Seder Zeraim · Massechet Bikurim · Perek Alef · Mishná 8

"Separou seus bikurim, foram roubados"

הִפְרִישׁ בִּכּוּרָיו, נִבְזְזוּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Oitava mishná do capítulo: trata dos infortúnios que podem acometer os bikurim já separados — roubo, decomposição, furto, perda ou impureza — antes e depois de chegarem ao Templo, e das consequências práticas de cada cenário para a recitação e para a lei do "quinto acrescido" aplicável a quem consome bikurim indevidamente

Se alguém separou seus bikurim, e foram roubados, ou apodreceram, ou foram furtados, ou se perderam, ou ficaram impuros, traz outros em seu lugar, e não recita (os frutos substitutos, apesar de tecnicamente cumprirem a obrigação de trazer bikurim, já não são "o princípio" no sentido exato exigido pela declaração — a designação original foi frustrada). E os segundos não estão sujeitos, quanto a eles, ao quinto acrescido (a lei geral de que quem consome indevidamente um alimento sagrado como bikurim paga o valor mais um quinto adicional — os frutos substitutos, por não serem tecnicamente "bikurim" em sentido pleno, ficam isentos dessa penalidade específica). Se ficaram impuros no pátio [do Templo], ele os dispersa (esvazia o cesto de seu conteúdo impuro) e não recita.

הִפְרִישׁ בִּכּוּרָיו, נִבְזְזוּ, נָמַקּוּ, נִגְנְבוּ, אָבְדוּ, אוֹ שֶׁנִּטְמְאוּ, מֵבִיא אֲחֵרִים תַּחְתֵּיהֶם וְאֵינוֹ קוֹרֵא. וְהַשְּׁנִיִּים אֵינָם חַיָּבִים עֲלֵיהֶם חֹמֶשׁ. נִטְמְאוּ בָעֲזָרָה, נוֹפֵץ וְאֵינוֹ קוֹרֵא:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A obrigação de substituir bikurim perdidos decorre da mesma cláusula que já fundamentou a Mishná 1:1 — mas agora lida em conjunto com "trarás", indicando responsabilidade contínua até a entrega final.

Shemot (Êxodo) 23:19
רֵאשִׁית בִּכּוּרֵי אַדְמָתְךָ תָּבִיא בֵּית ה' אֱלֹהֶיךָ.
"O princípio dos primeiros frutos da tua terra trarás à casa do Senhor teu Deus." A palavra "תָּבִיא" (trarás) — no futuro, como um mandamento contínuo até a chegada efetiva ao Templo — é lida pelos Sábios como fundamento de que a responsabilidade sobre os bikurim já separados não se encerra no momento da separação, mas persiste até que eles de fato cheguem ao seu destino final; qualquer perda no caminho gera a obrigação de trazer substitutos.

Por que os frutos substitutos, mesmo cumprindo integralmente a obrigação de "trazer", não geram a obrigação do quinto acrescido para quem os consumisse indevidamente? A lei do quinto acrescido (Vayikrá 22:14) se aplica especificamente a algo com status pleno de "coisa sagrada" (kodesh) — e os bikurim originais adquirem esse status no momento exato em que são designados verbalmente pelo agricultor, ainda ligados à terra. Os frutos "segundos", trazidos como substitutos, nunca passaram por esse ato formal de designação enquanto ainda pendurados na árvore — eles apenas acompanham, retroativamente, a obrigação já criada pelos primeiros. Por isso, tecnicamente, sua santidade é de um grau ligeiramente distinto, suficiente para cumprir a mitzvá de "trazer", mas não suficiente para acionar a penalidade adicional do quinto.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica os dois cenários desta mishná em Hilchot Bikurim, capítulo 4, halachot 9-10, distinguindo perda antes e depois da chegada ao Templo.

Rambam · Hilchot Bikurim 4:9-10
הִפְרִישׁ בִּכּוּרָיו וְאָבְדוּ קֹדֶם שֶׁיַּגִּיעַ לְהַר הַבַּיִת, וְהִפְרִישׁ אֲחֵרִים תַּחְתֵּיהֶן, מֵבִיא הַשְּׁנִיִּים וְאֵינוֹ קוֹרֵא, לְפִי שֶׁאֵינוֹ יָכוֹל לוֹמַר אֶת רֵאשִׁית כָּל פְּרִי הָאֲדָמָה, לְפִי שֶׁאֵינָן רֵאשִׁית. וְאֵלּוּ הַשְּׁנִיִּים אֵין חַיָּבִים עֲלֵיהֶן חֹמֶשׁ כְּבִכּוּרִים. הֵבִיא בִּכּוּרָיו וְנִטְמְאוּ בָּעֲזָרָה, נוֹפְצָם שָׁם וְאֵינוֹ קוֹרֵא.
Separou seus bikurim e se perderam antes de chegarem ao Monte do Templo, e separou outros em seu lugar, traz os segundos e não recita, pois não pode dizer "o princípio de todo fruto da terra", já que não são o princípio (o Rambam explica a razão exata da isenção de recitação: a palavra "רֵאשִׁית", princípio ou primícia, deixa de ser tecnicamente verdadeira para os frutos substitutos, que não foram, eles mesmos, os primeiros frutos designados). E estes segundos não estão sujeitos, quanto a eles, ao quinto acrescido como bikurim. Trouxe seus bikurim e ficaram impuros no pátio, os dispersa ali e não recita (o Rambam confirma que, uma vez chegados ao Templo, uma impureza que sobrevenha ali não gera obrigação de trazer substitutos — apenas de descartar os frutos impuros, sem recitação).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná, que trata dos infortúnios que podem acometer os bikurim já separados, antes e depois de chegarem ao Templo.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Bikurim 1:8
נמקו. כמו נמסו, המק בשרו, אתם ימקו, ואחרים רבים: נבזזו ג"כ ידוע, מגזרת לבוז בז: ואינו קורא. לפי שאי אפשר לומר הבאתי את ראשית פרי האדמה, מפני שאינו ראשית, ועוד יתבאר לך שהבכורים האמיתיים חייבים עליהם חומש. ופי' נופץ כמו נוער או מריק, מגזרת נעור וריק.

"Namaku" (apodreceram): como "se derreteram", "sua carne se consumirá" (Zacarias 14:12), "com eles se consumirão" (Vayikrá 26:39), e muitos outros (o Rambam identifica a raiz hebraica do verbo através de paralelos bíblicos, esclarecendo que se trata de decomposição orgânica). "Nivzezu" (foram roubados): também conhecido, da raiz "levoz baz" (saquear um saque) (Yeshayahu / Isaías 10). "E não recita": porque é impossível dizer "trouxe o princípio do fruto da terra", pois não é o princípio, e mais adiante se esclarecerá que os bikurim verdadeiros [sim] estão sujeitos ao quinto acrescido (o Rambam antecipa aqui a distinção que será desenvolvida na halachá, entre bikurim originais — sujeitos ao quinto — e frutos substitutos — isentos dele). E a explicação de "nofetz" é como "sacudir" ou "esvaziar", da raiz "despertar" e "vazio" (o Rambam esclarece o verbo técnico usado para o ato de despejar o conteúdo impuro do cesto).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Bikurim 1:8
נָמַקּוּ. נִרְקְבוּ וְנָמַסּוּ, כְּמוֹ אִתָּם יִמָּקּוּ: נִבְזְזוּ. נִגְזְלוּ מִמֶּנּוּ, כְּמוֹ בָּזַזְנוּ לָנוּ: אֵין חַיָּבִין עֲלֵיהֶם חֹמֶשׁ. זָר שֶׁאֲכָלָן אֵינוֹ מְשַׁלֵּם אֶת הַחֹמֶשׁ. וְהַךְ מַתְנִיתִין יְחִידָאָה הִיא וְאֵינָהּ הֲלָכָה, אֶלָּא הֲלָכָה שֶׁחַיָּבִים עֲלֵיהֶם חֹמֶשׁ: נִטְמְאוּ בָעֲזָרָה נוֹפֵץ וְאֵינוֹ קוֹרֵא. גָּרְסִינַן, כְּלוֹמַר מְנַעֵר וּמֵרִיק הַסַּל מִן הַפֵּרוֹת כֵּיוָן שֶׁנִּטְמְאוּ, וְהַסַּל נִתָּן לַכֹּהֲנִים, דִּכְתִיב וְלָקַח הַכֹּהֵן הַטֶּנֶא מִיָּדֶךָ, פְּעָמִים שֶׁאֵין הַכֹּהֵן לוֹקֵחַ אֶלָּא הַטֶּנֶא. וְאֵינוֹ חַיָּב לְהָבִיא בִּכּוּרִים אֲחֵרִים תַּחְתֵּיהֶן, דְּכֵיוָן שֶׁבָּאוּ לְהַר הַבַּיִת לֹא מִתְחַיֵּב תּוּ בְּאַחֲרָיוּתָן.

"Namaku": apodreceram e se derreteram, como "com eles se consumirão". "Nivzezu": foram roubados dele, como "saqueamos para nós" (Devarim 2 — o Bartenura identifica a mesma raiz de "saque" usada em outro contexto bíblico). "Não estão sujeitos, quanto a eles, ao quinto": um não-sacerdote que os comesse não pagaria o quinto. E esta mishná é isolada [na sua opinião] e não é a halachá; antes, a halachá é que estão sujeitos, quanto a eles, ao quinto (o Bartenura sinaliza explicitamente, como fez na Mishná 1:4, que esta cláusula específica da mishná — a isenção do quinto para os frutos substitutos — não é a posição normativa final, embora não desenvolva aqui os detalhes dessa divergência). "Ficaram impuros no pátio, dispersa e não recita": interpretamos [o verbo] como sacudir e esvaziar o cesto dos frutos, já que ficaram impuros, e o cesto é dado aos sacerdotes, pois está escrito "e o sacerdote tomará o cesto de tua mão" — às vezes o sacerdote toma apenas o cesto (o Bartenura acrescenta um detalhe ritual não explícito na mishná: mesmo quando o conteúdo do cesto se torna impuro e precisa ser descartado, o próprio cesto continua tendo destino sagrado, sendo entregue ao sacerdote conforme o versículo). E não é obrigado a trazer outros bikurim em seu lugar, pois já que chegaram ao Monte do Templo, já não está mais sujeito à responsabilidade sobre eles (o Bartenura fecha o contraste central da mishná: a impureza antes da chegada ao Templo gera obrigação de substituição, mas a impureza depois da chegada não gera, porque a responsabilidade do agricultor — "até que os traga ao Monte do Templo", conforme a Mishná 1:9 — já se extinguiu).

Massechet Bikurim não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.