Duas mulheres que fizeram [cada uma] dois kavin [de massa] (um kav de farinha é uma medida menor do que o volume mínimo obrigado em chalá — cinco quartos —, de modo que duas massas de um kav cada, pertencentes a mulheres diferentes, não alcançam sozinhas essa medida), e se tocaram uma com a outra (as duas massas entraram em contato físico, quase se fundindo), mesmo que sejam da mesma espécie (de grão), estão isentas (da chalá, pois pertencem a duas pessoas diferentes, e presume-se que cada uma se incomoda com a mistura de sua massa com a da outra, de modo que o contato não as une para efeito de medida). Mas quando são de uma só mulher (as duas massas de dois kavin pertencem à mesma pessoa): se são espécie dentro de sua espécie (do mesmo tipo de grão), está obrigada (pois presume-se que uma só pessoa não se incomoda com a combinação de suas próprias massas, e elas se somam até completar a medida); e se não são de sua espécie (espécies diferentes de grão), está isenta (pois massas de espécies diferentes, mesmo pertencendo à mesma pessoa, não se combinam).
O tratado retorna, neste último capítulo, ao tema central que abriu o Perek Bet — o volume mínimo de farinha que torna uma massa obrigada em chalá — agora sob o ângulo específico da combinação (tzeruf) entre massas separadas que se tocam.
Por que a titularidade determina o resultado, e não apenas o contato físico? Porque a mishná entende que uma "massa" obrigada, no sentido da Torá, não é definida pela mera proximidade física de farinha amassada, mas por uma unidade de intenção e posse. Duas mulheres diferentes que preparam cada uma o seu próprio kav presumivelmente pretendem manter suas massas distintas — o contato acidental entre elas não revela vontade de uni-las, e por isso a lei as trata como permanecendo duas entidades separadas, cada uma abaixo do volume mínimo. Já quando ambos os kavin pertencem à mesma mulher, não há razão para presumir que ela deseje mantê-los separados; a soma ocorre naturalmente, e a obrigação nasce da medida combinada — desde, é claro, que se trate da mesma espécie de grão, pois espécies diferentes não se combinam mesmo sob uma só titularidade, como o Perek Dálet detalhará nas mishnayot seguintes.
Registro honesto: o Rambam não dedica, em Hilchot Bikurim, uma halachá explícita a este caso específico de combinação entre massas de titularidades diferentes. O princípio geral do volume mínimo de chalá (cinco quartos) já foi tratado em Hilchot Bikurim 6:15, citado nas mishnayot do Perek Bet.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.
Esta halachá segue a opinião de Bet Hillel, que dizem que de dois kavin já há obrigação de chalá, como se esclarecerá em Eduyot; e já explicamos anteriormente (acima, capítulo 2, mishná 6) o volume mínimo de chalá. E a intenção desta halachá é que haja, nas duas massas [somadas], o volume mínimo de chalá (o Rambam situa a mishná dentro do debate sobre a medida exata que obriga a chalá, já tratado no Perek Bet, e esclarece que o cenário pressupõe que a soma das duas massas atinja esse mínimo).
"Duas mulheres": mesmo que sejam da mesma espécie, estão isentas. E nem o contato ("mordida") nem a combinação por estarem na mesma cesta as unem, já que ambas se incomodam [com a mistura]. E mesmo que tenham amassado os dois kavin como um só, já que no fim se dividirão, estão isentas. E a mishná, sem qualificação, segue Bet Hillel, que dizem que de dois kavin já há obrigação de chalá — mas essa não é a halachá final, pois estabelecemos que cinco quartos é o volume mínimo de chalá (Bartenura assinala que a opinião subjacente à formulação da mishná não é a que prevalece na prática). "E quando são de uma só mulher": uma mulher sozinha, sem qualificação em contrário, não se incomoda se as massas se tocam uma com a outra (por isso a combinação se dá naturalmente entre massas de uma só titular).