Sexta mishná do capítulo: reúne três cenários distintos que compartilham o mesmo resultado prático — trazer sem recitar por dúvida ou por perda da conexão com a terra — culminando na definição do marco temporal que separa "trazer e recitar" de "trazer sem recitar" ao longo do ano agrícola
Aquele que compra duas árvores dentro do que é do seu companheiro traz e não recita (por dúvida se a compra de árvores, sem menção explícita da terra, inclui ou não o solo sob elas). Rabi Meir diz: traz e recita. Se a fonte secou, [ou] a árvore foi cortada, traz e não recita (quando a fonte de água que sustentava o campo, ou a própria árvore frutífera, deixa de existir depois de já ter separado os bikurim). Rabi Yehudá diz: traz e recita. De Atzeret até a Festa (de Shavuot até Sucot), traz e recita. Da Festa até Chanucá, traz e não recita. Rabi Yehudá ben Beteira diz: traz e recita.
הַקּוֹנֶה שְׁתֵּי אִילָנוֹת בְּתוֹךְ שֶׁל חֲבֵרוֹ, מֵבִיא וְאֵינוֹ קוֹרֵא. רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר, מֵבִיא וְקוֹרֵא. יָבַשׁ הַמַּעְיָן, נִקְצַץ הָאִילָן, מֵבִיא וְאֵינוֹ קוֹרֵא. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, מֵבִיא וְקוֹרֵא. מֵעֲצֶרֶת וְעַד הֶחָג, מֵבִיא וְקוֹרֵא. מִן הֶחָג וְעַד חֲנֻכָּה, מֵבִיא וְאֵינוֹ קוֹרֵא. רַבִּי יְהוּדָה בֶן בְּתֵירָא אוֹמֵר, מֵבִיא וְקוֹרֵא:
A janela temporal de recitação se ancora numa palavra da própria declaração de bikurim, que a tradição rabínica lê como restrita a um período de alegria da colheita.
Devarim (Deuteronômio) 26:11
וְשָׂמַחְתָּ בְכָל הַטּוֹב אֲשֶׁר נָתַן לְךָ ה' אֱלֹהֶיךָ וּלְבֵיתֶךָ, אַתָּה וְהַלֵּוִי וְהַגֵּר אֲשֶׁר בְּקִרְבֶּךָ.
"E te alegrarás com todo o bem que o Senhor teu Deus te deu, a ti e à tua casa, tu e o levita e o convertido que está em teu meio." A palavra "וְשָׂמַחְתָּ" (e te alegrarás) é a base textual da restrição temporal: os Sábios ensinam que "não há recitação senão em tempo de alegria" — e a alegria plena da colheita anual, quando o agricultor já recolheu grãos e frutos e celebra sua fartura, dura de Shavuot até o fim de Sucot, mas já se considera concluída ao término desta última festa.
Por que "de Shavuot até Sucot" recita, mas "de Sucot até Chanucá" apenas traz sem recitar, se em ambos os períodos ainda há frutos a colher? A distinção não depende de haver ou não frutos disponíveis fisicamente, mas do estado emocional do agricultor em relação à colheita daquele ano específico. Entre Shavuot e Sucot, ele ainda está no processo ativo de recolher sua safra, e a alegria da colheita está em pleno curso. Ao final de Sucot — a "festa da colheita" por excelência, quando toda a fartura do ano já foi reunida e celebrada — essa alegria específica se encerra, ainda que fisicamente alguns frutos tardios continuem a amadurecer e possam ser trazidos ao Templo até Chanucá. A recitação, por exigir "tempo de alegria", fica então limitada à primeira janela.
Halachot · הֲלָכוֹת
O Rambam codifica os três cenários desta mishná em Hilchot Bikurim, capítulo 4, halachot 4, 12 e 13.
Rambam · Hilchot Bikurim 4:4, 12-13
הַקּוֹנֶה שְׁנֵי אִילָנוֹת בְּתוֹךְ [שָׂדֶה] שֶׁל חֲבֵרוֹ מֵבִיא וְאֵינוֹ קוֹרֵא, לְפִי שֶׁהַדָּבָר סָפֵק אִם יֵשׁ לוֹ קַרְקַע אוֹ אֵין לוֹ... הִפְרִישׁ בִּכּוּרָיו וְיָבַשׁ הַמַּעְיָן אוֹ שֶׁנִּקְצַץ הָאִילָן, מֵבִיא וְאֵינוֹ קוֹרֵא, לְפִי שֶׁזֶּה כְּמִי שֶׁאֵין לוֹ קַרְקַע שֶׁהֲרֵי אָבְדָה. הַמֵּבִיא בִּכּוּרִים מֵאַחַר חַג הַסֻּכּוֹת וְעַד חֲנֻכָּה, אַף עַל פִּי שֶׁהִפְרִישָׁן קֹדֶם הֶחָג, מֵבִיא וְאֵינוֹ קוֹרֵא, שֶׁנֶּאֱמַר וְשָׂמַחְתָּ בְכָל הַטּוֹב, וְאֵין קְרִיאָה אֶלָּא בִּשְׁעַת שִׂמְחָה, מֵחַג הַשָּׁבוּעוֹת עַד סוֹף הֶחָג.
Aquele que compra duas árvores dentro do campo de seu companheiro traz e não recita, porque a questão é dúvida se ele tem terra ou não (o Rambam confirma que a razão da mishná é uma dúvida legal genuína, não uma decisão categórica de que a compra de duas árvores nunca inclui o solo). [...] Separou seus bikurim e a fonte secou, ou a árvore foi cortada, traz e não recita, pois isto é como quem não tem terra, já que ela se perdeu (o Rambam esclarece a lógica: não é a árvore ou a água em si que constitui "a terra" exigida pelo versículo, mas a perda da capacidade produtiva do campo equivale, para efeitos desta lei, à perda da própria terra). Aquele que traz bikurim depois da Festa de Sucot até Chanucá, ainda que os tenha separado antes da Festa, traz e não recita, pois foi dito "e te alegrarás com todo o bem", e não há recitação senão em tempo de alegria, de Shavuot até o fim da Festa (o Rambam esclarece um detalhe temporal importante: o que determina a recitação não é quando os frutos foram separados como bikurim, mas quando efetivamente são trazidos e entregues no Templo).
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
O que os grandes comentadores dizem sobre esta mishná, que combina dúvida de propriedade, perda da terra produtiva, e o calendário da alegria da colheita.
Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Bikurim 1:6
רבי מאיר אומר כי הקונה שני אילנות קונה קרקע, ולפיכך מביא וקורא, ודבריו דחוי, אבל העיקר אצלנו קנה שלשה אילנות קנה קרקע, קנה שני אילנות לא קנה קרקע, אבל לענין בכורים מביא מספק... ואמרו בספרי אין קריאה אלא בשעת שמחה, כשתמצא לומר מעצרת ועד החג מביא וקורא, מחג ועד חנוכה מביא ואינו קורא, לפי ששמחת אותה השנה כבר נגמרה בסוף חג הסוכות, שאמר השם יתברך ושמחתם לפני ה' אלהיכם.
Rabi Meir diz que aquele que compra duas árvores adquire [também] a terra, e por isso traz e recita, e sua opinião é rejeitada (o Rambam já sinaliza, ao expor a posição de Rabi Meir, que a halachá não a segue), mas o princípio segundo nós é: comprou três árvores, adquiriu a terra; comprou duas árvores, não adquiriu a terra; mas quanto a bikurim traz por dúvida (o Rambam explica a base da diferença entre a Mishná 1:6, que trata de duas árvores, e a Mishná 1:11, adiante, que tratará de três — o número de árvores é o critério técnico decisivo sobre presunção de aquisição de terra). [...] E disseram no Sifrei: não há recitação senão em tempo de alegria — quando é isso? De Atzeret até a Festa traz e recita; da Festa até Chanucá traz e não recita, porque a alegria daquele ano já se completou ao final da Festa de Sucot, pois disse o Nome bendito: "e vos alegrareis perante o Senhor vosso Deus" (o Rambam cita a fonte midráshica — o Sifrei — que conecta esta lei a outro versículo sobre a alegria de Sucot, reforçando que a "alegria da colheita" tem um limite temporal definido, e não se estende indefinidamente enquanto ainda houver frutos).
Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Bikurim 1:6
מֵבִיא וְאֵינוֹ קוֹרֵא. מְסַפְּקָא לֵיהּ לְתַנָּא קַמָּא אִי קָנָה קַרְקַע אִי לֹא, הִלְכָּךְ מֵבִיא מִסָּפֵק וְאֵינוֹ קוֹרֵא מִסָּפֵק... יָבַשׁ הַמַּעְיָן. שֶׁהָאִילָן חַי וְגָדֵל מִמֶּנּוּ: וְנִקְצַץ הָאִילָן. וְהוּא שֶׁיָּבַשׁ וְנִקְצַץ קֹדֶם שֶׁהִפְרִישׁ בִּכּוּרִים, אֲבָל אִם הִפְרִישׁ קֹדֶם, הוֹאִיל וְנִרְאוּ לִקְרִיאָה וְנִדְחוּ, יֵרָקְבוּ... מִן הֶחָג וְעַד חֲנֻכָּה מֵבִיא וְאֵינוֹ קוֹרֵא. דִּכְתִיב בְּפָרָשַׁת בִּכּוּרִים וְשָׂמַחְתָּ בְּכָל הַטּוֹב, אֵין קְרִיאָה אֶלָּא בִּזְמַן שִׂמְחָה, מֵעֲצֶרֶת וְעַד הֶחָג, שֶׁאָדָם מְלַקֵּט תְּבוּאָתוֹ וּפֵרוֹתָיו וְשָׂמֵחַ בָּהֶם. וּמֵהֶחָג וְאֵילָךְ, אַף עַל פִּי שֶׁהַרְבֵּה פֵּרוֹת נִלְקָטִים עַד חֲנֻכָּה, מִכָּל מָקוֹם שִׂמְחַת אוֹתָהּ שָׁנָה כְּבָר נִגְמְרָה בֶּחָג, הִלְכָּךְ מֵבִיא וְאֵינוֹ קוֹרֵא.
"Traz e não recita": é dúvida para o primeiro Tanna se adquiriu a terra ou não, por isso traz por dúvida e não recita por dúvida (o Bartenura confirma a leitura do Rambam: a razão é dúvida legítima, aplicada em ambas as direções — traz porque talvez seja obrigado, não recita porque talvez não seja). "Secou a fonte": da qual a árvore vivia e crescia. "E a árvore foi cortada": e isto quando secou e foi cortada antes de ter separado os bikurim; mas se já os separou antes, já que se tornaram aptos para a recitação e foram [depois] rejeitados, que apodreçam (o Bartenura acrescenta um detalhe temporal crucial: a sequência dos eventos determina o resultado — se a árvore já estava morta antes da separação, o fruto nunca chega a ser bikurim válido; se a separação ocorreu antes da perda da árvore, os frutos já designados permanecem no limbo, sem poderem ser trazidos nem substituídos). [...] "Da Festa até Chanucá traz e não recita": pois está escrito na parashá de bikurim "e te alegrarás com todo o bem", e não há recitação senão em tempo de alegria, de Atzeret até a Festa, quando a pessoa recolhe seus grãos e frutos e se alegra com eles. E da Festa em diante, ainda que muitos frutos ainda sejam colhidos até Chanucá, de todo modo a alegria daquele ano já se completou na Festa, por isso traz e não recita (o Bartenura enfatiza que a alegria em questão é específica e sazonal — vinculada ao processo ativo e presente da colheita — e não uma alegria genérica que persistiria enquanto qualquer fruto ainda estivesse disponível).
Massechet Bikurim não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.