Seder Zeraim · Massechet Bikurim · Perek Guimel · Mishná 11

Só a Terra de Israel confere o status de bikurim ao acréscimo

אֵימָתַי אָמְרוּ תּוֹסֶפֶת הַבִּכּוּרִים כַּבִּכּוּרִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Uma qualificação geográfica precisa à categoria de "acréscimo de bikurim" definida na mishná anterior: sua equiparação plena aos bikurim depende de sua origem na Terra de Israel

Quando disseram que o acréscimo de bikurim é como os bikurim? Quando vem da Terra [de Israel] (a mishná retoma a categoria de "tosefet habikurim" — o acréscimo de frutos da mesma espécie, definida na Mishná 3:10 como equiparada aos bikurim quanto à pureza ritual e à isenção de demai — e agora precisa uma condição essencial para essa equiparação: o acréscimo só herda plenamente o status privilegiado dos bikurim quando os frutos adicionais também provêm da Terra de Israel, a mesma origem geográfica exigida para os próprios bikurim). Mas se não vem da Terra, não é como os bikurim (a mishná fecha o raciocínio com sua contrapositiva direta: caso os frutos usados como acréscimo tenham origem fora da Terra de Israel — por exemplo, do Ever haYarden, a região a leste do rio Jordão, cujo status geográfico quanto às mitzvot agrícolas era objeto de discussão especial, como o Bartenura esclarece abaixo — esse acréscimo perde a equiparação total aos bikurim, mesmo sendo da mesma espécie botânica que o fruto original).

אֵימָתַי אָמְרוּ תּוֹסֶפֶת הַבִּכּוּרִים כַּבִּכּוּרִים, בִּזְמַן שֶׁהִיא בָאָה מִן הָאָרֶץ. וְאִם אֵינָהּ בָּאָה מִן הָאָרֶץ, אֵינָהּ כַּבִּכּוּרִים:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A própria mitzvá de bikurim, em sua formulação bíblica, está inextricavelmente ligada à posse da terra — o que fundamenta a exigência geográfica desta mishná.

Devarim (Deuteronômio) 26:1-2
וְהָיָה כִּי תָבוֹא אֶל הָאָרֶץ אֲשֶׁר ה' אֱלֹהֶיךָ נֹתֵן לְךָ נַחֲלָה... וְלָקַחְתָּ מֵרֵאשִׁית כָּל פְּרִי הָאֲדָמָה אֲשֶׁר תָּבִיא מֵאַרְצְךָ.
"E será, quando entrares na terra que o Senhor teu Deus te dá por herança... e tomarás das primícias de todo fruto da terra que trouxeres de tua terra" — a repetida ênfase do versículo em "a terra" e "tua terra" fundamenta o vínculo essencial entre a mitzvá de bikurim e a Terra de Israel especificamente. É esse vínculo geográfico que explica por que a mishná exige que também o acréscimo de bikurim (tosefet) — para herdar plenamente o status privilegiado dos bikurim quanto à pureza e à isenção de demai — deva vir dessa mesma terra, e não de território externo, ainda que halachicamente relevante para outras finalidades, como o Ever haYarden.

Por que especificamente o Ever haYarden é o caso relevante aqui? Como o Bartenura explica abaixo, esta mishná provavelmente pressupõe uma mishná anterior (já discutida em outro contexto do tratado) segundo a qual bikurim propriamente ditos podem, de fato, ser trazidos do Ever haYarden — a região a leste do Jordão, ocupada pelas tribos de Reuven, Gad e metade de Menashe — ainda que essa região não seja tecnicamente "a terra que mana leite e mel" na acepção mais estrita da Torá. Se bikurim originais podem vir dali, seria razoável supor que o acréscimo (tosefet) também pudesse — mas esta mishná esclarece que não: mesmo que o Ever haYarden seja aceitável para os bikurim originais, um acréscimo posterior de frutos vindos dali não herda a equiparação total com os bikurim que caracteriza a tosefet vinda estritamente da Terra de Israel propriamente dita. Esta mishná encerra o bloco temático da tosefet e do itur (Mishnayot 3:8-3:11), preparando a transição para a mishná final do Perek Guimel, que trata de uma questão completamente distinta: o estatuto legal dos bikurim como propriedade transferível do cohen.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam, em seu Perush HaMishná, confirma brevemente a premissa geográfica desta mishná — que os bikurim propriamente ditos podem vir do Ever haYarden, mesmo essa região não sendo tecnicamente parte da Terra de Israel na acepção mais estrita.

Rambam · Perush HaMishná, Bikurim 3:11
כְּבָר בֵּאַרְנוּ בְּמַה שֶׁקָּדַם שֶׁהַבִּכּוּרִים מְבִיאִין אוֹתָם מֵעֵבֶר הַיַּרְדֵּן וְאֵינָם מֵאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל.
Já explicamos anteriormente que os bikurim são trazidos do Ever haYarden, ainda que ele não seja da Terra de Israel [na acepção mais estrita] (o Rambam confirma a premissa por trás desta mishná: a obrigação de bikurim se estende também ao Ever haYarden, apesar de essa região, tecnicamente, não gozar do mesmo status pleno da Terra de Israel propriamente dita quanto a outras mitzvot agrícolas — mas é justamente essa aceitação parcial que torna necessária a distinção desta mishná, esclarecendo que o acréscimo posterior, ao contrário dos bikurim originais, não desfruta da mesma tolerância geográfica).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O Bartenura desenvolve com mais detalhe as duas leituras possíveis desta mishná — uma ligada ao Ever haYarden, outra à controvérsia sobre frutos de fora da Terra vista na Mishná 3:9.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Bikurim 3:11
וְאִם אֵינָהּ בָּאָה מִן הָאָרֶץ. כְּגוֹן שֶׁהֵבִיאוּ הַתּוֹסֶפֶת מֵעֵבֶר לַיַּרְדֵּן, דִּתְנַן לְעֵיל שֶׁמְּבִיאִים מִשָּׁם בִּכּוּרִים אַף עַל פִּי שֶׁאֵינָהּ אֶרֶץ זָבַת חָלָב וּדְבַשׁ. אִי נַמִּי מַתְנִיתִין רַבִּי שִׁמְעוֹן הִיא דְּאָמַר לְעֵיל מְעַטְּרִים אֶת הַבִּכּוּרִים חוּץ מִשִּׁבְעַת הַמִּינִים, וְהוּא הַדִּין מִפֵּרוֹת שֶׁגָּדְלוּ בְּחוּץ לָאָרֶץ, וְכִי הֵיכִי דְאַלִּיבֵּיהּ מְעַטְּרִים בְּפֵרוֹת חוּץ לָאָרֶץ, הָכִי נַמִּי הַתּוֹסֶפֶת בָּאָה מִפֵּרוֹת חוּץ לָאָרֶץ. וְקָא מַשְׁמַע לָן הָכָא שֶׁהַתּוֹסֶפֶת שֶׁאֵינָהּ מִן הָאָרֶץ אֵינָהּ כַּבִּכּוּרִים.

"Mas se não vem da Terra": como se trouxeram o acréscimo do Ever haYarden, pois ensinamos acima que trazem bikurim de lá, ainda que não seja terra que mana leite e mel. Ou então, esta mishná é [segundo] Rabi Shimon [ben Nannas], que disse acima: coroam-se os bikurim exceto com os sete tipos — e a mesma regra vale para frutas que cresceram fora da Terra; e assim como, segundo ele, coroam-se com frutas de fora da Terra, também o acréscimo pode vir de frutas de fora da Terra. E vem nos ensinar aqui que o acréscimo que não é da Terra não é como os bikurim (o Bartenura apresenta duas leituras complementares e não mutuamente excludentes para o caso concreto discutido nesta mishná: a primeira, mais direta, entende "fora da Terra" como o Ever haYarden — aceitável para os bikurim originais, mas não para o acréscimo; a segunda, mais técnica, conecta esta mishná à posição de Rabi Shimon ben Nannas da Mishná 3:9, que permitia adornar com frutas verdadeiramente estrangeiras — de fora de toda a Terra de Israel, incluindo o Ever haYarden — mostrando que, mesmo sob essa posição permissiva quanto ao adorno, o acréscimo propriamente dito continuaria exigindo origem na Terra para herdar o status pleno de bikurim).

Massechet Bikurim não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.