No início, todo aquele que sabia recitar, recitava; e todo aquele que não sabia recitar, era instruído [palavra por palavra] (originalmente, a leitura da parashá de bikurim descrita na mishná anterior (3:6) seguia uma prática dupla e visivelmente desigual: quem tinha conhecimento suficiente do texto recitava a declaração sozinho, de memória ou por leitura, enquanto quem não sabia recebia a ajuda de alguém que ia lhe ditando cada palavra, para que a repetisse em voz alta). Deixaram de trazer [bikurim]; instituíram que instruíssem tanto o que sabe quanto o que não sabe (essa distinção pública entre os dois grupos gerou um efeito colateral indesejado: por vergonha de expor publicamente sua falta de instrução, muitas pessoas simplesmente pararam de trazer seus bikurim ao Templo. Diante desse problema, o Beit Din instituiu uma solução elegante — de agora em diante, todos, sem exceção, sabendo ou não de cor a recitação, seriam igualmente instruídos palavra por palavra por um auxiliar, eliminando qualquer diferença visível entre os dois grupos e restaurando a disposição de todos em cumprir a mitzvá).
A raiz da própria noção de "recitar através de outrem" está, segundo a exegese do Rambam, no verbo empregado pela Torá para descrever a proclamação de bikurim.
Por que essa mudança de política era necessária, e o que ela revela sobre a mitzvá de bikurim? Esta mishná documenta um raro exemplo de reforma litúrgica motivada explicitamente por sensibilidade social. O sistema original — deixar cada trazedor recitar sozinho quando podia, e apenas instruir quem não sabia — parecia razoável e eficiente, mas produziu um efeito perverso: ao tornar visível, publicamente, quem precisava de ajuda para recitar, envergonhava exatamente aquelas pessoas cuja participação a mitzvá mais deveria acolher. O resultado concreto foi a própria erosão da mitzvá — pessoas deixando de trazer seus bikurim por vergonha. O Beit Din, reconhecendo esse padrão, optou por uma solução que sacrifica um pouco da autonomia dos que sabiam recitar (agora também precisando ser "instruídos", mesmo sem necessidade real) em favor da inclusão universal e da preservação da própria prática da mitzvá. Este episódio prepara o terreno para as mishnayot finais do Perek Guimel (3:8-3:12), que tratam de outra forma de diferenciação social — entre ricos e pobres — mostrando como a halachá administra repetidamente as tensões entre distinção e igualdade dentro do mesmo ritual.
O Rambam registra esta mesma instituição em Hilchot Bikurim 3:11, com a mesma linguagem e o mesmo motivo social explícito.
O Rambam desenvolve a base exegética da prática de "instruir"; o Bartenura nomeia diretamente a vergonha como causa do abandono da mitzvá.
Disse o Nome, bendito seja, sobre os bikurim: "e responderás e dirás perante o Senhor teu Deus"; e ainda disse o Nome, bendito seja: "e responderão os leviim, e dirão a todo homem de Israel em voz alta" — e disseram no Sifrei: assim como a "resposta" dita aqui é em língua sagrada, também a "resposta" dita adiante é em língua sagrada (o Rambam traça um paralelo exegético entre dois usos da mesma raiz verbal "aná" — responder — na Torá: um relativo à declaração de bikurim, outro relativo à proclamação pública dos leviim no Monte Eival; a comparação estabelece que ambas devem ser em hebraico, a "língua sagrada"). E porque nem todas as pessoas sabiam a língua sagrada, como se explica em Ezra, voltaram a instruir todo o povo, para que não fossem envergonhados aqueles que não sabiam recitar; e apoiaram isso no que foi dito "e responderás e dirás", [interpretando que] não há "resposta" senão da boca de outros (o Rambam explica a raiz textual mais profunda da prática de instrução: como nem todos dominavam o hebraico bíblico — um problema já documentado na época de Ezra, quando parte do povo havia perdido a fluência na língua sagrada durante o exílio — o próprio verbo "responderás", entendido como uma resposta a uma fala alheia, forneceu a base exegética para generalizar a prática de instrução a todos, sabendo ou não, evitando toda distinção pública embaraçosa).
"Deixaram de trazer": por causa da vergonha de não saber recitar (o Bartenura, em uma única linha direta, identifica exatamente a mesma causa apontada pelo Rambam em Hilchot Bikurim — a vergonha pública (bushá) sentida por quem precisava de ajuda para recitar — como o motivo concreto que levou pessoas a abandonarem a mitzvá, tornando compreensível e necessária a reforma instituída em seguida pelo Beit Din).