uma ave e a consagrou, ainda sob seu domínio, ao bedek habait, e ela fugiu, e depois a encontrou pousada sobre o ninho e a reconheceu. Ou ainda, quando alguém consagrou os pombinhos de seu pombal ao altar para uma oferenda queimada voluntária, e depois, já crescidos, esses pombinhos fugiram e saíram e fizeram ninho em outro lugar — pois, no início, quando os consagrou, eles eram seus e a consagração recaiu sobre eles, e agora que os encontra não estão preparados, e se fossem comuns estariam obrigados. “E não vige senão no que não está preparado”, pois está escrito “quando se deparar”, excluindo o preparado. “Que fizeram ninho no pomar”: porque se rebelaram e saíram de casa, e não voltam para casa, tornando-se selvagens; e o pomar não é lugar de preparado, porque podem fugir. “De Herodes”: porque seu costume é crescer junto às pessoas, e em nome do rei Herodes, que se ocupava de sua criação, foram chamados “de Herodes” em sua homenagem.
Rashi remete, sobre “mas não nos consagrados”, à explicação detalhada da Guemará adiante sobre como se dá esse caso. Quanto a “não vige senão no que não está preparado”, é porque está escrito (Devarim 22) “quando se deparar”. “Que fizeram ninho no pomar” significa que se rebelaram e saíram de casa, e não voltam para casa, tornando-se selvagens; e o pomar não é lugar de preparado, porque podem fugir dali — mas se fizeram ninho dentro de casa, está isento. “Fizeram ninho dentro de casa” significa que não se rebelaram. “E do mesmo modo os pombos de Herodes”, cujo costume é crescer junto às pessoas, estão isentos.