Seder Zeraim · Massechet Bikurim · Perek Guimel · Mishná 1

"Como se separam os bikurim"

כֵּיצַד מַפְרִישִׁין הַבִּכּוּרִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abertura do Perek Guimel: depois de dois capítulos dedicados a comparar bikurim com terumá e maasser sheni, e a resolver as dúvidas classificatórias do koi, a mishná retoma o fio do Perek Alef — o próprio ato de separar os bikurim no campo — e descreve o gesto concreto de reconhecer e atar o fruto que amadureceu primeiro

Como se separam os bikurim? Desce o homem ao meio de seu campo e vê uma figueira que amadureceu primeiro, um cacho de uvas que amadureceu primeiro, uma romã que amadureceu primeiro, ata-o com junco e diz: eis que estes são bikurim (o gesto de separação é simples e concreto: o dono do campo caminha por sua própria terra, identifica visualmente o primeiro fruto de cada espécie a atingir o estágio de bikur — o início do amadurecimento — e o marca fisicamente com uma tira de junco, ao mesmo tempo em que pronuncia a fórmula verbal que lhe confere, a partir daquele momento, o estatuto sagrado de bikurim, primícias destinadas ao Templo). Rabi Shimon diz: ainda assim, volta e os chama de bikurim depois que tenham sido arrancados do solo (Rabi Shimon discorda quanto ao momento em que a designação verbal realmente produz efeito prático completo: para ele, é insuficiente proclamar "eis que estes são bikurim" enquanto o fruto ainda está preso à árvore ou à videira — é necessário repetir essa proclamação no momento em que o fruto é efetivamente colhido e separado da terra, pois somente então ele se torna, de fato, um objeto apto a receber plenamente o estatuto de bikurim).

כֵּיצַד מַפְרִישִׁין הַבִּכּוּרִים. יוֹרֵד אָדָם בְּתוֹךְ שָׂדֵהוּ וְרוֹאֶה תְּאֵנָה שֶׁבִּכְּרָה, אֶשְׁכּוֹל שֶׁבִּכֵּר, רִמּוֹן שֶׁבִּכֵּר, קוֹשְׁרוֹ בְגֶמִי, וְאוֹמֵר, הֲרֵי אֵלּוּ בִּכּוּרִים. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, אַף עַל פִּי כֵן חוֹזֵר וְקוֹרֵא אוֹתָם בִּכּוּרִים מֵאַחַר שֶׁיִּתָּלְשׁוּ מִן הַקַּרְקָע:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

O mandamento de trazer os primeiros frutos ao Templo, formulado em Devarim 26, é a fonte direta de toda a cerimônia que o Perek Guimel passa agora a descrever passo a passo.

Devarim (Deuteronômio) 26:1-2
וְהָיָה כִּי תָבוֹא אֶל הָאָרֶץ אֲשֶׁר ה' אֱלֹהֶיךָ נֹתֵן לְךָ נַחֲלָה וִירִשְׁתָּהּ וְיָשַׁבְתָּ בָּהּ. וְלָקַחְתָּ מֵרֵאשִׁית כָּל פְּרִי הָאֲדָמָה אֲשֶׁר תָּבִיא מֵאַרְצְךָ אֲשֶׁר ה' אֱלֹהֶיךָ נֹתֵן לָךְ, וְשַׂמְתָּ בַטֶּנֶא, וְהָלַכְתָּ אֶל הַמָּקוֹם אֲשֶׁר יִבְחַר ה' אֱלֹהֶיךָ לְשַׁכֵּן שְׁמוֹ שָׁם.
"E será, quando entrares na terra que o Senhor teu Deus te dá por herança... e tomarás das primícias de todo fruto da terra... e as porás num cesto, e irás ao lugar que o Senhor teu Deus escolher para ali fazer habitar o seu nome" — este versículo é a fonte direta do mandamento de bikurim, e o verbo "tomarás" (וְלָקַחְתָּ) é o ponto de partida da discussão desta mishná: a Torá descreve um ato de "tomar" o fruto, e a mishná detalha como esse ato começa já no campo, com o reconhecimento e a marcação do primeiro fruto amadurecido de cada espécie, mesmo antes de ser efetivamente colhido.

Por que a Mishná abre o Perek Guimel com o gesto de atar o fruto com um junco? A resposta está na tensão entre dois momentos: o reconhecimento no campo (ainda preso à árvore) e a colheita física. A Torá fala em "tomar" o fruto e "trazê-lo" — dois verbos que sugerem uma sequência de ações. A mishná ensina que a santidade de bikurim já pode ser conferida ao fruto por uma simples declaração verbal, feita no momento em que o dono do campo o identifica visualmente como o primeiro do seu tipo a amadurecer; o gesto de atá-lo com um junco serve apenas para marcá-lo fisicamente, garantindo que não seja confundido ou colhido por engano junto com o restante da colheita comum. Rabi Shimon, no entanto, entende que essa primeira proclamação, feita enquanto o fruto ainda está preso ao solo, não é suficiente para todos os efeitos práticos — por isso exige uma segunda proclamação no momento da colheita real, quando o fruto é finalmente arrancado da terra. Este debate prepara o terreno para as mishnayot seguintes, que descrevem a segunda etapa da mitzvá: como esses frutos, já separados e identificados, são reunidos e conduzidos coletivamente até Jerusalém.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam trata do processo de separação dos bikurim principalmente em Hilchot Bikurim, Perek 2 — capítulo anterior ao início do bloco cerimonial que corresponde a este Perek Guimel da Mishná (Hilchot Bikurim, Perakim 3-4). Não há, portanto, uma halachá dedicada especificamente a este gesto de "atar com junco"; a referência mais próxima trata da qualificação do fruto como bikur.

Rambam · Hilchot Bikurim 2:6
אֵימָתַי מַפְרִישִׁין אֶת הַבִּכּוּרִים מִשֶּׁיַּתְחִיל הַפְּרִי לְהִתְבַּשֵּׁל שֶׁנֶּאֱמַר (שמות כג יט) "רֵאשִׁית בִּכּוּרֵי אַדְמָתְךָ".
Desde quando se separam os bikurim? Desde que o fruto começa a amadurecer, pois foi dito: "as primícias dos primeiros frutos da tua terra" (o Rambam fixa aqui o critério temporal que a mishná pressupõe: a separação ocorre no exato momento em que o fruto atinge o estágio inicial de amadurecimento — bikur — e não é necessário aguardar sua maturação completa; é esse mesmo critério que permite ao dono do campo, ao "descer e ver" a figueira ou o cacho que "bicru", reconhecê-los de imediato como aptos à designação verbal descrita nesta mishná).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O Perush HaMishná do Rambam e o comentário de Bartenura, ambos preservados por completo para esta mishná.

Rambam · הָרַמְבַּ"ם
Perush HaMishná, Bikurim 3:1
גְּמִי יָדוּעַ, וּבְעַרְבִי גַ'מַאם, וְהַכַּוָּנָה בָּזֶה שֶׁיִּרְשֹׁם אוֹתָם בְּאֵיזֶה דָּבָר שֶׁיִּזְדַּמֵּן כְּדֵי שֶׁיַּכִּיר אוֹתָם, וּמַה שֶּׁיִּחֵד גְּמִי כְּפִי הַנָּהוּג. וְאָמַר הַשֵּׁם יִתְבָּרַךְ בַּבִּכּוּרִים (דברים כו י) "רֵאשִׁית פְּרִי הָאֲדָמָה", וְאָמְרוּ חֲכָמִים בִּשְׁעַת הֲבָאָה בִּלְבַד יִצְטָרֵךְ שֶׁיִּהְיֶה פְּרִי, אֲבָל בִּשְׁעַת הַפְרָשָׁה אֲפִלּוּ הֵן פַּגִּין, כְּלוֹמַר שֶׁאֵינָם מְבֻשָּׁלִים, זֶה מַסְפִּיק. וּלְפִיכָךְ אוֹמֵר שֶׁאִם קָרָא לָהֶם שֵׁם וְהֵם פַּגִּין בְּאִילָנוֹתֵיהֶן, אֵינוֹ צָרִיךְ לִקְרוֹת לָהֶם שֵׁם אַחֵר לְקִיטָתָן וְגֹמֶר בִּשּׁוּלָם. וְרַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, כְּמוֹ שֶׁבִּשְׁעַת הֲבָאָה נִצְטָרֵךְ לִהְיוֹת פְּרִי, כָּמוֹ כֵן בִּשְׁעַת הַפְרָשָׁה נִצְטָרֵךְ שֶׁיִּהְיוּ פְּרִי, וּלְפִיכָךְ אוֹמֵר שֶׁקּוֹרֵא אוֹתָם בִּכּוּרִים אַחַר לְקִיטָתָן וְגֹמֶר בִּשּׁוּלָם. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן.

Guemi é conhecido — em árabe, jamam — e a intenção aqui é que ele os marque com o que quer que se apresente, para que os reconheça; e o fato de ter especificado o junco segue apenas o costume comum (o Rambam esclarece que o material do laço — junco — não é uma exigência halachicamente essencial, mas reflete simplesmente a prática habitual; qualquer marca reconhecível cumpriria a mesma função de identificação). E disse o Nome, bendito seja, sobre os bikurim: "as primícias do fruto da terra" — e disseram os sábios: apenas no momento de trazê-los é necessário que seja fruto [maduro], mas no momento da separação, ainda que sejam pagim — isto é, que não estejam maduros — isso é suficiente (o Rambam estabelece a distinção temporal central: a Torá exige fruto maduro apenas quando os bikurim são efetivamente levados ao Templo; no campo, no momento inicial de separação e proclamação, basta que o fruto esteja no estágio verde e imaturo de pagim, que precede o bikur). E por isso diz que, se lhes deu esse nome ainda verdes em suas árvores, não precisa dar-lhes outro nome depois de sua colheita e do término de seu amadurecimento. E Rabi Shimon diz: assim como no momento de trazê-los precisamos que seja fruto, também no momento da separação precisamos que sejam fruto; e por isso diz que os chama de bikurim depois de sua colheita e do término de seu amadurecimento. E a halachá não é como Rabi Shimon (o Rambam resume a controvérsia central: para os sábios anônimos, a proclamação inicial no campo, mesmo sobre fruto ainda verde, já é definitiva e não precisa ser repetida; para Rabi Shimon, essa proclamação inicial é apenas preliminar, e uma segunda declaração — agora sobre fruto já maduro e colhido — é indispensável. O Rambam encerra confirmando que a halachá segue a opinião da maioria, contra Rabi Shimon).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Bikurim 3:1
כֵּיצַד מַפְרִישִׁין. שֶׁבִּכְּרָה. וַאֲפִלּוּ לֹא נִגְמַר הַפְּרִי, דִּכְתִיב (דברים כו) הִנֵּה הֵבֵאתִי אֶת רֵאשִׁית פְּרִי, בִּשְׁעַת הֲבָאָה הוּא פְּרִי, אֲבָל בִּשְׁעַת הַפְרָשָׁה אֵין צָרִיךְ שֶׁיִּהְיֶה פְּרִי, אֶלָּא אֲפִלּוּ בֹּסֶר, וַאֲפִלּוּ פַּגִּין.

"Como se separam": que amadureceu — e mesmo que o fruto ainda não esteja completo, pois está escrito (Devarim 26): "eis que trouxe as primícias do fruto" — no momento de trazê-lo é que ele precisa ser fruto [maduro], mas no momento da separação não é necessário que seja fruto, mas basta ainda que seja boser, e mesmo pagim (Bartenura resume, de forma direta, a mesma distinção que o Rambam desenvolveu com mais detalhe: o versículo que fala em "trazer" o fruto exige maturação apenas para o ato final de entrega no Templo; já a separação inicial no campo pode ocorrer sobre fruto em qualquer estágio anterior — boser, que é um pouco mais desenvolvido, ou pagim, o estágio mais verde e inicial de todos).

Massechet Bikurim não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.