Seder Moed · Massechet Chaguigá · Perek Alef · Mishná 6 de 8

O prazo para celebrar a chagigá

מִי שֶׁלֹּא חַג בְּיוֹם טוֹב הָרִאשׁוֹן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná estabelece o prazo de reposição (tashlumin) para quem não conseguiu trazer sua chagigá no primeiro dia festivo: ele tem toda a festa, incluindo o último dia, para se recuperar — mas, uma vez encerrada a festa, a falta se torna irreparável.

Quem não celebrou a chagigá no primeiro dia festivo da festa celebra durante toda a festa e no último dia festivo da festa. Se a festa passou e ele não celebrou, não é responsável por essa falta. Sobre isso foi dito: o que é torto não pode ser endireitado, e o que falta não pode ser contado.A obrigação de trazer a chagigá recai, em princípio, sobre o primeiro dia festivo. Mas quem, por qualquer motivo, não conseguiu cumpri-la nesse dia, não perde a oportunidade: pode ainda trazê-la em qualquer um dos dias intermediários, e até mesmo no último dia festivo da festa — que, embora seja em si uma festa própria (Shemini Atzeret, no caso de Sucot), também serve como reposição da obrigação do primeiro dia. Uma vez que toda a festa se encerra, porém, sem que a pessoa tenha trazido sua chagigá, não há mais nenhuma forma de reparar essa omissão — ela simplesmente permanece sem cumprimento, e a pessoa não é considerada culpada nem penalizada por isso. A mishná ilustra essa irreversibilidade com um versículo de Kohelet sobre aquilo que, uma vez torto, já não pode mais ser endireitado.

מִי שֶׁלֹּא חַג בְּיוֹם טוֹב הָרִאשׁוֹן שֶׁל חָג, חוֹגֵג אֶת כָּל הָרֶגֶל וְיוֹם טוֹב הָאַחֲרוֹן שֶׁל חָג. עָבַר הָרֶגֶל וְלֹא חַג, אֵינוֹ חַיָּב בְּאַחֲרָיוּתוֹ. עַל זֶה נֶאֱמַר מְעֻוָּת לֹא יוּכַל לִתְקֹן, וְחֶסְרוֹן לֹא יוּכַל לְהִמָּנוֹת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Kohelet (Eclesiastes) 1:15
מְעֻוָּת לֹא־יוּכַל לִתְקֹן וְחֶסְרוֹן לֹא־יוּכַל לְהִמָּנוֹת
O que é torto não pode ser endireitado, e o que falta não pode ser contado.

A mishná cita este versículo de Kohelet como imagem direta da irreversibilidade: assim como uma coisa torta, uma vez passado o momento de corrigi-la, permanece torta para sempre, a chagigá não trazida durante toda a festa permanece definitivamente sem cumprimento após seu encerramento. A leitura talmúdica desse versículo, porém, não o toma como mera metáfora poética, mas como base para distinguir, mais adiante no perek, entre faltas verdadeiramente irreparáveis — como a de quem gera um mamzer — e faltas que, apesar de graves, ainda admitem correção, como o roubo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica a base do prazo estendido de tashlumin, derivado de uma comparação (guezerá shavá) com a festa de Sucot.

Rambam · Perush HaMishná, Chaguigá 1:6
מי שלא חג ביום טוב הראשון של חג חוגג וכו׳: רוצה באמרו חג ולא חג הקרבת העולה והשלמים שהוא חייב בהן כמו שבארנו. ודע כי חג השבועות אע״פ שהוא יום אחד יש לו תשלומין כל שבעה לאמרו בחג המצות ובחג השבועות ובחג הסוכות.
Rambam esclarece que “celebrar” nesta mishná significa especificamente trazer a oferenda de ascensão e a de paz da obrigação da festa. Ele acrescenta um detalhe importante: mesmo Shavuot, que dura apenas um dia, tem prazo de reposição de sete dias inteiros — derivado da comparação textual entre as três festas de peregrinação, “na festa dos ázimos, na festa das semanas e na festa das cabanas” — de modo que, assim como Pessach tem sete dias de tashlumin, também Shavuot os tem, apesar de sua brevidade.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura explica por que o último dia da festa também serve como reposição; Rashi, na Guemará, detalha a mesma regra e a base da comparação textual.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Chaguigá 1:6
מי שלא חג ביום טוב הראשון של חג חוגג את כל הרגל ויום טוב האחרון של חג: ודע כי חג השבועות אע״פ שהוא יום אחד יש לו תשלומין כל שבעה לאמרו בחג המצות ובחג השבועות ובחג הסוכות ובאה הקבלה מה חג המצות יש לו תשלומין כל שבעה אף חג השבועות יש לו תשלומין כל שבעה.

Rambam confirma que todo o período da festa, incluindo o último dia festivo, serve de prazo de reposição para a chagigá não trazida no primeiro dia — e generaliza esse princípio até a festa de Shavuot, que apesar de durar apenas um dia recebe, pela mesma lógica comparativa, sete dias inteiros de prazo.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Chaguigá 1:6
מי שלא חג. שלא הביא שלמי חגיגתו ועולת ראייתו. ויום טוב האחרון. שמיני עצרת. ואף על גב דרגל בפני עצמו הוא, הוי תשלומין דראשון. וחג השבועות נמי אף על גב דלא הוי אלא יום אחד, יש לו תשלומין כל שבעה.

Bartenura esclarece que “não celebrou” significa não ter trazido nem a chagigá nem a oferenda de ascensão do primeiro dia. Sobre Shemini Atzeret, ele nota o paradoxo aparente: embora seja, por lei, uma festa própria e independente, ela também funciona como o último prazo de reposição para a obrigação do primeiro dia de Sucot — e o mesmo vale, por comparação textual, para os sete dias de tashlumin concedidos a Shavuot.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Chaguigá 9a
מתני׳ מי שלא חג - שלא הביא חגיגתו ביום הראשון של חג. ויום טוב האחרון של חג - חוגג שמיני עצרת ואע״ג דרגל בפני עצמו הוא הוי תשלומין לראשון. מעוות - מקולקל.

Rashi confirma que a mishná trata de quem simplesmente não trouxe sua chagigá no primeiro dia, e que Shemini Atzeret, apesar de ser uma festa própria e independente, funciona como reposição para essa obrigação não cumprida. Sobre a palavra “meuvat”, Rashi a traduz simplesmente como “estragado” ou “torto” — reforçando a leitura de que, uma vez passada a festa inteira, a omissão se torna permanente e sem remédio.