Seder Zeraim · Massechet Bikurim · Perek Dalet · Mishná 5 (última)

Em que o andrógino não se assemelha a nenhum dos dois

כֵּיצַד אֵינוֹ שָׁוֶה לֹא לַאֲנָשִׁים וְלֹא לַנָּשִׁים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Quarta e última categoria do esquema de 4:1: aspectos em que o andrógino não se enquadra nem no tratamento dos homens nem no das mulheres; a mishná final do tratado encerra com a opinião de Rabi Yose, que o declara uma criatura à parte, e distingue seu caso do tumtum

De que maneira não se assemelha nem aos homens nem às mulheres? Não são responsáveis por feri-lo e por amaldiçoá-lo, nem como os homens nem como as mulheres; e não é avaliado, nem como os homens nem como as mulheres; e se disse "eis que sou nazireu de que este não é homem nem mulher", não é nazireu. Rabi Yose diz: o andrógino é uma criatura à parte, e os sábios não puderam decidir a seu respeito se é homem ou se é mulher. Mas o tumtum não é assim — às vezes é homem, às vezes é mulher (a mishná final desenvolve a quarta e última categoria: casos em que o andrógino escapa por completo das regras aplicáveis tanto a homens quanto a mulheres, precisamente porque essas regras exigem, em sua formulação bíblica, uma identificação sexual inequívoca em uma direção ou outra — a responsabilidade penal por feri-lo ou amaldiçoá-lo (contraste direto com a mishná 4:4, em que essa mesma responsabilidade era afirmada quando aplicada de forma cumulativa) e a avaliação monetária de arachin (Vayicrá 27), que a Torá vincula a categorias explícitas de "macho" ou "fêmea" e da qual, portanto, o andrógino fica inteiramente fora — não porque seja isento por leniência, mas porque a própria estrutura da lei não tem categoria para ele; o caso do voto de nazireado espelha, por oposição, o de 4:4: se a condição do voto for "que este não é nem homem nem mulher" — uma afirmação falsa, pois o andrógino tem características de ambos — o voto não se cumpre, e a pessoa não se torna nazireu; a mishná encerra com a opinião de Rabi Yose, que resume filosoficamente todo o capítulo: o andrógino não é um caso de dúvida a ser resolvido caso a caso, mas uma "criatura à parte" (בְּרִיָּה בִּפְנֵי עַצְמָהּ), uma terceira categoria com identidade jurídica própria diante da qual os próprios sábios reconheceram sua incapacidade de decidir definitivamente entre macho e fêmea — e a mishná fecha o tratado inteiro com uma distinção final e esclarecedora: diferentemente do tumtum, cujos órgãos estão apenas fisicamente ocultos por uma membrana de carne e cuja identidade sexual real é uma questão de fato que poderia, em princípio, ser resolvida por exame ou cirurgia — "às vezes é homem, às vezes é mulher", isto é, cada tumtum individual É definitivamente um ou outro, apenas desconhecido —, o andrógino apresenta ambos os conjuntos de características simultaneamente e de modo permanente, uma dúvida de identidade, não de fato).

כֵּיצַד אֵינוֹ שָׁוֶה לֹא לַאֲנָשִׁים וְלֹא לַנָּשִׁים: אֵין חַיָּבִים לֹא עַל מַכָּתוֹ וְלֹא עַל קִלְלָתוֹ לֹא כַּאֲנָשִׁים וְלֹא כַּנָּשִׁים, וְאֵינוֹ נֶעֱרָךְ לֹא כַּאֲנָשִׁים וְלֹא כַּנָּשִׁים, וְאִם אָמַר "הֲרֵינִי נָזִיר שֶׁזֶּה לֹא אִישׁ וְלֹא אִשָּׁה" אֵינוֹ נָזִיר. רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר: אַנְדְּרוֹגִינוֹס בְּרִיָּה בִּפְנֵי עַצְמָהּ הוּא וְלֹא יָכְלוּ חֲכָמִים לְהַכְרִיעַ עָלָיו אִם הוּא אִישׁ אוֹ אִשָּׁה. אֲבָל טֻמְטוּם אֵינוֹ כֵן, פְּעָמִים שֶׁהוּא אִישׁ פְּעָמִים שֶׁהוּא אִשָּׁה:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A isenção da avaliação de arachin remete diretamente à parashá de Vayicrá 27, cuja linguagem exige uma identificação sexual certa e inequívoca.

Vayicrá (Levítico) 27:2-4
אִישׁ כִּי יַפְלִא נֶדֶר בְּעֶרְכְּךָ נְפָשֹׁת לַה'. וְהָיָה עֶרְכְּךָ הַזָּכָר... וְאִם נְקֵבָה הִוא וְהָיָה עֶרְכְּךָ.
"Um homem, quando fizer um voto singular de avaliação de pessoas ao Senhor. E será tua avaliação do macho... e se for fêmea, será tua avaliação" — este texto, que institui os valores fixos de resgate de um voto de arachin, formula-os explicitamente em termos de "o macho" e "a fêmea", categorias certas e determinadas; como o andrógino não é nem um macho certo nem uma fêmea certa — mas ambos simultaneamente, segundo a definição do Rambam em Hilchot Ishut 2:24 já citada em 4:1 —, ele simplesmente não se encaixa em nenhuma das duas tabelas de valores fixados pela Torá, e por isso "não é avaliado" nem como homem nem como mulher: o voto de arachin sobre ele não pode ser cumprido segundo esses valores fixos.

O fechamento de Massechet Bikurim — e de Seder Zeraim inteiro. O tratado termina, portanto, não com mais uma lei sobre frutos, mas com uma reflexão sobre os limites das categorias binárias da halachá diante de um caso real que as transcende. A opinião final de Rabi Yose — de que o andrógino é "uma criatura à parte" cuja identidade os próprios sábios não conseguiram decidir — funciona quase como uma coda filosófica para as quatro mishnayot anteriores: depois de mapear metodicamente onde ele se assemelha aos homens (4:2), às mulheres (4:3), a ambos (4:4) e a nenhum dos dois (4:5), a Mishná admite, em sua última palavra sobre o assunto, que a mera soma dessas quatro listas não resolve — nem pretende resolver — a questão de fundo. E com esta reflexão se encerra não apenas Massechet Bikurim, mas toda a Ordem de Zeraim: os onze tratados que abriram a Mishná com as leis de bênçãos, doações agrícolas aos pobres, dízimos, misturas proibidas, o ano sabático e as ofertas ao Templo chegam ao fim com este apêndice sobre os limites da classificação binária — um lembrete apropriado de que, mesmo numa ordem dedicada às leis mais concretas e agrárias da vida em Israel, a tradição reserva espaço para reconhecer, com honestidade, os casos que desafiam suas próprias categorias.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam não dedica halachot específicas às isenções finais desta mishná (responsabilidade penal, arachin, nazireado condicional); a definição central do andrógino como "criatura à parte" está implícita na formulação já citada de Hilchot Ishut 2:24, embora o Rambam não use ali a expressão exata de Rabi Yose.

Rambam · Hilchot Ishut 2:24 (retomada)
מִי שֶׁיֵּשׁ לוֹ אֵיבַר זִכְרוּת וְאֵיבַר נְקֵבוּת הוּא הַנִּקְרָא אַנְדְּרוֹגִינוּס, וְהוּא סָפֵק אִם זָכָר סָפֵק אִם נְקֵבָה. וְאֵין לוֹ סִימָן שֶׁיִּוָּדַע בּוֹ אִם הוּא זָכָר וַדַּאי אִם הִיא נְקֵבָה וַדָּאִית לְעוֹלָם.
Quem tem órgão de masculinidade e órgão de feminilidade é o que se chama andrógino, e ele é dúvida se é macho, dúvida se é fêmea; e não há sinal algum pelo qual se saiba que é macho certo ou é fêmea certa, nunca (esta mesma definição, já citada na abertura do capítulo em 4:1, é a base sobre a qual toda a mishná final se apoia: ao afirmar que "não há sinal algum" que resolva a dúvida "nunca", o Rambam já indica, em linguagem legal e não filosófica, a mesma ideia que Rabi Yose expressa na mishná com a fórmula "criatura à parte" — a condição do andrógino não é um problema de informação insuficiente, resolúvel com mais exame, mas uma indeterminação estrutural e permanente; é precisamente esse ponto que distingue seu caso do tumtum, cuja dúvida, como a mishná esclarece em sua frase final, é apenas de fato oculto, e não de identidade).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O Bartenura fecha o tratado esclarecendo a fonte da isenção de arachin, a base bíblica da venda como escravo hebreu, e uma variante textual da Tosefta sobre o tumtum.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Bikurim 4:5
וְאֵינוֹ נֶעֱרָךְ. דְּזָכָר וּנְקֵבָה אֲמוּרִים בְּפָרָשַׁת עֲרָכִים, שֶׁיְּהֵא זָכָר וַדַּאי אוֹ נְקֵבָה וַדָּאִית. אֲבָל טֻמְטוּם וְכוּ'. וּבַתּוֹסֶפְתָּא הַגִּרְסָא, אֲבָל טֻמְטוּם אֵינוֹ כֵן, אֶלָּא אוֹ סָפֵק אִישׁ אוֹ סָפֵק אִשָּׁה.

"E não é avaliado": pois macho e fêmea são ditos na parashá dos valores de avaliação, que seja macho certo ou fêmea certa. "Mas o tumtum, etc.": e na Tosefta a versão é: "mas o tumtum não é assim, senão dúvida-homem ou dúvida-mulher" (o Bartenura confirma que a isenção de arachin decorre estritamente da linguagem bíblica, que exige identificação certa; e, na frase final do tratado, aponta uma variante textual preservada na Tosefta — que formula a distinção entre andrógino e tumtum de modo ligeiramente diferente da versão padrão da Mishná: em vez de "às vezes é homem, às vezes é mulher" (referindo-se a diferentes tumtumim individuais, cada um definitivamente de um sexo), a Tosefta o descreve como "dúvida-homem ou dúvida-mulher" para cada indivíduo — uma formulação que, segundo os comentadores posteriores citados por outras fontes (Melechet Shelomo e outros), não contradiz a leitura anterior, mas apenas expressa a mesma ideia central: a dúvida do tumtum é sobre um fato oculto e individual, resolúvel em princípio, enquanto a dúvida do andrógino é estrutural e compartilhada por todos os de sua condição).

Massechet Bikurim não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.
סְלִיק מַסֶּכְתָּא דְּבִכּוּרִים, וְנִשְׁלַם סֵדֶר זְרָעִים
Aqui se conclui Massechet Bikurim — e com ela, toda a Ordem de Zeraim. O Perek Dalet, breve e final, com apenas cinco mishnayot, dedicou-se inteiramente ao caso do andrógino: abriu anunciando o esquema de quatro categorias que organizaria todo o capítulo (4:1); mapeou, uma a uma, as características em que ele se assemelha aos homens — impureza, yibum, vestimenta, casamento, obrigação plena nos mandamentos (4:2); às mulheres — impureza, reclusão, isenções penais ligadas à barba e à impureza pelos mortos, desqualificação de testemunho e sacerdócio (4:3); a ambos simultaneamente — responsabilidade penal por feri-lo, consequências por matá-lo, oferendas de sua mãe, participação em oferendas sagradas, herança plena (4:4); e a nenhum dos dois — isenção de responsabilidade penal e de arachin, culminando na reflexão final de Rabi Yose de que o andrógino é "uma criatura à parte", distinta também do caso do tumtum (4:5). Como os demais tratados de Zeraim dedicados a leis agrícolas ligadas à Terra de Israel, Massechet Bikurim não possui Guemará no Talmud Bavli, e por isso todo o perush deste tratado se apoiou no Rambam (Perush HaMishná e Mishné Torá) e no Bartenura, sem a presença de Rashi.

Com o encerramento deste último tratado, completam-se os onze tratados de Seder Zeraim — Berachot, Peá, Demai, Kilayim, Sheviit, Terumot, Maasrot, Maaser Sheni, Chalá, Orlá e Bikurim —, a primeira das seis Ordens da Mishná, dedicada às bênçãos e às leis agrícolas que regem a relação entre o agricultor de Israel, sua terra e os pobres, os sacerdotes e o Templo. Do primeiro tratado, que ensina como e quando abrir a boca em oração, ao último, que fecha com uma reflexão sobre os limites das categorias binárias da lei diante de um caso singular, Seder Zeraim percorreu o ciclo completo da vida agrícola israelita — plantio, colheita, dízimo, descanso da terra e oferenda ao Templo — como uma disciplina espiritual tanto quanto econômica. O estudo da Mishná prossegue agora para as demais Ordens.