Seder Zeraim · Massechet Chalá · Perek Alef · Mishná 8

"A massa dos cães, quando os pastores comem dela"

עִסַּת הַכְּלָבִים, בִּזְמַן שֶׁהָרוֹעִים אוֹכְלִין מִמֶּנָּה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná trata da massa de cães — feita com farinha misturada a muito farelo, destinada a alimentar animais — e usa esse caso para listar toda uma série de leis que dependem da definição de "pão apto ao consumo humano": chalá, eruv, shitufim, bênçãos, zimun, cozimento em Iom Tov, e a mitzvá de matzá em Pessach. O critério decisivo é se pastores (seres humanos) ainda comem dessa massa ou não

A massa dos cães (preparada com farinha e grande quantidade de farelo misturado, destinada à alimentação de cães), no tempo em que os pastores comem dela (quando a proporção de farelo ainda não é tão grande a ponto de torná-la imprópria para pessoas), é obrigada na chalá, e faz-se eruv com ela, e faz-se shitufim com ela, e abençoa-se sobre ela, e convida-se (zimun, a convocação para a bênção conjunta após a refeição) sobre ela, e é feita em Iom Tov (dia de festa, quando normalmente é proibido preparar comida que não seja para consumo humano nesse mesmo dia), e a pessoa cumpre com ela sua obrigação em Pessach (a mitzvá de comer matzá na noite do Seder). Se os pastores não comem dela (por haver farelo demais, tornando-a imprópria ao paladar humano), não é obrigada na chalá, e não se faz eruv com ela, e não se faz shitufim com ela, e não se abençoa sobre ela, e não se convida sobre ela, e não é feita em Iom Tov, e a pessoa não cumpre com ela sua obrigação em Pessach. De um jeito ou de outro, contrai impureza de alimentos (pois, mesmo quando os pastores não a comem por preferência, ela ainda é tecnicamente comestível por seres humanos em caso de necessidade, o que basta para sujeitá-la às leis de impureza ritual).

עִסַּת הַכְּלָבִים, בִּזְמַן שֶׁהָרוֹעִים אוֹכְלִין מִמֶּנָּה, חַיֶּבֶת בַּחַלָּה, וּמְעָרְבִין בָּהּ, וּמִשְׁתַּתְּפִין בָּהּ, וּמְבָרְכִין עָלֶיהָ, וּמְזַמְּנִין עָלֶיהָ, וְנַעֲשֵׂית בְּיוֹם טוֹב, וְיוֹצֵא בָהּ אָדָם יְדֵי חוֹבָתוֹ בְּפֶסַח. אִם אֵין הָרוֹעִים אוֹכְלִין מִמֶּנָּה, אֵינָהּ חַיֶּבֶת בַּחַלָּה, וְאֵין מְעָרְבִין בָּהּ, וְאֵין מִשְׁתַּתְּפִין בָּהּ, וְאֵין מְבָרְכִין עָלֶיהָ, וְאֵין מְזַמְּנִין עָלֶיהָ, וְאֵינָהּ נַעֲשֵׂית בְּיוֹם טוֹב, וְאֵין אָדָם יוֹצֵא בָהּ יְדֵי חוֹבָתוֹ בְּפֶסַח. בֵּין כָּךְ וּבֵין כָּךְ, מִטַּמְּאָה טֻמְאַת אֳכָלִין:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A obrigação de chalá para a massa de cães depende diretamente da mesma condição estabelecida desde a primeira mishná: que a massa seja "pão", destinado ao consumo humano.

Bemidbar (Números) 15:19
וְהָיָה בַּאֲכָלְכֶם מִלֶּחֶם הָאָרֶץ תָּרִימוּ תְרוּמָה לַה'.
"E será que, quando comerdes do pão da terra, separareis uma oferta para o Eterno" (Bemidbar 15:19) — o versículo condiciona a obrigação de chalá ao consumo ("baachalchem", "quando comerdes"), o que os comentadores entendem como exigindo que a massa seja um alimento apto ao paladar humano. Uma massa preparada especificamente para cães, com tanto farelo que pessoas já não a comeriam, sai dessa categoria — mesmo sendo tecnicamente feita de um dos cinco grãos. Mas, enquanto pastores (a categoria mais humilde e menos exigente de consumidores humanos mencionada pela mishná) ainda a considerarem comestível, ela retorna à categoria de "pão da terra" e todas as leis correspondentes se aplicam.

Por que tantas leis dependem do mesmo critério? Esta mishná reúne sete leis distintas — chalá, eruv chatzerot, shitufei mevoot, a bênção do "hamotzi", o zimun após a refeição, o cozimento permitido em Iom Tov, e a mitzvá de matzá — porque todas elas, cada uma à sua maneira, exigem que o alimento em questão seja reconhecido como "pão" no sentido pleno do termo, apto ao consumo humano regular. A impureza de alimentos (tumat ochlin), por outro lado, segue um critério mais permissivo: qualquer coisa originalmente destinada ao consumo humano — mesmo que hoje destinada a animais — permanece sujeita à impureza ritual até que se torne genuinamente imprópria até para cães, "até que se torne imprópria para o cão comer", como explicam os comentadores; por isso a massa de cães contrai impureza em ambos os casos descritos pela mishná.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica esta lei em Mishné Torá, Hilchot Bikurim 6:8, dentro da sequência de casos que definem a categoria de massa obrigada na chalá.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Bikurim 6:8
הָעוֹשֶׂה עִסָּה לְהַאֲכִיל הַפַּת שֶׁלָּהּ לִבְהֵמָה אוֹ לְחַיָּה, פְּטוּרָה. עִסַּת הַכְּלָבִים, בִּזְמַן שֶׁהָרוֹעִים אוֹכְלִין מִמֶּנָּה, חַיֶּבֶת בְּחַלָּה. עִסַּת הָעַכּוּ"ם פְּטוּרָה.
"Quem faz uma massa para dar seu pão a comer a um animal doméstico ou selvagem é isento. A massa dos cães, no tempo em que os pastores comem dela, é obrigada na chalá. A massa de um idólatra é isenta" (o Rambam confirma o critério da mishná — o consumo por pastores — e o insere numa série mais ampla de casos de massa destinada a animais, todos isentos por padrão, exceto quando permanece minimamente apta ao consumo humano; o terceiro caso mencionado, a massa de um não-judeu, é isento por um motivo totalmente diferente, relacionado à propriedade e não à composição da massa).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Chalá 1:8
עִסַּת הַכְּלָבִים. הוּא שֶׁלָּשִׁין אוֹתָהּ בְּמוּרְסָנָהּ וְדוֹמֶה לוֹ, וּמִתְכַּוֵּן לְהַאֲכִילָהּ לַכְּלָבִים אוֹ זוּלָתָם מִמִּינֵי הַחַיּוֹת, וְשֶׁלֹּא יֹאכַל מִמֶּנָּה שׁוּם אָדָם... אֵינָהּ חַיֶּבֶת בַּחַלָּה. לְמַאֲמַר הַשֵּׁם יִתְבָּרֵךְ "בַּאֲכָלְכֶם מִלֶּחֶם הָאָרֶץ". וְאֵין עוֹשִׂין בָּהּ עֵרוּבֵי תְחוּמִין וְלֹא שִׁתּוּפֵי מְבוֹאוֹת, לְפִי שֶׁאֵלּוּ הָעֵרוּבִין אֵינָן נַעֲשִׂין אֶלָּא מִן הַדְּבָרִים שֶׁהַכַּוָּנָה בָּהֶם שֶׁיֹּאכְלוּם בְּעָלֶיהָ... בֵּין כָּךְ וּבֵין כָּךְ מִטַּמְּאָה טֻמְאַת אֳכָלִין. לְפִי שֶׁהָעִקָּר אֶצְלֵנוּ כִּי כָּל מַה שֶּׁהוּא מְיֻחָד לְמַאֲכַל אָדָם יִטְמָא טֻמְאַת אֳכָלִין, וְאֵין צָרִיךְ מַחֲשָׁבָה... עַד שֶׁיִּפָּסֵל מִלֶּאֱכֹל הַכֶּלֶב.

"A massa dos cães": é aquela que se amassa com seu próprio farelo e coisas semelhantes, com intenção de alimentar cães ou outros tipos de animais, e que nenhuma pessoa coma dela [...]. "Não é obrigada na chalá": conforme a palavra do Nome bendito "quando comerdes do pão da terra" (exigindo consumo humano). "E não se faz eruvei techumin nem shitufei mevoot com ela": pois esses eruvin só se fazem com coisas cuja intenção é que seus donos as comam [...]. "De um jeito ou de outro, contrai impureza de alimentos": pois o princípio entre nós é que tudo o que é especificamente destinado ao consumo humano contrai impureza de alimentos, sem necessitar de intenção específica [...], até que se torne imprópria para o cão comer (a impureza de alimentos, uma vez contraída por algo originalmente apto ao consumo humano, só se dissipa quando o alimento se degrada a ponto de nem mesmo um animal aceitar comê-lo).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Chalá 1:8
עִסַּת כְּלָבִים. נַעֲשֵׂית מִקֶּמַח, וּמֻרְסָן הַרְבֵּה מְעֹרָב בָּהּ. בִּזְמַן שֶׁהָרוֹעִים אוֹכְלִים מִמֶּנָּה. שֶׁלֹּא נִתְעָרֵב בָּהּ מֻרְסָן כָּל כָּךְ. חַיֶּבֶת בַּחַלָּה. דְּכֵיוָן דְּחַזְיָא לָרוֹעִים לֶחֶם קָרִינַן בָּהּ. וּמְעָרְבִין בָּהּ. עֵרוּבֵי חֲצֵרוֹת, לְהוֹצִיא מִן הַבָּתִּים לֶחָצֵר. וּמִשְׁתַּתְּפִין בָּהּ. שִׁתּוּפֵי מְבוֹאוֹת, לְהוֹצִיא מִן הַחֲצֵרוֹת לַמָּבוֹי. וְאֵינָהּ חַיֶּבֶת בַּחַלָּה. דִּכְתִיב "רֵאשִׁית עֲרִיסוֹתֵיכֶם", שֶׁלָּכֶם חַיֶּבֶת וְלֹא שֶׁל חַיָּה. מִטַּמְּאָה טֻמְאַת אֳכָלִין. כֵּיוָן דְּעַל יְדֵי הַדְּחַק נֶאֱכֶלֶת לָאָדָם, מִטַּמְּאָה, עַד שֶׁתִּפָּסֵל מִלֶּאֱכֹל לַכֶּלֶב.

"A massa dos cães": é feita de farinha, com muito farelo misturado nela. "No tempo em que os pastores comem dela": quando não se misturou nela farelo em quantidade tão grande. "É obrigada na chalá": pois, uma vez que serve aos pastores, chamamo-la de pão (o padrão de comestibilidade aqui não é o do consumidor mais exigente, mas o mínimo aceitável — se ao menos os pastores, conhecidos por sua simplicidade, ainda a consideram comida, ela mantém o status pleno de "pão"). "E faz-se eruv com ela": eruvei chatzerot, para transportar das casas ao pátio. "E faz-se shitufim com ela": shitufei mevoot, para transportar dos pátios ao beco. "Não é obrigada na chalá" (quando os pastores não a comem): pois está escrito "vossas massas" — a vossa é obrigada, e não a de um animal. "Contrai impureza de alimentos": já que, em caso de necessidade extrema, ainda é comida por uma pessoa, contrai impureza, até que se torne imprópria para o cão comer (o limiar para perder o status de "alimento" para efeito de impureza é muito mais baixo do que o limiar para a obrigação de chalá — basta a comestibilidade teórica em situação extrema).

Massechet Chalá não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. Esta mishná trata da massa de cães e das diversas leis que dependem do critério de "pão apto ao consumo humano" — mishná 8.